[Penso que é quase universal e quase obrigatório. Quando conhecemos algo e surge um jornalista a escrever sobre isso desgostamo-nos, a análise parece sempre superficial ou falha. Não apenas devido a diferenças de pontos de vista ou afectos. Será também devido à visão do jornalista-generalista, sempre mudando de contextos e temáticas. Somos críticos, mas face ao corropio que é a vida deles não podemos ser impiedosos. Há que ser crítico mas atentar nisso, reconhecer melhor e pior.]
Ontem, inauguração da exposição de Malangatana (maldito scanner) e lançamento do seu livro. O que nos rimos, quase até às lágrimas, quando alguém narrou o último artigo sobre o tráfico de orgãos em Nampula. Eu já nem tinha lido. A jornalista foi até junto da "praia de Caetano Veloso" onde "Os pescadores não falam em barcos supeitos, apontam a linha férrea, o sentido Maputo, África do Sul".
Repito, o que nos rimos, compungidos até. Para quem não sabe, porque nunca lá foi, a praia é Fernão Veloso. Dirão "ok, um pequeno erro, acontece, nem é importante..." e eu até concordaria. Mas a linha férrea não vai para Sul, em direcção a Maputo. Vai para Oeste, em direcção ao Malawi. O que é uma característica crucial de toda a vida da província. O que é uma característica crucial do Moçambique colonial e nacional, os corredores ferroviários atravessam transversalmente o país, da costa ao Malawi no Norte, da costa ao Zimbabwe no Centro, da Costa à África do Sul no Sul. O caminho-de-ferro não conecta sul a norte. É das primeiras coisas que se aprendem quando se chega aqui. Pela sua importância e pelo que demonstra das articulações existentes, a todos os níveis.
E também porque se vê. Basta olhar para o sol.
Não há dúvida, a jornalista perdeu os pontos cardeais. Ou seja, perdeu o norte. Literalmente. Não se diga que há má vontade nas críticas ao seu trabalho. Só piedade.
Ah, o seu a seu dono. Chama-se a jornalista Ana Cristina Pereira. E o fotógrafo, que decerto se preocupou com a luz do Sol, também não lhe disse onde estava o norte. É ele Fernando Veludo.
E, já agora, o dono de tão especiosa prosa chama-se Público.
A Carolina já está com 22 meses, como isto passa a correr.
Domingo brincava ela no quarto de vestir enquanto eu me aperaltava para uma recepção. Sensível ao convite-convocatória, como qualquer modesto contratado a prazo se sente, não vá o diabo tecê-las.
Ali estava de camisa clara, cuecas, meias, e termino o novelo de gravata. Ela, lá de baixo, abre os olhos todos espantados à gravata e explode numa gargalhada. Linda, que hei-de lembrar para sempre...
***
Horas depois um amigo encontra-me, fato escuro e gravata, e há-de perguntar, ainda que mais sisudo, "estás doente?... cheira-me a comitivite".
O Bota Acima é um dos meus blogs de culto (outro será o "Oceanus Occidentalis ).
Visita diária ao Bota, às vezes concordo, outras não, boto comentário até. O seu grande defeito é a falta de uma cerveja para sentarmos a discutir os assuntos. O dono da casa afigura-se personagem. Ontem trouxe um pouco de Maputo. A raspar no vidro. Abraço para quem tão merece ser botado acima.
Foi em casa da mãe Inês, hum. O Ma-Schamba tinha o mano vindouro, esse Bandeira, o casal vizinho, aquele que tem moageira, e a mulher leão, essa mesmo que tem armas e é como soldado.
Aquele velho Companhia acabou por chegar e trouxe estruturas, afinal. E veio com esse Aviz mesmo.
Falou-se bem, hum.
Atrevido, há alguns dias atrevi-me a botar sobre cultura. Atrevido, repito.
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Hoje à tarde ouvi um pequeno discurso de Durão Barroso. Um improviso, não se tratava de um escrito de assessor. Falando então unicamente sobre cultura frisou que não entende o papel das instituições estatais portuguesas em África como o da apresentação da cultura portuguesa. Especificou, até de modo veemente, que a tarefa que gostaria de ver desenvolvida será a de apoio à organização da internacionalização [sistemática, esta é palavra minha mas fiel ao sentido do discurso] da arte contemporânea local. E rematou, sublinhando o seu desejo e a sua esperança que as instituições portuguesas mergulhem desde logo neste projecto (de desenvolvimento, acrescento eu).
Simples? Talvez. Mas hoje vou para a cama comovido.
Assim haja gente. Em Lisboa.
[preâmbulo:
são dezenas os empresários portugueses, vários os ministros, camionetas de jornalistas, os dirigentes multiplicam-se. Nos jornais de lá (dn, dn) anuncia-se até o regresso dos portugueses a (esta) África.
Já vi isto, já ouvi isto.
É noite pai, tarde, e apetecia-me estar aí contigo para bebericarmos um rum devagarinho, e lamentar-me que estou a ficar velho, a desabafar este tanto "já visto" e tu a rires "velho? então e eu nestes oitenta?". Porque só tu me farias mais novo agora, noite já, com tanto "já visto".
Então, e a propósito disso, lê lá, se tiveres paciência, o longo]
HA NGONHAMA YA MBANGU LOWÔ
No final do século foi quando começaram a chegar. Nessa altura parecia-lhes já arrumada a longínqua casa e, se bem que ninguém o clamasse à boca cheia, muitos acreditavam que estava de novo chegado o momento de romper mundos, ditando-lhes alhures alguns rumos.
Logo abundaram pela cidade. Afável a baía e ondulante o clima poucos arriscavam nortes ou interiores. Eram gentes de bem e de mal ou mesmo de nem tanto, armados de poucos ou grandes anseios que nenhum lhes diminuía o afã, uns apenas em novo ensaio, uns outros já em últimas e até desesperadas tentativas. A alguns acompanhavam-nos as mulheres, famílias a reclamarem o destino, mas muitos arribavam sós, cedo e com azáfama procurando filhos na terra como se viessem eles a ser âncora neste porto, assim tornando-o abrigo seguro. E em todos a sensação da mudança feita na distância, mas isso é da natureza humana, o sentir o andar como se fazer fosse.
Nessa época também eu cheguei, a empresa a oferecer-me boas condições pois necessitavam de alguém para as relações públicas, artes que constava serem incipientes por estas paragens. Por lá perdido no meio do pelotão nem hesitei, aproveitei e saltei, deixando a mulher mal disposta em casa. Resmunguei-lhe, não sei bem porquê, que “navegar é preciso e mais qualquer coisa” e vim aos dólares.
Lembro que esses eram tempos até de turistas, quantos recém-casados a fingirem um desflorar em terras exóticas, como se o verde local lhes viesse a fertilizar as alianças, perpetuando-lhes os apetites e os gozos. Com eles se cruzavam, já mais cansados, os romeiros da saudade aqui vindos a lamber feridas, cheirando uma terra à qual teimavam em chamar sua, indecisos se paraíso ou inferno. Tinham-lhes já passado, pelos menos então, quaisquer raivas antigas, não que a emoção os aclarasse, seriam antes os ares índicos e talvez o alívio de terem chegado ao chegar, que isso de sobreviver é difícil e não para todos.
Com azáfama também se apresentavam os governantes, deles havia constante trânsito, dizia-se que para criar clima pois era de consenso ser já tempo de se cicatrizarem velhas feridas, então chamadas equívocos. E tão enleante era o ambiente que amiúde chegavam administradores e proprietários, ágeis a desenhar lucros em rápidas e agitadas incursões. E logo rodas de convívio sortido, aquelas onde se ia fazendo o bem olhando a quem, animavam restaurantes e prostíbulos, exultantes nos comentários à última visita, à reunião havida, ao negócio encetado, ao investimento do mês, à parceria delineada, aos rumores das novidades. Tal como se tudo isso a todos pertencesse, como se o seu brilho dourado a todos alumiasse.
Lamentos havia-os, mas eram mais os resmungos devidos aos surpreendentes inesperados do dia a dia. E também os das famílias, queixas da alguma insegurança então que fora do casulo e da falta de locais de convívio legítimo. Mas nisso eram mais as senhoras, desde logo cansadas de sofrer os confortos da criadagem e dessa árdua tarefa de resguardarem os maridos dos ânimos dos patrícios aqui solteiros, por opção ou geografia, sempre estes desinquietadores das calmarias conjugais.
Foi pois com alegria geral que se soube da aquisição do Cine-Teatro da cidade, sítio invejado ali à rua da presidência, dizia-se que há anos pelo Estado desusado. Era o agrado com mais um feito da comunidade, mas mais ainda a expectativa do entretenimento em vidas que corriam monótonas, distracções inclusive com coisas “muito nossas”, postais da terra a mitigar saudades. Lesto foi o alindar da sala, a maquinaria a chegar de fora e a juntar-se a estofaria e limpezas, para que tudo pudesse brilhar no que veio a ser uma agitada inauguração, rara ocasião então aproveitada por quem pôde para provar elegâncias. Também eu fui convocado para a gala, apesar de recém-chegado já me sentia alguém na cidade, um director, quando entrava nos restaurantes havia até quem se levantasse, por vezes pagavam-me as contas na noite e, inclusive, já me tinha sido possível corresponder a um ou outro favor.
Rápido se tornou o Cine-Teatro palco do bulício da cidade no hábito generalizado da sessão de cinema intrometida no quotidiano e prestando-se a falsos acasos, encontros ditos ocasionais pois bem se sabia os dias certos em que cada um ali se apresentava entre o irrisório de filmes. Pelo fastio da vida e no gozo da recente notabilidade fiz-me presença assídua, as estreias semanais, os concertos de beneficência e até as inúmeras conferências onde se discutiam futuros e obrigações do país. Além disso a minha administração, sempre atenta à imagem, instruiu-me a que fosse eu pródigo em patrocínios pois estes sempre nos iriam dar bom nome na praça, cativar boas vontades locais, “deles e nossas” sorria-me o Administrador Delegado, e tudo isso me impunha lugar cativo nos eventos.
E assim me fui sentindo amigo da casa, bem-vindo nas portas gratuitas e sorrisos abertos do pessoal, gente ali estabelecida há muito, alguns ainda dos idos coloniais, que as compras ao Estado sempre trazem o trabalho de antanho, aqueles que sentem a casa como sua e que nem pensam em partir, ainda para mais dali, com tanta falta de empregos e sendo estes nada duros, abrigados de chuvas e imponderáveis.
Nisso fui crescendo amizade com a gerente, uma conterrânea meio balzaquiana aqui encalhada saberia deus porque razões que nunca lhas perguntei. Por ela pude confirmar que corria bem o negócio, e nesses bons augúrios cedo se rumorejaram expansões, velhos cinemas lá pelos nortes, “tudo para reconstruir” claro, mas também diferentes arrojos, jornais, revistas, até um canal de televisão. E com a fronteira tão vizinha ali para sul, sonhavam-se outros passos cuja ambição excitava até os clientes.
Foi então passando algum tempo, imperceptível como é este sempre que se agita. Nesse curso certo dia dei conta que os olhos da gerente vinham mudando de cores, iam indo num caleidoscópio, uns dias acordavam azuis, noutros castanhos, para logo voltarem ao verde, seguiam ao preto, e não tinham nisso descanso. Essas deambulações incomodaram-me mas hesitava, como alertá-la sem lhe despertar preocupações? E era caso sério, apenas ela não atentava no ocorrido, os próprios funcionários se inquietavam, ali bem expostos a tais miríades de cores. Isso adivinhei nos seus silêncios, que deles não poderia esperar que me dedicassem confissões ou preocupações, branco doutor que era e para mais da própria gerente amigo. No passar dos dias ainda questionei o antigo responsável Nhamtumbo, ali sempre informal influência, mas o velho, mirrado, largou-me um vago sorriso sem denúncias de grande interesse, e apenas anuíu em concordar em que era aquilo bem estranho, num “ai senhor doutor, são estas coisas modernas, nunca tinha visto...”.
Tendo-me deixado a matutar sobre toda aquela situação súbito compreendi que os próprios filmes iam piorando, não só eram eles segundas escolhas mas mesmo dessas vinham agora as cópias riscadas ou mesmo cortadas, enquanto o novo projector se afirmava cada vez mais renitente ao trabalho, e até o gerador se tornava menos solícito, sempre pronto a interromper sessões. E, cúmulo, mesmo as chuvas quando se abriam tomavam conta da sala, há pouco tão orgulhosa. Com tudo isto ia o negócio decaindo, ainda sem reclamações da sede nem murmúrios na clientela, se bem que esta cada vez mais esparsa. Seriam apenas os percalços tropicais?, interroguei-me, então ainda mais intrigado com o arco-íris na mulher. Mas calei-me, nada comentei, pois não eram assuntos da minha competência, e a vida de cada um é de cada um.
Finalmente algum espelho terá sido clarividente, que dos acontecimentos lá se apercebeu a gerente. Inquiriu e para o esclarecimento das causas ter-lhe-ão valido algumas solidariedades femininas, após as quais veio ter comigo, que da vizinhança tinha feito poiso para lhe ir distribuindo alguns conselhos de modo a que capinasse ela a vida. Ao que lhe afiançavam tudo aquilo, desvarios cromáticos e mecânicos, silêncios e vazios, se devia ao facto do antigo responsável ser leão, e ter entretanto redobrado as suas felinas actividades. E, pasmada o dizia, sendo isso do conhecimento geral dele fugiam os clientes, temores redobrados nas falsas noites que o cinema fingia, todas aquelas imagens de sonho tornadas assim fábricas de pesadelos.
“Que fazer com o leão?” angustiava-se a gerente. Despedi-lo, e de imediato, foi a minha proposta, mas ela a retorquir-me que o não poderia fazer, não tinha para isso justa causa, ao que ainda opus “e que raio de lei do trabalho é esta, se ser leão não é justa causa para despedimento?”, quem protegeria os direitos das vítimas? Mas ela, aflita, a negar-se, nem pensar em despedir o leão, isso implicaria recurso para o tribunal e como poderia ela reportar à longínqua sede “despedi o funcionário tal que é leão”, não haveria de ser compreendida, haveria um espanto lisboeta e decerto seria também ela dispensada.
Mas apesar dessa discordância insistia ela na minha opinião. Assim instigado alertei-a para a necessidade de inverter o rumo das coisas, trabalhar a opinião pública, pelo que lhe propus uma campanha publicitária que torneasse alguns dos malefícios sem que fosse muito explícita, pois era delicado o problema. Aventei então uma reprise, “O Rei Leão”, delícia da meninada grande, apresentação emoldurada por anúncios afiançando que era esse “ha ngonhama ya mbangu lowô”, o ronga para “o único leão deste lugar”. E que entretanto ao outro leão fossem dadas férias, direito de todos e matéria que não levantaria quaisquer reparos. Assim talvez se reduzissem as suas acções, avisado ele da compreensão alheia, assustado até, e com isso regressasse o público.
Mas em breve constatei que se a afluência tinha aumentado um pouco da serenidade do olhar da gerente não havia melhoras. E passo a passo foram regressando, implacáveis, as outras incongruências. Para mais pouco tempo depois aportou um director, aqui deslocado para estudos de expansão pois as más notícias ainda não tinham soado na sede. Mas não lhe era longa a estadia e, súbito, uma manhã cedo fui chamado pela vizinhança, apelo urgente que chegara a revolução!
Acorri, solidariedade de imigrados, para me defrontar com um pé de vento que era também de guerra, os funcionários aglomerados e recolhendo a solidariedade transeunte, dezenas de pessoas protestando à porta e acotovelando-se em indignação curiosa. Tudo isto coroando a presença de dois polícias, ali deslocados para defesa dos trabalhadores. Lentamente iam eles agitando um papel reportando a queixa entretanto apresentada, e o qual oscilava em alternância entre director e gerente, estes já cônscios da importância da situação não só pela agitação colectiva mas sabedores de que é por aqui sagrado o papel, pois quando lhe chegam ao corpo os problemas já não têm estes retorno possível. Apesar disso pareciam os agentes disponíveis para uma resolução amigável do assunto, sem particulares incidências ou relatos e porventura com modesto e privado reconhecimento. Mas a população é que não o aceitaria, exigindo eficiente e rápida resolução da questão apresentada.
De mim se esperava um conselho avisado e de imediato me deram conta do conteúdo da queixa. Ali, num português duvidoso mas de cuidadosa dactilografia, erguia-se o auto acusador, expressando a angústia dos funcionários. Nele se denunciavam as ímpias actividades do antigo responsável do pessoal, aquele velho Nhamtumbo, algo de irrefutável pois os queixosos com ele tinham sonhado, indício certo dos ataques que vinha ele desenvolvendo contra os seus colegas
Encarei o acusado, ali entrecoberto num canto, ainda mais mirrado do tão enrugado que estava, o fundo dos olhos encovados mais distantes do que o habitual, como que refugiando a alma bem num âmago que se queria inacessível. Confrontei-o com as acusações e ele, no tom assustadiço do encurralado, a negar “nada, senhor doutor, eu não fiz nada”. E eu a impor-me, alguém tinha que o fazer e já não seriam os meus dois patrícios, ali descabelados, “mais velho, que anda você a fazer, a querer matar os colegas?”, que vergonha aquela, que teria ele a ganhar com isso, trabalho havia para todos, para quê aquela maldade, e ele já pouco negava, desistindo-se num fastio raivoso “se eles o dizem!, senhor doutor, mas eu não fiz nada”.
Arrastava-se a situação, os polícias ali também desprovidos de atitude, e a gerente aflita, ainda para mais com o director tão incomodado com tudo aquilo, nada preparado para um sublevação popular à porta do seu Cine-Teatro. Urgia fazer uma limpeza, foi a minha única opinião, “vocês têm que chamar alguém de fora para sarar isto”, e ela anuindo entre o compreensiva e o assustada, e, avancei eu, para uma situação tão grave como esta impunha-se chamar um especialista de Inhassoro, zona desses mais poderosos, e o qual logo diria se havia ou não feitiços e decerto se encarregaria de os anular.
O director não desviava os olhos, julgo que avaliava da minha franqueza, mas logo lhe irromperam as dúvidas, até agrestes: “Você está a falar a sério?”, e eu encolhendo-lhe os ombros, insistindo que seria a única coisa a fazer, ao que ele logo se impôs, determinado na sua autoridade e ultrapassando qualquer concordância da sua subordinada, que “era o que faltava, andar agora a recrutar magos para nos resolver as questões”.
Ainda entreolhei a gerente, se bem que não me recorde qual era a cor dos olhos dela nesse dia. Mas então esvaziava-se ela diante do chefe, agora ali a afirmar-se, seria ele a resolver a contenda. E logo me voltou a antiga azia com gente desta, que não há continentes de permeio que os afaste, tão cheios de si mesmos, e amaldiçoei a diarreia que não se lhe chegava, que é sempre com ela que se lhes reduzem as certezas. Assim, e à laia de desistência, fui-lhe dizendo que tudo aquilo era com ele, tinham-me pedido opinião, estava dada e pronto, e concluí numa insistência já inútil “vocês têm aqui um problema laboral, se o quer resolver chame o curandeiro e verá como tudo acalma”.
Cresceu então o director, a reforçar a sua magreza, franzindo ainda mais a cara rósea destes recentes trópicos, aquele eterno casaco azul bem vincado e abandonado pelos ombros. “Ó Teixeira”, chegou-se-me ele ao apelido a modos que a sinalizar a gravidade do momento, que nem sequer aí tínhamos chegado, ali sem “doutores” que é certo tal não se usar entre homens da mesma idade e, julgava ele condescender, do mesmo estatuto, “nem pense nisso, nunca farei tal coisa”. Aí fui lesto, abandonei-lhe um ok despedindo-me daquela conversa sobre a qual se centravam todos os circundantes olhos, enquanto ele, convicto e sonoro, rematava para todos nós em jeito de justificação e já em nome da Companhia “nós também viemos para mudar este país!”.
Ainda levantei as mãos, rendido, e dei-me à saída deixando toda aquela turba a resmungar foradentes a situação, mas não sem deixar a Nhamtumbo uma última invectiva, que estava ele com sorte, mas que deveria parar com aquilo, tinha sido descoberto, nada ganharia com o assunto. E do assunto nada mais ouvi, algum acordo deve ter sido feito, falsos silêncios acredito.
Pouco depois o director regressou à base, que esgotado estaria o motivo da sua visita. E em breve partiu a gerente, já cansada não tanto da terra mas mais de estranhas ameaças, gentes que lhe irrompiam casadentro de arma na mão, nunca se soube se verdadeiras se falsas, que por outros nunca foram vistas, mas que para ela existiam é certo.
Passaram-me alguns anos e com eles novos interesses. Fui ouvindo dizer que o Cine-Teatro se esvaziava, e quando me arriscava a passar perto da porta bem notava que os cartazes iam sendo cada vez mais antigos e desconhecidos, ali postados reforçando um ar de abandono que, súbito, fazia até o folclore das gentes da cidade.
Hoje, com a família já bem longe e a casa em definitivo vazia de qualquer comodidade, o fastio da solidão levou-me ao refúgio do cinema. Cruzei, até cerimonioso, o silêncio da porta, preservado com cuidado pela pouca meia dúzia de clientes, ali todos um pouco com ar de engano. E logo agarrei a parca companhia de um café enquanto procurava nos muitos empregados, em desuso por ausência de quem servir, alguma cara conhecida com quem trocar mero cumprimento que fosse. Mas nada, ninguém do “meu tempo”, todos aqueles trabalhadores tinham partido, já não havia ali alguém para me reconhecer.
Súbito, saindo da sala ainda iluminada, lanterna desligada na mão, sorrindo-me um "boa noite, senhor doutor" o velho Nhamtumbo. Não resisti, entre o aliviado e o contente dei-lhe também um quente "éh, senhor Nhamtumbo, ainda está aqui?" e ele a acenar o óbvio, "então e os outros, foram-se?", e ele, seráfico e ainda mais mirrado, a anuir imóvel e longínquo, abandonado num sorriso mudo. "Só ficou você, Nhamtumbo?!", e ele nada sem negar, "áfinal?!" não pude deixar de rir-lhe, agora com ele solidário.
Saí para a rua, uma noite estrelada, destas daqui, a casa oca e a falta de sono, tudo apelava para que perseguisse a madrugada. Mas, estranho, tive pudor em gastar esta minha última noite índica em passeios solitários, tão desencaminháveis são esses. E de qualquer modo amanhã estarei já, e de vez, recomeçando em Luanda onde, contam, são os bares bem mais animados e tantos os patrícios por ora recém-chegados.
Agosto 2002
Há oito anos atravessei Moçambique em trabalho. Foi uma missão apressada, até um bocadinho trabalhosa, e que veio a ter impacto na minha vida pois dela resultou a minha emigração. Cumpria-me na altura organizar um conjunto de exposições e acompanhar um palestrante, o Prof. Dr. Carlos Ascenso André.
"Um peso pesado de Coimbra" avisaram-me em Lisboa, o que me inquietou deveras. Para quem não saiba os académicos são temíveis: na sua maioria trabalhadores individuais tendem para o auto-centramento, até egocentrismo; trabalhadores protegidos tendem para a incompreensão do mundo vasto que os cerca, aquele que tem um nome, "logística", ou melhor, "vida". Professores, viciam-se nessa relação hierárquica, a qual alargam ao mundo circundante. Pior ainda quando vêm de Coimbra, diz-se, não sei porquê, mas a impressão é tão constante que tem que ter alguma fundamentação que ultrapasse o mero preconceito.
Não podia estar mais iludido. Calhou-me uma gentileza de pessoa, cultissimo sabendo sê-lo de modo leve, excelente comunicador, divertido, interessado nos outros, nos seus interesses. E rijo, adaptando-se ao que o rodeava, gostando-o.
"Cinco estrelas".
Nunca mais o vi, de quando em vez cruzo alguém que o conhece e peço que lhe enviem os meus cumprimentos, o meu afecto e respeito (caro leitor, se lhe for possível...).
Hoje, nesta noite, leio no Público ter sido ele que organizou uma reunião "come back" de António Guterres. E onde este tão bem falou, apontando vectores fundamentais para o futuro desenvolvimento internacional.
Saúdo o prof. na sua actividade cívica. Tão necessária ela é. E gostaria agora de o reencontrar lá por Nampula ou Beira, recriar se possível o aprazível ambiente de quando por lá estivemos juntos, e pedir-lhe que me elucidasse ele, com todo o seu brilho, sobre o que fez Guterres durante os seus seis anos na senda do belo discurso com que agora nos brinda.
Mas como tal encontro nos é agora impossível terei que me ficar, estupefacto. Apreciando a ária, claro está. Ainda que ouvindo-a de outra área. Para sempre.
Cumpre aqui registar os blogs amigos que nos últimos dias incluíram elos para o Ma-Schamba, diz-me a Technorati. Os meus agradecimentos a:
Um Ganesh Gordo, MaisTurvaSão-Inconfidências à Mão, Blog 19, Balta-zar, Boemius,Bloggaridades-Socioelegias, Fumaças, Ocioso Pensamento, Cócegas na Língua, Sempre em Frente, Amor, Porque Morremos Senhor?, Não se Nasce, Fica-se, Jumento, Prima Desblog, Teclado Bloqueado, Rua da Judiaria, Rouba a Alheira, Vostrodamus, Memória Virtual, O Blog do Alex, Voz de Mim, Hiperbolico, e Diário de Bordo.
Adenda: e também ao Tupperware Onanista, Arqueoblogo e H Gasolim Ultramarino, os quais por alguma razão não me surgem via a tal Technorati.
Já agora, e diz o Ma-Schamba, há cada nome mais estranho. Razão teve o Vizinho ao perguntar a origem dos nomes de cada um.
Segue-se abordagem a alguns dos episódios mais hilariantes que vivi em Moçambique, deles tentando retirar explicação de teor antropológico. Para alguns poderá parecer de mau-gosto fazê-lo hoje. Mas não, não procuro qualquer sarcasmo, apenas entender um fenómeno que sendo cómico não se restringe a isso. Escrevo-o aqui por respeito, não por desrespeito. Respeito por nós todos, aqui e acolá. (E em linguagem o mais curta possível, dado que blog). O respeito de tentar compreender o inusitado.
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Em 1997 o Presidente da República Jorge Sampaio visitou Moçambique em visita de Estado e ofereceu uma recepção à comunidade portuguesa. Em 1998 o Primeiro-Ministro António Guterres visitou Moçambique em visita de Estado e também ofereceu uma recepção à comunidade portuguesa. Tive o privilégio de comparecer a ambas. Bonitos eventos, sentidos e elegantes, momentos até rituais de congregação dos nacionais aqui residentes, os quais não constituem uma comunidade, faltando-lhes para isso qualquer organicidade. Facto que será explicável pelas diferentes origens sociais, geográficas e culturais dos patrícios aqui residentes, bem como pelas acentuadas diferenças biográficas, muitas fruto da conturbada história nas últimas décadas dos portugueses em Moçambique .
Mas voltemos às recepções. Ambas assumiram o mesmo molde, com cerca de 3 mil convidados presentes numa tenda gigante colocada nas instalações do Hotel Polana. Foram então servidos vinhos portugueses e queijos da serra, um agradabilissimo menu, ainda para mais com tais produtos dos quais aqui se têm tantas saudades.
Nessas ocasiões surpreendeu-me a quantidade de compatriotas que, quando assim o entendiam, se retiravam acompanhados de queijos da serra debaixo do(s) braço(s), alguns já encetados, outros ainda por inaugurar.
A posteriori, entre o embaraçado e o indignado, alguns convivas de outras extracções afirmavam que tais práticas seriam dos portugueses de origem indiana, aqui bastante numerosos, não esquecer que Goa foi um alfobre do império.
Mas posso afiançar que não é isso verdade. E não há nada de ideológico nesta minha negação. É pura empiria, observação directa, até atenta (e divertida?). Este costume, o da " apropriação ritual dos queijos da serra" cruza diversas origens geográficas, religiosas e culturais.
Em 2001 o Presidente da República e o Primeiro-Ministro visitaram Moçambique por ocasião da cimeira de chefes de estado da CPLP. Nessa altura foi ofertada uma idêntica recepção, decorrida no complexo Mini-Golf. Algo diferente pois os queijos da serra foram então acompanhados de presuntos. Estes apresentavam-se laminados nos pratos , e com abundância, mas também no seu formato tradicional, pendurados sobre as mesas, servindo de decoração.
Após as conversas breves e os múltiplos cumprimentos típicos destes eventos encostei-me a uma mesa conversando com a dona do estabelecimento, minha conhecida desde os tempos em que aqui cheguei. Estava ela controlando os acontecimentos, ainda que o espaço tivesse sido alugado e, portanto, a sua responsabilidade executiva diminuta.
Enquanto conversávamos pude comprovar ao espanto, até terror, dos seus empregados, várias vezes dirigindo-se-lhe em pânico "D., o que fazemos?, eles [os convidados] estão a carregar os presuntos", perigando até a decoração. A senhora, estupefacta, ainda procurou o meu conselho, "o que é que eu faço?", e eu só me ria, "que fazer?", e ela "ouve, são teus patrícios, tu é que os compreendes, o que é que eu faço?", até aflita com a confusão e com as hipotéticas reacções. Lá lhe fui passando a minha modesta opinião, de experiência feita, que nada, que se ficasse ela quieta. Então não tinha alugado o espaço? Aquilo era oferecido na recepção, e no entender dos convivas era para levar, não tinha nada a ver com o assunto. Ela que se deixasse ficar. Assim mais sossegados bem se riram, ela e os empregados.
Estes episódios são já tradição. Surgem recorrentemente nas conversas. Narram-me ainda que aquando da visita do Presidente Mário Soares também os convidados saíram de mala cheia. E quando o Presidente Eanes visitou Maputo, em 1981, até pancada houve à porta da recepção.
De todos estes episódios pode-se pois retirar um padrão comportamental. Que ultrapasse o jocoso. Em meu entender este é já um comportamento tradicional, aquilo que a velha etnografia chamava de "usos e costumes", presente ente alguns extractos da comunidade portuguesa. Que assim representam a concepção que têm da relação havida com os seus (longínquos) representantes eleitos. Quando estes se aproximam extraem-lhes as oferendas, potenciam-nas. Aquilo a que eu, repetindo o acima considerado, teorizo como "a apropriação ritual dos queijos da serra" (e em calhando dos presuntos).
Presumo que isto possa ser interpretado desta forma: largos extractos dos portugueses aqui residentes, porventura não tanto a sua elite económica, sentem-se abandonados ou desprezados pela sociedade ou pelo seu Estado. Fruto da história complexa deste país, da descolonização. E também das levas de migrantes colonos desfavorecidos, dos quais alguns aqui se mantiveram, sempre reclamando algum apoio estatal. E não esquecendo o estigma do "português de segunda". E também de gente que por cá está e sente uma lassidão nos laços com o Portugal de origem, sempre desejáveis de reafirmar.
Nesse sentido esta apropriação de bens comestíveis nos momentos cíclicos em que a sua nacionalidade é reafirmada em eventos festivos e rituais (as visitas de Estado) não pode ser considerada apenas como fenómenos de cupidez e má-criação, para além de apetite. É também uma catarse de uma relação complexa com o seu Estado, uma afirmação daquilo que sentem, uma sensação em que se auto-definem como credores do seu Estado, do seu país. Do abandono em que se reclamam. E, obviamente, da sensação de orfandade que o fim do Império deixou em alguns extractos sociais, e neste caso explicitamente naqueles que não eram os mais favorecidos, nem nisso se tornaram.
Não discuto se terão razão, não é isso que me interessa. Afirmo que o sentem e assim o expressam, ritualmente. E afirmo também que adoram queijos da serra e presunto.
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Hoje o Primeiro-Ministro Durão Barroso chega a Moçambique. E logo à tarde há a recepção à comunidade portuguesa. Estarei presente, honrado com o convite. Mas de olhar antropológico atento, procurando comprovar se o ritual se repete.
Com um sorriso, claro está. Mas também compaixão.
Já que falei de raguebi gostaria de lembrar um ponto. Há muitos anos, por ocasião da Taça do Mundo de 1991 ou de 1995, João Paulo Bessa publicou no Público os melhores textos sobre desporto que li. Neles procurava explicar o jogo, e todas as suas etapas, através de uma analogia com uma batalha medieval.
Infelizmente não os guardei. Um dia encontrei-o algures e tive a desfaçatez de meter conversa para lhe dizer isto que acima escrevo, e pedir-lhe que os republicasse de alguma forma. Penso que nunca aconteceu. Se algum leitor os tiver ou conhecer bem que podia invadir os meus "comments".
Ontem Portugal teve uma vitória retumbante e inédita neste desporto. (Quem a imaginaria, há alguns anos?). Uma boa maneira de a comemorar seria a reapresentação daquele belissimo tratado. Ou será pedir demais ao Publico?
Acerca de um apontamento meu sobre a guerra no Sudão recebi uma simpática nota de um dos autores do "Acuso2", que inclusive teve a gentileza de o ecoar (o jargão diz "linkar") no seu blog.
Diz ainda estranhar o silêncio sobre esse assunto. Não estranho eu. Escrevi isso para alertar sobre o assunto (qualquer antropólogo lamenta o massacre em terras de Nuer, mas isso é outra história). Mas também escrevi para sublinhar um ponto. A cacofonia sobre guerras alhures na atmosfera portuguesa (seja lá qual for o meio de comunicação) prende-se com as possibilidades de associar as partes da guerra abordada ao espectro político-partidário português. Seja Israel, Iraque ou outro qualquer.
Há os que o fazem directamente (ou seja, têm consciência disso). Há os que fazem sem essa consciência, apenas surfando no discurso dominante.
E porque é tão importante o tal "espectro político", porque é tão premente discuti-lo com recurso a todas as analogias e ferramentas, até as tais guerras alhures? Num país onde nem a modalidade de tratamento de lixo se consegue decidir definitivamente?
Porque o controle do Estado ainda (sonho o ainda) permite o acesso às benesses. Económicas e estatutárias. E estatuto é economia, sff.
O meu caro Werewolf do Acuso 2 agradece-me ter alertado consciências. Não o fiz decerto. Nem nunca foi esse o meu objectivo. Pois não acredito que haja consciências dormentes (aqui e ali talvez, concedo). Há, aí a Norte, um "compromisso histórico" e as consciências agitam-se em torno dele, das flutuações que a divisão do quinhão vai tendo, consoante a estação. O resto do mundo que se lixe. Objectivamente, que se lixe tudo o que não dê para alimentar o discurso interno. Da maneira mais linear possível, dita eficaz.
Toda a solidariedade, toda a preocupação com o alheio, tudo isso é belo. Mas termina se for posto em causa o rendimento a distribuir. Exagero? Veja-se a festa com o Timor Lorosae, tudo na rua, etc e tal, tanta consciência desperta. Num país que se recusa a aumentar o volume de Ajuda Pública para o Desenvolvimento. Ainda que o tenha presente na retórica. Que nada faz para mudar as regras do comércio Norte-Sul. Não há aí o mínimo de vontade. Não é uma questão de consciência, é de vontade! E nisso Portugal é muito europeu: mudar um pouco (do mundo) para que tudo fique na mesma.
O "compromisso histórico" é este. Vem do tempo do vinil. É cantado à esquerda e à direita, rico e pobre, todos os dias. Cante-se pois:
Oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends.
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?
Oh Lord, won't you buy me a color TV ?
Dialing For Dollars is trying to find me.
I wait for delivery each day until three,
So oh Lord, won't you buy me a color TV ?
Oh Lord, won't you buy me a night on the town ?
I'm counting on you, Lord, please don't let me down.
Prove that you love me and buy the next round,
Oh Lord, won't you buy me a night on the town ?
Everybody!
Oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends,
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?
That's it!
Arrogante filho-da-puta, dirão os poucos leitores. Nada!!! Não sou diferente, tenho um Mercedes (bem, o meu carro tem um motor Mercedes), e alguns outros bens. Até DVD e scanner novo.
Mas ao menos canto a canção. Não venho com internacionalices ou com nacionalices. E quando vejo a miséria que nos rodeia, a dantesca miséria que nos rodeia, sei que isto não muda com conservadorismos bacocos nem com folclores agitados. Mas também não sei o que fazer.
Arrogante filho-da-puta?
Um abraço werewolf
Aprendi o hino nacional na escola primária. Trinta anos depois ainda me lembro das invectivas da professora sempre repisando que não se devia gritar no verso "às armas" mas sim no final "marchar, marchar". Desde então cantei o hino meia dúzia de vezes, sempre a plenos pulmões. E sempre no futebol. Não sei a letra de cor, só a consigo reviver em grupo. E muito possivelmente será essa a sua missão, ser cantada, revivida em grupo.
Sei que é ela uma sobrevivência. Algo muito datado e quixotesco, ainda que se tenha (avisadamente) substítuido os "bretões" inimigos por idênticos "canhões". Há anos Alçada Baptista propôs a sua substituição, o que lhe causou a perda da tença estatutária. Tinha ele toda a razão objectiva. E nenhuma razão subjectiva.
No hino nacional não interessa verdadeiramente o que se está a cantar. Interessa sim cantar. Um símbolo aglutinador. que vale outra coisa do que é. (Um caso em que o real, a canção, é mera aparência).
[Lembro-me de ser adolescente rebelde e desrespeitador de tudo o que me impingiam. Um imbecil, em suma, ainda que carregado de acne e medos. Certo dia fui à festa do jornal Avante, não me lembro se isto se passou no ano do Chico Buarque ou dos Dexys Midnight Runners. Mas lembro-me que apesar de ser tão atrevido ter ficado completamente escandalizado: houve um discurso antes do espectáculo e cantaram o hino. E os assistentes cantavam-no de punho no ar, uma violação clara do sentido que julgava (e julgo) devida à infausta canção mas orgulhoso hino.]
A propósito de quê, esta conversa? Pois hoje a TV5 transmitiu em diferido o França-Inglaterra do torneio das 6 nações (raguebi, claro). Eu, e desde que Gales não esteja em campo, torço pela Inglaterra: Gales, pois lembro-me do Barry Jones (mal, é certo), mas muito bem do seu sucessor Phil Bennet; do Gareth Edwards; do John Williams, do JJ Williams, do Gerald Davies, do Fenwick. É óbvio, era miúdo demais para perceber o jogo dos avançados, não me lembro deles. Mas todos eles fizeram-me um bocadinho galês, durante essa década de 70.
Mas se eles não estiverem é a Inglaterra. (O que eu torci há uns meses, manhã de sábado ao calor da praia em Pemba, durante a final da Taça do Mundo. Ainda para mais ao meu lado uma galesa, doente de rivalidade a torcer pelos australianos...)
Daí que hoje sentei-me. As equipas perfilaram-se e eu também, no sofá. Pronto para, português, ateu e republicano fundamentalista, respeitar e sentir o ansiado "God Save the Queen", ali a anteceder a Marselhesa hino dos pavões.
Mas fico estupefacto, a banda avança com Beethoven. "Que raio é isto?" ainda me perguntei para logo aparecer um plano aéreo com a bandeira da UE lá posta à frente dos jogadores: o hino da Europa, lamento-me eu, desalentado.
Que monstruoso ridículo. Que artificialidade ridícula. Ali a fingir-se símbolo de uma identidade comum. Como se não fosse o próprio torneio muito mais do que o torneio. Ele próprio o símbolo, já secular, dessa identidade comum, vivida, lembrada, reforçada, no embate anual.
Que coisa burocático-politiqueira, aquele Beethoven ali postado.
Depois, depois, os ingleses cantaram (com tudo o que tinham dentro deles) o seu hino. E foram para o jogo levar uma sova.
Eu entretanto fui jantar, nem vi. Mal-disposto.
Acabo de incluir ligações a alguns sítios informativos e ainda a dois blogs memorialistas dedicados a Moçambique: o ”Pemba para Sempre” e o ”Xicuembo”
Dentro de alguns meses decorrerá em Maputo a conferência dos ministros da Cultura da CPLP. Não estou particularmente expectante quanto aos seus resultados (quem o estará?), mas sempre poderá implicar algum processo positivo. Tenho as maiores reservas a estas conferências inter-ministeriais. Para mais quando tutelam áreas intangíveis, por norma secundarizadas e suborçamentadas. E, para cúmulo, quando agregam representantes de um organismo que não apresenta sinais de particular vitalidade, a esconsa CPLP. Mas, repito-me, esta conferência sempre poderá implicar algum processo positivo.
Há quinze dias um verdadeiro escol dos intelectuais e artistas moçambicanos esteve em Salvador a convite do ministério da cultura brasileiro para participar num encontro preparatório da citada conferência. Também os outros países africanos da CPLP estiveram representados a nível governamental (à excepção de Moçambique) e por personalidades da área.
O carácter inusitado desta reunião preparatória deixa adivinhar algumas dinâmicas, ao demonstrar um novo interesse brasileiro nas relações culturais com os países africanos (e não só da CPLP):
a. o interesse do seu próprio ministro da cultura na dinamização das ligações com a área cultural africana (Gilberto Gil, está claro; reunião em Salvador, “sede” do sincretismo);
b. um sinal (mesmo que secundário) de um novo interesse do Brasil de Lula no desenvolvimento das relações Sul-Sul, o anunciado estabelecimento de laços multilaterais que o reforcem no diálogo com o Norte (o celebrado eixo Brasil-África do Sul-Índia; e para quando a Indonésia?);
c. e, por silogismo, uma diferente concepção do intercâmbio cultural. A procura de uma maior simetria (ainda que o “etnocentrismo” brasileiro e o seu desconhecimento das realidade africanas venha sempre ao de cima, diz quem sabe) nas relações culturais; a percepção do capital político que os laços culturais poderão vir a assumir, cimentando relações no futuro.
A um outro nível o encontro de Salvador reforça a ideia da relativa ineficiência da CPLP. Pois muito do que ali foi discutido já teria sido protocolado em 2000, não tendo sido possível percorrer caminhos nesse sentido. Mas valerá a pena insistir.
Essencial terá sido o facto de Portugal não se ter feito representar. Nenhuma personalidade enviada.
[Certo que Boaventura Sousa Santos abriu e encerrou a reunião, mas sob convite brasileiro. Ao que consta um discurso ideologizado que não dinamizou em particular as delegações africanas. Mas ao gosto do actual poder brasileiro. E, presumo, que em contracorrente do actual poder português. Assim, talvez um pouco inibidor de congregações na prática cultural que aqui se desejam. Mas enfim, será porventura um vulto incontornável.]
Mas por iniciativa própria nenhuma delegação portuguesa acorreu a Salvador. Nem personalidades, nem representação governamental. Ao que dizem apenas uma figura mui secundária da administração pública, que pautou a sua presença por uma total discrição.
Repito, pouco haverá a esperar deste tipo de conferências. Mas a ausência portuguesa (hiper-notada, hiper-criticada) demonstra uma “ciumeira” (hiper-sic) para com o Brasil, além da evidência do desinteresse efectivo com a CPLP. Fiel ao que aparenta ser o verdadeiro rumo português: o da manutenção de laços bilaterais, reduzindo uma multilateralidade que potencie a autonomização dos países africanos. Concepção de evidente anacronismo e incompetência, pois a autonomia está aí há já muito e chama-se independência. E integração regional. E internacionalização.
Mas algo mais transparece. A total desvalorização de uma aposta na constituição de redes culturais institucionalizadas, ou seja de condições para intercâmbios estruturantes, que ultrapassem as cíclicas “embaixadas ao papa”. A desvalorização destas redes é um efeito de puro economicismo e politicismo, dever-se-á ainda à ignorância das possibilidades do tempo (mais) longo do cultural. Mas o abandono do desenvolvimento dessas redes indica também a incapacidade de serem elas conceptualizadas e executadas.
Finalmente esta perspectiva é ainda devedora de uma inócua, porque irreflectida, valorização da língua como vector de união. Falácia que no fundo é apenas a legitimação da desistência da actuação no domínio da colaboração cultural (entre outras). Até porque desprovido o Estado português de instrumentos institucionais para a desenvolver, inexistente a política africana do Ministério da Cultura, extinta a Comissão dos Descobrimentos, transformado(pacificamente) o Instituto Camões num instituto de língua.
Nota de rodapé: pode ser (talvez, talvez) que a não representação portuguesa neste evento se prenda com outros factores. Que seja um torcer de nariz não isolado a algum voluntarismo de Brasília (ou Salvador). Nesse caso (que não me pareceria totalmente descabido) uma correcção diplomática, que se saúda. Mas que por si só não invalida alguns dos entristecidos desabafos lá de cima.
(cont.)
Nunca elaborei muito sobre este ateísmo. É-me ele normal. Não me ensinaram qualquer divindade, nem tive que a abandonar. Por vezes lembro a solidão que isso transporta. Também ela normal. E não particularmente dolorosa. Pois é-se assim mesmo.
Olho a fé alheia com interesse, até profissional. E com respeito, de cidadão. Aceito algum proselitismo alheio. Pois que fé, que crença, que convicção não implica a sua transmissão? E aprecio ouvir a gente de fé, tentar entender-lhe a lógica, ainda que sempre irredutível. E sentir-lhes o sentimento.
Apenas uma vez graduei o que me separa, e por insistência do interlocutor. Que insistia em evangelizar-me, surpreso pela minha impermeabilidade ao que ele considerava ser a dúvida. Ou seja, exigia-me ele que abandonasse eu o ateísmo, que aceitasse a hipótese a existência de deus, que duvidasse da sua não-existência. Pois não é a dúvida, implicitava ele, sinal de saber? Isto tudo sem que se permitisse, por seu turno, a duvidar da sua crença. Esta é uma situação padrão, diga-se, mas nem todos são tão insistentes.
Para rematar improvisei. Esquiços que me ficaram até hoje: o de uma superioridade intelectual, pois o crente aparenta ser incapaz de conceber um mundo sem causa, e em particular sem causa consciente; o de uma superioridade moral, pois não preciso de sacralizar os valores que vão comandando (com algumas falhas, reconheço) a minha vida. São eles opções, até conjunturais, e por isso tão válidos.
Morreu então a conversa, ofendido o intelocutor. Que aceita ver-se superior ao não-crente mas nunca o inverso. Lembro que lamentei ter falado. Porque assim não se abate a fé de alguém? Não, porque não interessa tentar abater a fé. Para quê?
E para quê estas memórias curtas? Para concluir que não entendo o (meu) ateísmo como uma "situação", como uma "condição". Não me cria qualquer vínculo especial com outros ateus. Não me impede qualquer vínculo com crentes. Não me constitui base para qualquer identidade colectiva. Em suma, não é a minha religião.
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Vem esta a arenga a propósito de uma noção que agora descobri, a dos "brights". Se calhar é algo já do conhecimento geral, estarei eu atrasado.
Mas fiquei estupefacto, até gelado. Diz o "Hou-Hou Club" que "o termo é uma tentativa de reagrupar todos os não-crentes com um aspecto novo e simpático, como o fez a comunidade homossexual nos anos 70, apropriando-se do termo "gay". O termo foi adoptado rapidamente ... e suscitou um entusiasmo mundial..."
Têm o blog "The Brights"que acabo de visitar e onde lá está o manifesto: "unir os não-crentes para união social e política"
Repito-me estupefacto. As pessoas têm todo o direito de se associarem umas às outras, não me vejo censor. Mas para quê esta plástica, este "tornar-se simpático" ainda para mais em sociedades abertas?
E para quê este afã em criar identidades artificiosas. Um apelo à acção política e social assente numa visão de quê? Que união implicará o ser ateu? Que valores sociais, que práticas políticas, lhe serão obrigatórias ou esperadas no hoje em dia, só devidos a essa sua característica?
Amanhã lá estarão a dizer "mas se é bright como poderá pensar deste modo? defender aquela posição?". Ou seja, exigindo-se que a partir de uma concepção sobre o todo (até fluída, ainda para mais) se derivem constantes e sistémicas perspectivas sobre os particulares.
No fundo uma nova religião. Apenas isso. Ou não, menos que isso. Porque inconsciente de tal o ser. E decerto polvilhada de peralvilhos cheios deles mesmo e suas certezas.
No Sudão a guerra dura há décadas. Rezam as notícias que há agora novidades, e nada boas. No Sudão a guerra dura há décadas. Rezam crónicas que as razões são petróleo, "oil". No Sudão a guerra dura há décadas. Rezam de saber feito que por lá fazem "etnocídio"/"genocídio" - que imberbes palavras. No Sudão a guerra dura há décadas. Nem sei detalhes para aqui deixar. Apenas que no Sudão a guerra dura há décadas. Que há novidades, e nada boas. Que as razões são petróleo, "oil". Dito em inglês, em malaio, em francês, em norueguês (oops, em norueguês, não são estes tão finos?).
No Sudão a guerra dura há décadas. Não há manifestações, não há televisão, nem discursos, nem Haia, nem partidos, nem tão pouco seus lideres. Ou até intelectuais. Nem mesmo esses bloguistas. Não há exaltação, não há atenção, não dá tesão.
Mas é claro como petróleo, "oil". É que são pretos os que morrem no Sudão.

Madam & Eve será menos universal do que Calvin & Hobbes ou Mafalda, talvez exija um pouco de conhecimento sobre a África do Sul. Mas isso em nada implica ser menos genial. Há mais de dez anos que Madam, Eve e Mom (auto)ridicularizam preconceitos e caminhos. Espelho hilariante e implacável de uma África do Sul pós-apartheid que afinal é o mundo.
Aí em baixo tenho a ligação para a tira diária da criação de S. Francis, H. Dugmore e Rico. Leitura obrigatória. Mas menos (muito menos) obrigatória do que deliciosa. Quem não conheça aceite o conselho, visite. E acabará a encomendar os livros (David Philip Publishers).
PS. Já agora, Madam & Eve é o ex-libris do Mail & Guardian (também com ligação neste blog). Semanário sul-africano exemplar. Uma esquerda clarividente, uma esquerda do sul, com os punhos metidos nas feridas, por demais preocupado com hipotéticos caminhos para as sarar, em caminhos nunca lineares portanto, e jamais folclóricos. E implacável para os desvios dos seus próprios líderes, afinal eles próprios (como em todo o mundo) os grandes adversários daquele algo melhor que todos (ou quase) precisam.
UM ESTRANGEIRO NA ZAMBÉZIA, durante as cheias
De Quelimane ao rio Chire quase vai um dia. Dois camiões atolados há já 15 horas vedam a estrada, rodeados de uma meia dúzia que tapa todas as irreverentes opções. A surpresa de aí encontrar um mui recente ministro português, simpatia enérgica a gerar o desentupimento. No contraste com a minha displicência de Rothmans feita sinto os determinismos psicológicos. Há quem tenha o dom do poder e outros, como eu, olhamo-lo, quase sempre de viés. Esperando que milho e madeira desçam das viaturas converso com um indo-descendente, dez anos comerciando entre a Moita, o Laranjeiro e a Costa da Caparica. Ao “porque raio voltaste?” solta um “que sentido tem aquela correria?”: não há-de ser esse cofió a separar-nos, Adam! Algo envergonhado conta-me que, farto da espera, pagou 400 mil meticais para se descarregarem os camiões. E estes, logo que menos pesados metem a primeira velocidade e saem calmamente das suas covas.
Rio-me de mim, qual psicologia, qual poder do Grande Homem Branco: “É a economia, estúpido!”.
Um padre na estrada, desses de décadas de mandioca e feijão com bicho, guerras, água morna, falhanços, malárias, que fazem este ateu sentir-se um pouco mais pequeno do que já é. Irritado, o velho! Narra o episódio do padre italiano que morreu há dias, arrastado nas cheias ao tentar levar doentes ao hospital. E do seu colega partindo em busca do corpo, irregulares caminhos, margens lamacentas, atolado vezes sem conta, o cansaço sem desespero da gente de fé. E do seu regresso, ainda sem sucesso, onde a polícia o multa em um milhão de meticais, que isso de nas buscas ter caído a chapa da matrícula…até pode ser verdade mas não apaga a ilegalidade.
Determinismos culturais? Tradição, culto dos mortos, ritos prescritivos, enterro lá no lugar dos antepassados? Que idealismo, “é a economia, estúpido!”.
Perto de onde era o batelão do Chire, pequena travessia por roldanas, é agora uma infindável planície de água, bordejando a aldeia Pinda. As primeiras casas distam 50 metros planos do rio. Felicidade pela inesperada presença de Ventura, o meu motorista, pastor da igreja evangélica que aí professam. Numa pobre capela de pau-e-pique uma breve e alegre oração conjunta. Faço um apelo a que partam para zonas mais altas, pois as chuvas a oeste e as descargas vão aumentar. Já o administrador o disse mas não vislumbram razão para tal, nas cheias de 1978 as águas não ultrapassaram aquela árvore acolá, guardiã da secura a 20 metros da povoação. Empirismo puro, para racionalista aprender! Intercedo junto de Ventura para que os convença. Responde que não o fará, aquela gente não tem tecto noutro sítio e as suas machambas estão ali. Para onde irão?
Fatalismo, inconsciência? Mais uma vez, “é a economia, estúpido!”.
Para trás ficou Quelimane, onde a beleza das mulheres até magoa. E testemunha, sem essas coisas do genoma, que a mistura das gentes é bonita. Nas esplanadas da cidade vou indagando como vivem as meninas que passam. Perguntas cujo caroço, vejo-o agora, é o sentimento de que dói menos uma mulher menos bela ser prostituta do que uma mais bela. Imoral moralismo! Que não, dizem-me, mesmo sendo ali porto isso não é mais generalizado do que noutros lugares por esse mundo fora. Mas lembram que muita rapariga procura um marido que a tire dali. Lembro o Primeiro Dia de Mafra, com o longínquo aspirante Boieiro aos berros, qual vedeta de Hollywodd, apelando à rusticidade pois os piores classificados iriam parar às ilhas “de onde virão casados”. E o frémito de horror que percorreu o ainda informe pelotão, imaginando o casamento com uma açoriana.
É o mesmo, a troca do isolamento geográfico por outros isolamentos. Neste combate à lonjura, “é a estúpida economia” dos afectos, estúpido!
Gurué, verde montanhoso na falsa beleza da monocultura. Modernos rumores de futura indústria de capulanas bem nas nascentes do Licungo, todas essas tintas navegando até ao Índico, dando de beber às gentes, colorindo a Província. “É a economia, estúpido!”. Avaria madrugadora, marcho durante horas provando o envelhecimento. Uma moto passa e há-de voltar já liberta do pendura, um miúdo que me transportará para a cidade. À proposta de lhe “pagar o combustível” o jovem extensionista rural de Mocuba ri-se e diz-me “ó seu estúpido, nem tudo é economia”, que um dia o hei-de safar algures. Obrigado Felix dos Santos, pela boleia e pelo alívio.
Por todos estes sítios se encontram europeus. Cooperantes, velhos cooperantes, ex-cooperantes, neo-cooperantes. Ali e acolá um comerciante, até um empresário. Tal como no sul toda essa gente vai partilhando cereais destilados e a opinião que a actual cooperação não ajuda o futuro do país, que algo tem de mudar. Estarão eles enganados, tal como os moçambicanos que de o acharem até já estão fartos de doadores? Sem respostas nestas noites distritais, lembro-me do meu pai e trunco-lhe as palavras: “a democracia é o alcatrão e a electricidade!”.
Mas vai-se dizer isso, arriscar os empregos de expatriado ou os clientes de dolar no bolso? Deixar andar, “é a economia, estúpido!”.
Risonhos, vêm centenas de homens na estrada. Logo procuro saber que se passa e do aglomerado ouço, espantado, “Maharishi”. Desde há alguns meses 1700 jovens meditam 4 horas diárias em troco de 270 mil meticais mensais. Pasmo, que raio, receber para meditar! Resquícios cristãos, a noção de que o transcendente exige pagar ao intermediário com o(s) espírito(s). E porquê assim, porque não o contrário? De facto, “é a economia, estúpido”, como tirar os homens do trabalho sem os compensar, quando vivem no limiar da economia de subsistência? E face aos que ainda agitam uma idílica agricultura tradicional vejam a sua desnaturalização, pois meditar potenciando equilíbrios pressupõe os desiquilíbrios. E talvez possibilite outros sincretismos, renovações, transformações. Por eles, coisas bem locais. Porque a mentalidade, essa “economia, estúpido”, coisas feias e bonitas, agradáveis ou não, está aí omnipresente. É deixá-la ir, e ainda bem que auto-meditada.
Tenho que partir, mas a vontade é quedar-me por lá! Fica a esperança no sucesso desta ideia. Repito-me, se aliada ao “alcatrão e electricidade”, parece bem mais promissora que tanto “desenvolvimento” semi-importado.
A norte, onde o Zambeze só dá o nome à província, o Alto Molocué, pequena vila dividida por esse rio. Vizinho da pequena ponte o Fotógrafo Soares, “fotografia tipo B.I”. Não resisto, desço as escadas, minto-me de colega e peço para fotografar. O velho fotógrafo, com o caudal em casa, dá-se à imagem junto dos seus. Proponho que saia dali, é visível que as águas vão subir. Calmamente aponta umas frágeis canas, habitual limite do rio, e às quais em breve este retornará pelo que não vê necessidade em partir. Respeito, mudo a conversa, responde-me que o negócio vai normal, mas que não chega para nova casa de tijolo. Ficará acompanhado da família, feita dique moral. De novo, “é a economia, estúpido!”.
A casa desabará meia hora depois, a água cobre a ponte. Lembro o padre e, aqui inútil, cruzo-a rumo ao Maputo, à Inês. E à notícia da morte de C. Geffray. Fica este país, agora desprovido de longínquo e magoado saber, mais pobre. Porque nem tudo, estúpido, é economia.
Março 2001

Para mim Shikhani é o maior escultor moçambicano. Ainda que não esculpa há anos. Obras de uma robustez misteriosa que nos impõem espanto. Dele procuro fugir reduzindo-as de pré-colombianas.
Na sua pintura encontra-se essa madeira, aqui disfarçada nas cores vivas com que o velho mestre risca os seus caminhos, labirintos de rotas paralelas nunca concluídos, uma angústia vejo-a eu.
Visitei-o agora, cicerone. Recebe-nos com aquele enorme sorriso de boas vindas, até desmerecidas por este amigo relapso. Está inquieto Shikhani, tanta a obra recente, acumulada sem mesmo secar. Nem nos espera, lá no aeroporto está a brotar...
No blog "Liberdade de Expressão" está escrito (e para todas as frases há ligações):
Estas guerras também merecem uma manif
Quit threat at Somali peace talks
Alarm at Liberian ritual killings (Olha! Tráfico de órgãos)
Thousands flee Burundi fighting
Ivorian leaders debate civil war
Uganda villagers killed in raids
Refugees killed in Sudan riots
Mass rape atrocity in west Sudan
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No meio da cacofonia giraça eis uma faísca de inteligência portuguesa. Cito-a, pois.
O ”Aviz” relata do seu espanto ao ouvir um imbecil na rádio a saudar a morte dos americanos no 11 de Setembro. Não terá sido o único. Daí uma pequena memória sobre o dia.
Nesse 11 de Setembro tínhamos imensa gente em casa para jantar. O motivo do repasto era a visualização de um documentário sobre Nacala, feito pela Joana Pereira Leite. Lá se jantou, os convivas nervosos, estupefactos. No fim mais ou menos votou-se o vídeo em detrimento da CNN e lá se seguimos para as memórias da Joana. Claro que num dia desses tudo terminou em grande discussão, sobre méritos e deméritos do vídeo, seu sub-texto e etc. Serviu de catarse.
Já noite longa e terminados os contra-argumentos levei alguns dos convidados, os portugueses, ao hotel. Fiquei-me só, bastante acelerado, de tudo o que se tinha visto quase em directo, do jantar meio louco, da discussão que se seguiu, e do cocktail de cervejas, gin, vodka, tinto e whisky que tinha acompanhado o dia.
Não me imaginei na cama e segui à Bagamoyo, meio vazia estava, dia de semana e tão especial. Porta a porta entrei no Luso, onde o balcão pode ser recatado em troca de uma ou outra Reds.
Também a matar a noite por lá estava o André, um italiano meu conhecido e há muito aqui residente. Lá nos juntámos, o assunto era óbvio. O horror, o espectáculo, o futuro. Tudo dito e redito. Até que começa ele com a arenga que os americanos estavam mesmo a pedi-las, tinham que levar com situações destas, tanta a sua arrogância, o imperialismo. E tudo quanto fazem pelo mundo fora.
Tentei interrompê-lo, a puxar-lhe pela manga, até numa concordância que muita violência fazem e patrocinam os EUA. Mas caramba, aquilo tinha sido horrível - "viste aqueles tipos a saltar lá de cima?" - e ele nada, nada mesmo, que era tempo dos americanos sentirem em casa a violência, não tinha pena nenhuma.
Bem, que me restava fazer? Concordei com ele. Que tinha razão. Realmente o poder americano é violentíssimo, usa a agressão constantemente e capeia-a. E fui adiantando que ao olhar para trás também saudava todos os italianos mortos durante a II Guerra Mundial. Não é que os sacanas tinham apoiado o Mussolini?
Não percebi bem porquê mas ficou irado, insultou-me. A conversa morreu ali mesmo, e desde então cada vez que me vê - e já lá vão quase três anos - limita-se a um aceno, tão breve quanto possível.
Nos dias seguintes fartei-me de ouvir gente a dizer o mesmo que ele. Que tinha sido horrível, é certo. Mas que estava na altura de eles apanharem em casa.
E nem todos os que falavam eram italianos. E eu sem saber o que lhes dizer.
Então vão demolir parte do aqueduto das Águas Livres para interessa lá o quê, diz-se no "Público"?
Quando alguém protestar aposto que ainda vão aparecer a falar da inevitabilidade, no progresso, na plasticidade histórica das cidades.
E o povo falará da bola, scolari, mourinho (agora racista, para culminar), porto e sporting, e tralha afim.
E todos são povo...
Não vou a Nampula há algum tempo. Não sei o que lá se passa. Já escrevi sobre o assunto, opinando com o cuidado possível, assente em conversas havidas e naquilo que mais ou menos conheço sobre o país, e em especial sobre o norte.
Ontem mostram-me a Visão (sem link), hoje o ”Público”. Lixo puro, sensacionalismo. E dizem-nos orgãos de referência. Se o são então como serão os outros.
A reportagem do Público tem primeira página, tem uma menina a escrever sobre a míriade de cheiros que há no mercado (não vai ela às compras em Lisboa, à praça, à drogaria?), ecoa a mui estranha irmã que vai dislatando. E não diz nada sobre tráfico, nada, sobre raptos, nada. Mas cria toda a impressão que algo de muito grave se passa. Mas não diz nada, não viu nada.
Ah, e lá está o "branco", sempre temível que passou e levou. A menina jornalista, para além dos cheiros não percebeu nada.
Jornalismo de referência? Uma merda!
Uma das frases que se me marcou, pérola do falar do falar político, foi de Mário Soares. Quando da sua primeira candidatura a PR disse que "não tinha a graça de ser crente". Um animal político, goste-se ou não.
Então apreciei o engenho da frase, instrumento quase subtil de apelo ao voto católico, um lamento até compungido pela sua inferioridade de não-crente, que o irresponsabilizava de tal característica, e implicitava mesmo um pedido de apoio. Algo que o suplantava, que afinal até derivaria da própria divindade. Depois disseram-me ser aquele dito um erro teológico, mas isso não lhe retirava a arte retórica.
Passados alguns anos a sua memória passou-me a irritar. Porque inferiorizadora do ateu. No fundo tão legítima como alguém a lamentar-se de ser crente: "desculpe lá, sou católico, não tenho culpa, é mais forte do que eu", "o senhor não leve a mal mas sou budista, é uma maleita crónica", e etc.
Irritação que, sei-o, se associava com as tidas nessas periódicas conversas em que desembocava eu no meu "sou ateu" para logo me emendarem, prestáveis e esperançosos, "ateu não, agnóstico". Prestáveis, esperançosos, mas mal-criados. Eu aqui cheio de respeito pela fé alheia, interesse mesmo, e os interlocutores na volta da palavra ali a desdizerem-me sobre mim próprio, a desrespeitarem-me.
Não tenho dúvida que há uma suave desvalorização do ateísmo. De tal forma que quando encontro alguém que se diz ateu e não agnóstico dá-me vontade de o abraçar. Não por qualquer solidariedade especial, ou por sentir particular afinidade. Não mesmo, o ateísmo não me funciona como vínculo. Mas apenas por não se refugiar no retórico agnosticismo.
Por vezes quando alguém se auto-reclama de agnóstico vem-me ao de cima toda a maldade e vou-lhe conduzindo a conversa para até que conclua ele, até envergonhado, "Ok, eu sou mesmo é ateu!". Nem sempre, claro está, que há muito agnóstico por aí. Ou pelo menos às minhas mesas.
Mas há uma desvalorização, suave repito. Que casa com a constante desculpabilização. Reparo-o, pois cada vez que ouço, a mim próprio ou a outros, uma afirmação de ateísmo lá a seguimos (Pavlov explicaria) de uma veemente afirmação de respeito pela fé, pelas religiões e pelas igrejas daqueles que nos rodeiam.
(e aqui aproveito, sem qualquer ironia e com toda a honestidade, para informar o hipotético leitor deste blog que tenho o máximo respeito pela fé alheia e pelas instituições religiosas)
[há-de continuar]
Há uns dias escrevi sobre Espanha. E chegou. Também concluí que a vitória do PSOE foi uma vitória do terrorismo. Até neste blog de canto esconso levei com discordâncias, via mail acima de tudo.
Breve regresso à questão (e último?) apenas para citar "Pacheco Pereira":«O que me interessa não é a análise espanhola ou europeia, ou americana, é a análise da Al-Qaeda».
É mesmo isso. Ao invés do que leitores me escreveram, e ao de tantos outros, que se ficam no considerar que ligar a vitória do PSOE ao terrorismo é um crime lesa-democracia. Mas considerar isso em nada nega a legitimidade das opções espanholas. Apenas, mas um enorme apenas, frisa que decerto entenderam os terroristas a sua acção como um enorme sucesso. O que lhes dá alento, bem como o dá aos seus apoiantes. Cristalino como água mineral.
Mas ainda que simples conclusão isso exige elementar exercício. Tentar entender como pensam os outros (neste caso terroristas e seus adeptos). Entender-lhes lógica de acção e de prospecção. E não ficar encerrado nos nossos princípios. Neste caso nas odes aos valores do voto livre, da alternância. Ou na festa pelas nossas opções, neste caso das político-partidárias respectivas. Assim ficam presos, assim incapazes de entender.
Não é pedir muito. Parece. Mas em alguns casos será. A este respeito dois exemplos de humor imbecil, encontrados logo hoje pela manhã, em gente incapaz de dar o salto da sua "casinha tão modesta quanto eles":
- o inefável "Barnabé" a considerar o óbvio raciocínio de Pacheco Pereira como estando ele "refém da Al Qaeda". É até cansativo ver uma auto-reclamada esquerda, aquela das tarjetas multiculturais e internacionais, tão autocentrada, incapaz de praticar os próprios slogans. Nada de novo, mais um efeito (o desta década) do reaccionarismo da dita esquerda portuguesa, tão autóctone ela é.
- e de sinal contrário, um tão superficial arauto dos americanos, típico exemplo de uma auto-reclamada direita [por onde andará a direita europeia, tão anti-americana ela própria in illo tempore?], o "Homem a Dias", que remata: "Quer dizer, chamar "países" a coisas como a Jordânia, Marrocos e o Paquistão (os mais antiamericanos) demonstra um espírito de abertura que não é para todos."
Para quê perder tempo a ecoar dislates? Não exactamente por eles. Mas ainda que sendo óbvio que este mundinho dos blogs lusos não representa (não quer?, não pode, e não o faz) o país, isto irrita.
Pois quando neste meio se ouvem tantas loas a pensadores como estes, só resta esperar que seja esta uma dimensão muito particular, muito reduzida, do país que se vai tentando ser, de um país menos pequenino do que vai sendo.
Este comentário tem que vir para letra grande. Obrigado Eduardo....
[e calar os espantos e os inespantos das donas Fátimas ou Inêses, ainda que tão diferentes, é ser daqueles correctinhos. Muitos os farão, mas não o somos nós para as nossas mulheres mães filhas. Nem pensar.
Saem mais abraços]
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Texto sobre "recepção diplomática":
Súbitos, os olhos culimam uma mashamba na Internet. Há ali, num belo retracto, algum sangue redesenhando o luzidio dos batons e as femininas línguas apalpando o quinino, o limão e o Gin.
Descapulanizados, os amores, fazem corajosamente diplomacia por entre tiros e assaltos. É fresco o quintal ou a sala, apesar dos 30 e tal graus com que, descalços, uns pés rasgados em Michafutene agarram o pilão no verde da matapa.
Desse verde, uma criança sonha nas costas o biberon de leite que o piripiri, a molho no Chiquelene, não consegue comprar. Insenta, a mãe, da dureza fálica do sr. Cossa, sangra o mênstruo, num pedaço a cores de uma velha capulana, de outras seis proles que no esperma cansado e no bafio azedo do tontonto aquele irá trazer, a murros, como um ramo de flores para não falar de amor.
Entre a água morna na moringa e os pingos de suor a lavarem-lhe o rosto, dona Fátima faz suspiros para esquecer o medo da violência com que todos os dias o país a acorda pela velha esteira. E sem diplomacia nem nada, nem gelo, nem fraquitos gins, iça o velho balde de água nas duas mãos gémeas que, sem coserem, fazem a moda das suas companheiras a provar, nos jardins, as verduras da sua machamba fritas e enroladas na massa das chamussas diplomáticas.
Não há assalto pior que o que faz a Pátria, todos os dias, à alma lúcida de Dª Fátima sob os olhares incrédulos e bem grávidos das recepções nas embaixadas
A próxima visita do PM português a Moçambique recorda-me um pequeno episódio ocorrido aquando da vinda do PR Jorge Sampaio nos idos de 1997. Por essa ocasião a delegação portuguesa ofereceu um banquete bastante alargado, no qual não tive oportunidade de participar. Mas aqui em Maputo pude assistir à alguma azáfama que o antecedeu.
Foram então convidadas largas centenas de personalidades moçambicanas. Muitas habituais nestas situações. Mas era tal a dimensão que vários dos convivas estavam pouco rotinados a banquetes de Estado. Para mais ofertado por Estado estrangeiro.
Vivi isto um pouco como conselheiro de esplanada, a esses mais desabituados. Lá me apareciam conhecidos num apelo de ajuda: "ó teixeira, V. é que me há-de dizer o que significa isto". Chegavam agradados com o luso convite, quem não gosta de ser assim reconhecido?, ainda para mais quando dá para chegar a casa a dizer à cara-metade "prepara-te que temos banquete".
Mas aportavam também com um problema. Convites já recebidos, envelope timbrado, cartão impresso em relevo dourado, prova de "quem é quem!". Mas coisas de protocolo europeu em África. Pois lá vinha, formalissima indicação do traje de rigor. Inapelável nos homens o fato escuro. Ora para alguns fato sim senhor, agora escuro, preto, é que em terra destes calores não tinham. E lá me chegavam a pedir-me opinião, e eu a deixar-lhes ao critério próprio, que havia de fazer?
Por essa altura trocavam-se os dolares numa loja de roupa na Baixa, a Milano - essa que agora está toda remodelada, modernaça, ali à Clínica Cruz Azul. Um dia passei por lá nesses intuitos e dei com a casa cheia, azáfama grande e inusitada. Encostei-me ao balcão e fiz-me desentendido na pergunta "então, muito movimento hein?", e os empregados a confirmarem, naqueles dias era um corropio de gente, todos a comprarem fatos pretos e a acertá-los. "É para o banquete", diziam até cúmplices aqui com este português.
Mas mais preocupante era ainda a questão das senhoras. Pois no dito cartão-convite lá vinha especificado: vestido curto. E eu a adivinhar as inquietações lá nas casas, os maridos encarregados de me virem perguntar, entre intrigados e assustados, "vestido curto? mas curto quanto?, até onde, isto é para mostrar as pernas", até ao jocoso meio-desconfiado "mas é para se verem as pernas? querem ver as pernas das nossas mulheres?". Ainda que pouco sábio em tais matérias lá fui acalmando humores e temores, que isto eram coisas de costumes europeus, linguagem a evitar aqueles vestidos arrasta-chão. Que levassem elas saias normais ou então, caramba, os belos vestidos compridos por aqui tão usuais em dia de cerimónia.
Enfim, não houve dúvida, uma pequena distracção do nosso protocolo que veio provocar algumas fortes dores de cabeça em vários casais convidados. E até despesas.
Nos dias seguintes lá ia eu perguntando o "então correu bem?", e que sim, senhor, tudo normal. Não era nada demais, eram mesmo pouco curtos os vestidos pedidos. Não, não havia nenhuma malandrice ali. Afinal...
”O Vizinho” é um curioso e pede que se lá vá dizer causas e origens dos nomes do blog de cada um. Ideia engraçada.
Uma recepção diplomática. Quatro senhoras de diferentes países ali à conversa. Uma disserta sobre o ano que viveu em Nairobi. Cidade temível, tipo Joanesburgo, uma criminalidade omnipresente, vidas encerradas em bunkers, expatriados aterrorizados e os locais também.
Ah, rejubila ela, que diferença em Maputo, esta segurança, esta calma, nada típica das capitais africanas, esta vida aprazível. E todas concordam, aliviadas até pelo que o destino lhes está a reservar.
Bem, lembra-se uma outra, "outro dia fui assaltada na f. engels (tão bem conhecemos, sempre foram sete anos!), roubaram-me a mala, empurraram-me pela ribanceira abaixo, foi terrível, ainda para mais vinha com os meus dois filhos, ali a verem tudo". Uma pequena pausa e segue outra - esta conheço melhor, e mesmo bem - "pois, e há alguns meses estava no café Nautilus num sábado de manhã, assaltaram a caixa de câmbios defronte, gerou-se um tiroteio de meia hora, mataram três assaltantes e nós ali estendidos no chão, outros fechados na casa de banho, as balas a sibilarem, até dois dos clientes ficaram feridos". E, remata uma terceira, "assaltaram-nos a casa para nos roubar uma mobília nova que tínhamos acabado de comprar, eu estava bem grávida dos gémeos, e ainda assim espancaram-me valentemente".
Entreolharam-se as senhoras, ali em plena recepção diplomática. Súbito lembradas que tanto naturalizam o seu quotidiano que até esquecem tudo isso, até se sentem seguras. E, depois, servem-se de mais um gin, "fraquinho, s.f.f.", um vinho branco talvez, e acompanham com uma chamussa.
Bem rijas as nossas mulheres...
Nossa sorte. Nossos amores.
[apontamento nocturno sem preocupação de forma]
A ”Memória Virtual” ecoa uns prémios internacionais de blogs.
Mas só no ”Hou-Hou Club” (um bom blog que não visitava há meses) hei-de encontrar a lista completa.
O melhor blog "africano e do médio oriente.." é ”Made in Bagdad” Muito bom. Atenção, MUITO BOM. Atrasa-me a cama. Texto abissal, e estética a mexer (literalmente). Brutal.
Mas, caramba, Bagdad não é Argel, Monróvia ou Kigali. A geografia vale o que vale. Mas porquê estes novecentismos serôdios, que tem África a ver com o Golfo, mais do que qualquer outra região? Cansam-me tantos mapas distorcidos, tantas austrálias reduzidas, tantos greenwichs, tantas não-penínsulas europeias. Certo, a própria representação gráfica é uma construção social, um acto de apropriação/dominação (como qualquer representação), blá, blá, blá. Mas realmente: mapa distorcido cabecinha pequenina.
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E é desse premiado ”Where is Raed” que roubo esta citação do Huntington (que não será um terrível revolucionário) que lhe serve de epígrafe:
"the West won the world not by the superiority of its ideas or values or religion but rather by its superiority in applying organized violence. Westerners often forget this fact, non-Westerners never do."
Assim como quem diz, pela superioridade dos seus Estados em organizarem a violência (externa) legitimando-a. (e isto faz-me lembrar um autor qualquer)
Boa frase para deixar nas mesas de cabeceira, bem emolduradas no meio dos naperons burguesinhos e fotos da família, de tanto pensador das direitas, tão convictos andam "sei lá o quê", daquela coisa especial que possuem. E, já agora, nas dos das esquerdas, tão convictos idem. Para que se lembrem estes que se não for assim lá se lhe fogem as condições para tanto multiculturalismo e pluralismo.
Pois a democracia assenta nisto. Sempre assentou. E mais vale ter consciência. E vivê-la.
Isto de mudanças tem isto. Brinquedos novos, isto dos contadores de "visitas", coisas de robots chamam-lhes os entendidos. Tive curiosidades, quantos vinham, de onde vinham, quanto tempo ficavam.
Coisas de robots, repito o que dizem por aí, isso das contagens. Robots sim, mas esquizofrénicos. Tem três, cada um dando seu número. Alguma razão haverá. Mas decerto esquizofrénica.
Chega. Estou como a Carolina. Quero outro brinquedo novo.
Meio escondido decorreu até hoje em Maputo um congresso organizado pela UNESCO. Propósito, o de discutir a dinamização do ensino da história da escravatura nos países do Índico, particular relevo aqui em África.
Pergunta, assim de raspão, "então como é que está esse ensino". Não há, dizem-me, silêncio total (daí o congresso) em todos os países.
Caramba, como se apaga a história através da História.
Hoje, e como é felizmente habitual, jantar cá em casa, visita de Portugal, gente por cá muito veterano. Uma visita após anos de ausência. Lá para o meio da conversa a inevitável pergunta, "então quais as diferenças que encontra por cá?". Pois a mesquita nova da Mondlane, pois toda a Costa do Sol atapetada de vivendas. E, talvez mais analítico, isso dos americanos estarem e em força, por todo esse país, distritos a fora, cidades também, as suas organizações, a rede de ongs também. Nós, já tão habituados até nos surpreendemos com a surpresa alheia. "Muito mais do que os europeus" diz o conviva. Claro. E de que maneira.
Mas com muito menos retórica. Ah, e assim acredito que os corredores, Beira e Nacala, vão mesmo funcionar.
Monroe...quem?
O pormenor com que as primeiras palavras do novo PM espanhol são escrutinadas, com que as suas propostas são aventadas ou recenseadas, poderão ser explicadas pelo ambiente emotivo dos últimos dias.
Mas faz-me espécie toda essa atenção. Tal como a atenção informativa (inclua-se bloguística) sobre as primárias americanas tiveram até há pouco.
Caramba, são cuidados e atenções quem me fazem pensar o meu país tão pequeno. É que o mundo (ainda) é grande. E sobre ele a atenção pouca.
Ouvi e li em n sítios isto. Que os atentados de Madrid significam que a guerra chegou à Europa, que o terrorismo islâmico chegou à Europa, etc.
Recuo uns meses. A Turquia deve ou não entrar na Europa (calão para UE)? Torce-se o Giscard (quando ouço deste só me lembro do Bokassa canibal e seus diamantes, mas enfim, devo ser o único) com a sua matriz cristã da Europa. Torce-se alguma direita, mas não toda. Ergue-se a esquerda, o europeísmo moderno e aberto, pluriisto e aquilo, multiisto