março 31, 2004

O Público e Nampula

[Penso que é quase universal e quase obrigatório. Quando conhecemos algo e surge um jornalista a escrever sobre isso desgostamo-nos, a análise parece sempre superficial ou falha. Não apenas devido a diferenças de pontos de vista ou afectos. Será também devido à visão do jornalista-generalista, sempre mudando de contextos e temáticas. Somos críticos, mas face ao corropio que é a vida deles não podemos ser impiedosos. Há que ser crítico mas atentar nisso, reconhecer melhor e pior.]

Ontem, inauguração da exposição de Malangatana (maldito scanner) e lançamento do seu livro. O que nos rimos, quase até às lágrimas, quando alguém narrou o último artigo sobre o tráfico de orgãos em Nampula. Eu já nem tinha lido. A jornalista foi até junto da "praia de Caetano Veloso" onde "Os pescadores não falam em barcos supeitos, apontam a linha férrea, o sentido Maputo, África do Sul".

Repito, o que nos rimos, compungidos até. Para quem não sabe, porque nunca lá foi, a praia é Fernão Veloso. Dirão "ok, um pequeno erro, acontece, nem é importante..." e eu até concordaria. Mas a linha férrea não vai para Sul, em direcção a Maputo. Vai para Oeste, em direcção ao Malawi. O que é uma característica crucial de toda a vida da província. O que é uma característica crucial do Moçambique colonial e nacional, os corredores ferroviários atravessam transversalmente o país, da costa ao Malawi no Norte, da costa ao Zimbabwe no Centro, da Costa à África do Sul no Sul. O caminho-de-ferro não conecta sul a norte. É das primeiras coisas que se aprendem quando se chega aqui. Pela sua importância e pelo que demonstra das articulações existentes, a todos os níveis.

E também porque se vê. Basta olhar para o sol.

Não há dúvida, a jornalista perdeu os pontos cardeais. Ou seja, perdeu o norte. Literalmente. Não se diga que há má vontade nas críticas ao seu trabalho. Só piedade.

Ah, o seu a seu dono. Chama-se a jornalista Ana Cristina Pereira. E o fotógrafo, que decerto se preocupou com a luz do Sol, também não lhe disse onde estava o norte. É ele Fernando Veludo.

E, já agora, o dono de tão especiosa prosa chama-se Público.

Publicado por JPT em 06:39 PM | Comentários (2) | TrackBack

Gravatas

A Carolina já está com 22 meses, como isto passa a correr.

Domingo brincava ela no quarto de vestir enquanto eu me aperaltava para uma recepção. Sensível ao convite-convocatória, como qualquer modesto contratado a prazo se sente, não vá o diabo tecê-las.

Ali estava de camisa clara, cuecas, meias, e termino o novelo de gravata. Ela, lá de baixo, abre os olhos todos espantados à gravata e explode numa gargalhada. Linda, que hei-de lembrar para sempre...

***

Horas depois um amigo encontra-me, fato escuro e gravata, e há-de perguntar, ainda que mais sisudo, "estás doente?... cheira-me a comitivite".

Publicado por JPT em 05:54 PM | Comentários (2) | TrackBack

Em Maputo

O Bota Acima é um dos meus blogs de culto (outro será o "Oceanus Occidentalis ).

Visita diária ao Bota, às vezes concordo, outras não, boto comentário até. O seu grande defeito é a falta de uma cerveja para sentarmos a discutir os assuntos. O dono da casa afigura-se personagem. Ontem trouxe um pouco de Maputo. A raspar no vidro. Abraço para quem tão merece ser botado acima.

Publicado por JPT em 07:49 AM | Comentários (2) | TrackBack

março 30, 2004

Cimeira

Foi em casa da mãe Inês, hum. O Ma-Schamba tinha o mano vindouro, esse Bandeira, o casal vizinho, aquele que tem moageira, e a mulher leão, essa mesmo que tem armas e é como soldado.

Aquele velho Companhia acabou por chegar e trouxe estruturas, afinal. E veio com esse Aviz mesmo.

Falou-se bem, hum.


Publicado por JPT em 09:45 AM | Comentários (1) | TrackBack

Sobre cultura

Atrevido, há alguns dias atrevi-me a botar sobre cultura. Atrevido, repito.

****

Hoje à tarde ouvi um pequeno discurso de Durão Barroso. Um improviso, não se tratava de um escrito de assessor. Falando então unicamente sobre cultura frisou que não entende o papel das instituições estatais portuguesas em África como o da apresentação da cultura portuguesa. Especificou, até de modo veemente, que a tarefa que gostaria de ver desenvolvida será a de apoio à organização da internacionalização [sistemática, esta é palavra minha mas fiel ao sentido do discurso] da arte contemporânea local. E rematou, sublinhando o seu desejo e a sua esperança que as instituições portuguesas mergulhem desde logo neste projecto (de desenvolvimento, acrescento eu).

Simples? Talvez. Mas hoje vou para a cama comovido.

Assim haja gente. Em Lisboa.


Publicado por JPT em 03:56 AM | Comentários (1) | TrackBack

Roupa Velha 13

[preâmbulo:
são dezenas os empresários portugueses, vários os ministros, camionetas de jornalistas, os dirigentes multiplicam-se. Nos jornais de lá (dn, dn) anuncia-se até o regresso dos portugueses a (esta) África.
Já vi isto, já ouvi isto.
É noite pai, tarde, e apetecia-me estar aí contigo para bebericarmos um rum devagarinho, e lamentar-me que estou a ficar velho, a desabafar este tanto "já visto" e tu a rires "velho? então e eu nestes oitenta?". Porque só tu me farias mais novo agora, noite já, com tanto "já visto".

Então, e a propósito disso, lê lá, se tiveres paciência, o longo]


HA NGONHAMA YA MBANGU LOWÔ

No final do século foi quando começaram a chegar. Nessa altura parecia-lhes já arrumada a longínqua casa e, se bem que ninguém o clamasse à boca cheia, muitos acreditavam que estava de novo chegado o momento de romper mundos, ditando-lhes alhures alguns rumos.

Logo abundaram pela cidade. Afável a baía e ondulante o clima poucos arriscavam nortes ou interiores. Eram gentes de bem e de mal ou mesmo de nem tanto, armados de poucos ou grandes anseios que nenhum lhes diminuía o afã, uns apenas em novo ensaio, uns outros já em últimas e até desesperadas tentativas. A alguns acompanhavam-nos as mulheres, famílias a reclamarem o destino, mas muitos arribavam sós, cedo e com azáfama procurando filhos na terra como se viessem eles a ser âncora neste porto, assim tornando-o abrigo seguro. E em todos a sensação da mudança feita na distância, mas isso é da natureza humana, o sentir o andar como se fazer fosse.

Nessa época também eu cheguei, a empresa a oferecer-me boas condições pois necessitavam de alguém para as relações públicas, artes que constava serem incipientes por estas paragens. Por lá perdido no meio do pelotão nem hesitei, aproveitei e saltei, deixando a mulher mal disposta em casa. Resmunguei-lhe, não sei bem porquê, que “navegar é preciso e mais qualquer coisa” e vim aos dólares.

Lembro que esses eram tempos até de turistas, quantos recém-casados a fingirem um desflorar em terras exóticas, como se o verde local lhes viesse a fertilizar as alianças, perpetuando-lhes os apetites e os gozos. Com eles se cruzavam, já mais cansados, os romeiros da saudade aqui vindos a lamber feridas, cheirando uma terra à qual teimavam em chamar sua, indecisos se paraíso ou inferno. Tinham-lhes já passado, pelos menos então, quaisquer raivas antigas, não que a emoção os aclarasse, seriam antes os ares índicos e talvez o alívio de terem chegado ao chegar, que isso de sobreviver é difícil e não para todos.

Com azáfama também se apresentavam os governantes, deles havia constante trânsito, dizia-se que para criar clima pois era de consenso ser já tempo de se cicatrizarem velhas feridas, então chamadas equívocos. E tão enleante era o ambiente que amiúde chegavam administradores e proprietários, ágeis a desenhar lucros em rápidas e agitadas incursões. E logo rodas de convívio sortido, aquelas onde se ia fazendo o bem olhando a quem, animavam restaurantes e prostíbulos, exultantes nos comentários à última visita, à reunião havida, ao negócio encetado, ao investimento do mês, à parceria delineada, aos rumores das novidades. Tal como se tudo isso a todos pertencesse, como se o seu brilho dourado a todos alumiasse.

Lamentos havia-os, mas eram mais os resmungos devidos aos surpreendentes inesperados do dia a dia. E também os das famílias, queixas da alguma insegurança então que fora do casulo e da falta de locais de convívio legítimo. Mas nisso eram mais as senhoras, desde logo cansadas de sofrer os confortos da criadagem e dessa árdua tarefa de resguardarem os maridos dos ânimos dos patrícios aqui solteiros, por opção ou geografia, sempre estes desinquietadores das calmarias conjugais.

Foi pois com alegria geral que se soube da aquisição do Cine-Teatro da cidade, sítio invejado ali à rua da presidência, dizia-se que há anos pelo Estado desusado. Era o agrado com mais um feito da comunidade, mas mais ainda a expectativa do entretenimento em vidas que corriam monótonas, distracções inclusive com coisas “muito nossas”, postais da terra a mitigar saudades. Lesto foi o alindar da sala, a maquinaria a chegar de fora e a juntar-se a estofaria e limpezas, para que tudo pudesse brilhar no que veio a ser uma agitada inauguração, rara ocasião então aproveitada por quem pôde para provar elegâncias. Também eu fui convocado para a gala, apesar de recém-chegado já me sentia alguém na cidade, um director, quando entrava nos restaurantes havia até quem se levantasse, por vezes pagavam-me as contas na noite e, inclusive, já me tinha sido possível corresponder a um ou outro favor.

Rápido se tornou o Cine-Teatro palco do bulício da cidade no hábito generalizado da sessão de cinema intrometida no quotidiano e prestando-se a falsos acasos, encontros ditos ocasionais pois bem se sabia os dias certos em que cada um ali se apresentava entre o irrisório de filmes. Pelo fastio da vida e no gozo da recente notabilidade fiz-me presença assídua, as estreias semanais, os concertos de beneficência e até as inúmeras conferências onde se discutiam futuros e obrigações do país. Além disso a minha administração, sempre atenta à imagem, instruiu-me a que fosse eu pródigo em patrocínios pois estes sempre nos iriam dar bom nome na praça, cativar boas vontades locais, “deles e nossas” sorria-me o Administrador Delegado, e tudo isso me impunha lugar cativo nos eventos.

E assim me fui sentindo amigo da casa, bem-vindo nas portas gratuitas e sorrisos abertos do pessoal, gente ali estabelecida há muito, alguns ainda dos idos coloniais, que as compras ao Estado sempre trazem o trabalho de antanho, aqueles que sentem a casa como sua e que nem pensam em partir, ainda para mais dali, com tanta falta de empregos e sendo estes nada duros, abrigados de chuvas e imponderáveis.

Nisso fui crescendo amizade com a gerente, uma conterrânea meio balzaquiana aqui encalhada saberia deus porque razões que nunca lhas perguntei. Por ela pude confirmar que corria bem o negócio, e nesses bons augúrios cedo se rumorejaram expansões, velhos cinemas lá pelos nortes, “tudo para reconstruir” claro, mas também diferentes arrojos, jornais, revistas, até um canal de televisão. E com a fronteira tão vizinha ali para sul, sonhavam-se outros passos cuja ambição excitava até os clientes.

Foi então passando algum tempo, imperceptível como é este sempre que se agita. Nesse curso certo dia dei conta que os olhos da gerente vinham mudando de cores, iam indo num caleidoscópio, uns dias acordavam azuis, noutros castanhos, para logo voltarem ao verde, seguiam ao preto, e não tinham nisso descanso. Essas deambulações incomodaram-me mas hesitava, como alertá-la sem lhe despertar preocupações? E era caso sério, apenas ela não atentava no ocorrido, os próprios funcionários se inquietavam, ali bem expostos a tais miríades de cores. Isso adivinhei nos seus silêncios, que deles não poderia esperar que me dedicassem confissões ou preocupações, branco doutor que era e para mais da própria gerente amigo. No passar dos dias ainda questionei o antigo responsável Nhamtumbo, ali sempre informal influência, mas o velho, mirrado, largou-me um vago sorriso sem denúncias de grande interesse, e apenas anuíu em concordar em que era aquilo bem estranho, num “ai senhor doutor, são estas coisas modernas, nunca tinha visto...”.

Tendo-me deixado a matutar sobre toda aquela situação súbito compreendi que os próprios filmes iam piorando, não só eram eles segundas escolhas mas mesmo dessas vinham agora as cópias riscadas ou mesmo cortadas, enquanto o novo projector se afirmava cada vez mais renitente ao trabalho, e até o gerador se tornava menos solícito, sempre pronto a interromper sessões. E, cúmulo, mesmo as chuvas quando se abriam tomavam conta da sala, há pouco tão orgulhosa. Com tudo isto ia o negócio decaindo, ainda sem reclamações da sede nem murmúrios na clientela, se bem que esta cada vez mais esparsa. Seriam apenas os percalços tropicais?, interroguei-me, então ainda mais intrigado com o arco-íris na mulher. Mas calei-me, nada comentei, pois não eram assuntos da minha competência, e a vida de cada um é de cada um.

Finalmente algum espelho terá sido clarividente, que dos acontecimentos lá se apercebeu a gerente. Inquiriu e para o esclarecimento das causas ter-lhe-ão valido algumas solidariedades femininas, após as quais veio ter comigo, que da vizinhança tinha feito poiso para lhe ir distribuindo alguns conselhos de modo a que capinasse ela a vida. Ao que lhe afiançavam tudo aquilo, desvarios cromáticos e mecânicos, silêncios e vazios, se devia ao facto do antigo responsável ser leão, e ter entretanto redobrado as suas felinas actividades. E, pasmada o dizia, sendo isso do conhecimento geral dele fugiam os clientes, temores redobrados nas falsas noites que o cinema fingia, todas aquelas imagens de sonho tornadas assim fábricas de pesadelos.

“Que fazer com o leão?” angustiava-se a gerente. Despedi-lo, e de imediato, foi a minha proposta, mas ela a retorquir-me que o não poderia fazer, não tinha para isso justa causa, ao que ainda opus “e que raio de lei do trabalho é esta, se ser leão não é justa causa para despedimento?”, quem protegeria os direitos das vítimas? Mas ela, aflita, a negar-se, nem pensar em despedir o leão, isso implicaria recurso para o tribunal e como poderia ela reportar à longínqua sede “despedi o funcionário tal que é leão”, não haveria de ser compreendida, haveria um espanto lisboeta e decerto seria também ela dispensada.

Mas apesar dessa discordância insistia ela na minha opinião. Assim instigado alertei-a para a necessidade de inverter o rumo das coisas, trabalhar a opinião pública, pelo que lhe propus uma campanha publicitária que torneasse alguns dos malefícios sem que fosse muito explícita, pois era delicado o problema. Aventei então uma reprise, “O Rei Leão”, delícia da meninada grande, apresentação emoldurada por anúncios afiançando que era esse “ha ngonhama ya mbangu lowô”, o ronga para “o único leão deste lugar”. E que entretanto ao outro leão fossem dadas férias, direito de todos e matéria que não levantaria quaisquer reparos. Assim talvez se reduzissem as suas acções, avisado ele da compreensão alheia, assustado até, e com isso regressasse o público.

Mas em breve constatei que se a afluência tinha aumentado um pouco da serenidade do olhar da gerente não havia melhoras. E passo a passo foram regressando, implacáveis, as outras incongruências. Para mais pouco tempo depois aportou um director, aqui deslocado para estudos de expansão pois as más notícias ainda não tinham soado na sede. Mas não lhe era longa a estadia e, súbito, uma manhã cedo fui chamado pela vizinhança, apelo urgente que chegara a revolução!

Acorri, solidariedade de imigrados, para me defrontar com um pé de vento que era também de guerra, os funcionários aglomerados e recolhendo a solidariedade transeunte, dezenas de pessoas protestando à porta e acotovelando-se em indignação curiosa. Tudo isto coroando a presença de dois polícias, ali deslocados para defesa dos trabalhadores. Lentamente iam eles agitando um papel reportando a queixa entretanto apresentada, e o qual oscilava em alternância entre director e gerente, estes já cônscios da importância da situação não só pela agitação colectiva mas sabedores de que é por aqui sagrado o papel, pois quando lhe chegam ao corpo os problemas já não têm estes retorno possível. Apesar disso pareciam os agentes disponíveis para uma resolução amigável do assunto, sem particulares incidências ou relatos e porventura com modesto e privado reconhecimento. Mas a população é que não o aceitaria, exigindo eficiente e rápida resolução da questão apresentada.

De mim se esperava um conselho avisado e de imediato me deram conta do conteúdo da queixa. Ali, num português duvidoso mas de cuidadosa dactilografia, erguia-se o auto acusador, expressando a angústia dos funcionários. Nele se denunciavam as ímpias actividades do antigo responsável do pessoal, aquele velho Nhamtumbo, algo de irrefutável pois os queixosos com ele tinham sonhado, indício certo dos ataques que vinha ele desenvolvendo contra os seus colegas

Encarei o acusado, ali entrecoberto num canto, ainda mais mirrado do tão enrugado que estava, o fundo dos olhos encovados mais distantes do que o habitual, como que refugiando a alma bem num âmago que se queria inacessível. Confrontei-o com as acusações e ele, no tom assustadiço do encurralado, a negar “nada, senhor doutor, eu não fiz nada”. E eu a impor-me, alguém tinha que o fazer e já não seriam os meus dois patrícios, ali descabelados, “mais velho, que anda você a fazer, a querer matar os colegas?”, que vergonha aquela, que teria ele a ganhar com isso, trabalho havia para todos, para quê aquela maldade, e ele já pouco negava, desistindo-se num fastio raivoso “se eles o dizem!, senhor doutor, mas eu não fiz nada”.

Arrastava-se a situação, os polícias ali também desprovidos de atitude, e a gerente aflita, ainda para mais com o director tão incomodado com tudo aquilo, nada preparado para um sublevação popular à porta do seu Cine-Teatro. Urgia fazer uma limpeza, foi a minha única opinião, “vocês têm que chamar alguém de fora para sarar isto”, e ela anuindo entre o compreensiva e o assustada, e, avancei eu, para uma situação tão grave como esta impunha-se chamar um especialista de Inhassoro, zona desses mais poderosos, e o qual logo diria se havia ou não feitiços e decerto se encarregaria de os anular.

O director não desviava os olhos, julgo que avaliava da minha franqueza, mas logo lhe irromperam as dúvidas, até agrestes: “Você está a falar a sério?”, e eu encolhendo-lhe os ombros, insistindo que seria a única coisa a fazer, ao que ele logo se impôs, determinado na sua autoridade e ultrapassando qualquer concordância da sua subordinada, que “era o que faltava, andar agora a recrutar magos para nos resolver as questões”.

Ainda entreolhei a gerente, se bem que não me recorde qual era a cor dos olhos dela nesse dia. Mas então esvaziava-se ela diante do chefe, agora ali a afirmar-se, seria ele a resolver a contenda. E logo me voltou a antiga azia com gente desta, que não há continentes de permeio que os afaste, tão cheios de si mesmos, e amaldiçoei a diarreia que não se lhe chegava, que é sempre com ela que se lhes reduzem as certezas. Assim, e à laia de desistência, fui-lhe dizendo que tudo aquilo era com ele, tinham-me pedido opinião, estava dada e pronto, e concluí numa insistência já inútil “vocês têm aqui um problema laboral, se o quer resolver chame o curandeiro e verá como tudo acalma”.

Cresceu então o director, a reforçar a sua magreza, franzindo ainda mais a cara rósea destes recentes trópicos, aquele eterno casaco azul bem vincado e abandonado pelos ombros. “Ó Teixeira”, chegou-se-me ele ao apelido a modos que a sinalizar a gravidade do momento, que nem sequer aí tínhamos chegado, ali sem “doutores” que é certo tal não se usar entre homens da mesma idade e, julgava ele condescender, do mesmo estatuto, “nem pense nisso, nunca farei tal coisa”. Aí fui lesto, abandonei-lhe um ok despedindo-me daquela conversa sobre a qual se centravam todos os circundantes olhos, enquanto ele, convicto e sonoro, rematava para todos nós em jeito de justificação e já em nome da Companhia “nós também viemos para mudar este país!”.

Ainda levantei as mãos, rendido, e dei-me à saída deixando toda aquela turba a resmungar foradentes a situação, mas não sem deixar a Nhamtumbo uma última invectiva, que estava ele com sorte, mas que deveria parar com aquilo, tinha sido descoberto, nada ganharia com o assunto. E do assunto nada mais ouvi, algum acordo deve ter sido feito, falsos silêncios acredito.

Pouco depois o director regressou à base, que esgotado estaria o motivo da sua visita. E em breve partiu a gerente, já cansada não tanto da terra mas mais de estranhas ameaças, gentes que lhe irrompiam casadentro de arma na mão, nunca se soube se verdadeiras se falsas, que por outros nunca foram vistas, mas que para ela existiam é certo.

Passaram-me alguns anos e com eles novos interesses. Fui ouvindo dizer que o Cine-Teatro se esvaziava, e quando me arriscava a passar perto da porta bem notava que os cartazes iam sendo cada vez mais antigos e desconhecidos, ali postados reforçando um ar de abandono que, súbito, fazia até o folclore das gentes da cidade.

Hoje, com a família já bem longe e a casa em definitivo vazia de qualquer comodidade, o fastio da solidão levou-me ao refúgio do cinema. Cruzei, até cerimonioso, o silêncio da porta, preservado com cuidado pela pouca meia dúzia de clientes, ali todos um pouco com ar de engano. E logo agarrei a parca companhia de um café enquanto procurava nos muitos empregados, em desuso por ausência de quem servir, alguma cara conhecida com quem trocar mero cumprimento que fosse. Mas nada, ninguém do “meu tempo”, todos aqueles trabalhadores tinham partido, já não havia ali alguém para me reconhecer.

Súbito, saindo da sala ainda iluminada, lanterna desligada na mão, sorrindo-me um "boa noite, senhor doutor" o velho Nhamtumbo. Não resisti, entre o aliviado e o contente dei-lhe também um quente "éh, senhor Nhamtumbo, ainda está aqui?" e ele a acenar o óbvio, "então e os outros, foram-se?", e ele, seráfico e ainda mais mirrado, a anuir imóvel e longínquo, abandonado num sorriso mudo. "Só ficou você, Nhamtumbo?!", e ele nada sem negar, "áfinal?!" não pude deixar de rir-lhe, agora com ele solidário.

Saí para a rua, uma noite estrelada, destas daqui, a casa oca e a falta de sono, tudo apelava para que perseguisse a madrugada. Mas, estranho, tive pudor em gastar esta minha última noite índica em passeios solitários, tão desencaminháveis são esses. E de qualquer modo amanhã estarei já, e de vez, recomeçando em Luanda onde, contam, são os bares bem mais animados e tantos os patrícios por ora recém-chegados.

Agosto 2002

Publicado por JPT em 02:48 AM | Comentários (0) | TrackBack

Discursos

Há oito anos atravessei Moçambique em trabalho. Foi uma missão apressada, até um bocadinho trabalhosa, e que veio a ter impacto na minha vida pois dela resultou a minha emigração. Cumpria-me na altura organizar um conjunto de exposições e acompanhar um palestrante, o Prof. Dr. Carlos Ascenso André.

"Um peso pesado de Coimbra" avisaram-me em Lisboa, o que me inquietou deveras. Para quem não saiba os académicos são temíveis: na sua maioria trabalhadores individuais tendem para o auto-centramento, até egocentrismo; trabalhadores protegidos tendem para a incompreensão do mundo vasto que os cerca, aquele que tem um nome, "logística", ou melhor, "vida". Professores, viciam-se nessa relação hierárquica, a qual alargam ao mundo circundante. Pior ainda quando vêm de Coimbra, diz-se, não sei porquê, mas a impressão é tão constante que tem que ter alguma fundamentação que ultrapasse o mero preconceito.

Não podia estar mais iludido. Calhou-me uma gentileza de pessoa, cultissimo sabendo sê-lo de modo leve, excelente comunicador, divertido, interessado nos outros, nos seus interesses. E rijo, adaptando-se ao que o rodeava, gostando-o.
"Cinco estrelas".

Nunca mais o vi, de quando em vez cruzo alguém que o conhece e peço que lhe enviem os meus cumprimentos, o meu afecto e respeito (caro leitor, se lhe for possível...).

Hoje, nesta noite, leio no Público ter sido ele que organizou uma reunião "come back" de António Guterres. E onde este tão bem falou, apontando vectores fundamentais para o futuro desenvolvimento internacional.

Saúdo o prof. na sua actividade cívica. Tão necessária ela é. E gostaria agora de o reencontrar lá por Nampula ou Beira, recriar se possível o aprazível ambiente de quando por lá estivemos juntos, e pedir-lhe que me elucidasse ele, com todo o seu brilho, sobre o que fez Guterres durante os seus seis anos na senda do belo discurso com que agora nos brinda.

Mas como tal encontro nos é agora impossível terei que me ficar, estupefacto. Apreciando a ária, claro está. Ainda que ouvindo-a de outra área. Para sempre.


Publicado por JPT em 02:17 AM | Comentários (0) | TrackBack

março 29, 2004

Noblesse oblige

Cumpre aqui registar os blogs amigos que nos últimos dias incluíram elos para o Ma-Schamba, diz-me a Technorati. Os meus agradecimentos a:

Um Ganesh Gordo, MaisTurvaSão-Inconfidências à Mão, Blog 19, Balta-zar, Boemius,Bloggaridades-Socioelegias, Fumaças, Ocioso Pensamento, Cócegas na Língua, Sempre em Frente, Amor, Porque Morremos Senhor?, Não se Nasce, Fica-se, Jumento, Prima Desblog, Teclado Bloqueado, Rua da Judiaria, Rouba a Alheira, Vostrodamus, Memória Virtual, O Blog do Alex, Voz de Mim, Hiperbolico, e Diário de Bordo.

Adenda: e também ao Tupperware Onanista, Arqueoblogo e H Gasolim Ultramarino, os quais por alguma razão não me surgem via a tal Technorati.

Já agora, e diz o Ma-Schamba, há cada nome mais estranho. Razão teve o Vizinho ao perguntar a origem dos nomes de cada um.

Publicado por JPT em 08:45 PM | Comentários (3) | TrackBack

março 28, 2004

Usos e Costumes: apropriação ritual de comestíveis

Segue-se abordagem a alguns dos episódios mais hilariantes que vivi em Moçambique, deles tentando retirar explicação de teor antropológico. Para alguns poderá parecer de mau-gosto fazê-lo hoje. Mas não, não procuro qualquer sarcasmo, apenas entender um fenómeno que sendo cómico não se restringe a isso. Escrevo-o aqui por respeito, não por desrespeito. Respeito por nós todos, aqui e acolá. (E em linguagem o mais curta possível, dado que blog). O respeito de tentar compreender o inusitado.

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Em 1997 o Presidente da República Jorge Sampaio visitou Moçambique em visita de Estado e ofereceu uma recepção à comunidade portuguesa. Em 1998 o Primeiro-Ministro António Guterres visitou Moçambique em visita de Estado e também ofereceu uma recepção à comunidade portuguesa. Tive o privilégio de comparecer a ambas. Bonitos eventos, sentidos e elegantes, momentos até rituais de congregação dos nacionais aqui residentes, os quais não constituem uma comunidade, faltando-lhes para isso qualquer organicidade. Facto que será explicável pelas diferentes origens sociais, geográficas e culturais dos patrícios aqui residentes, bem como pelas acentuadas diferenças biográficas, muitas fruto da conturbada história nas últimas décadas dos portugueses em Moçambique .

Mas voltemos às recepções. Ambas assumiram o mesmo molde, com cerca de 3 mil convidados presentes numa tenda gigante colocada nas instalações do Hotel Polana. Foram então servidos vinhos portugueses e queijos da serra, um agradabilissimo menu, ainda para mais com tais produtos dos quais aqui se têm tantas saudades.

Nessas ocasiões surpreendeu-me a quantidade de compatriotas que, quando assim o entendiam, se retiravam acompanhados de queijos da serra debaixo do(s) braço(s), alguns já encetados, outros ainda por inaugurar.

A posteriori, entre o embaraçado e o indignado, alguns convivas de outras extracções afirmavam que tais práticas seriam dos portugueses de origem indiana, aqui bastante numerosos, não esquecer que Goa foi um alfobre do império.

Mas posso afiançar que não é isso verdade. E não há nada de ideológico nesta minha negação. É pura empiria, observação directa, até atenta (e divertida?). Este costume, o da " apropriação ritual dos queijos da serra" cruza diversas origens geográficas, religiosas e culturais.

Em 2001 o Presidente da República e o Primeiro-Ministro visitaram Moçambique por ocasião da cimeira de chefes de estado da CPLP. Nessa altura foi ofertada uma idêntica recepção, decorrida no complexo Mini-Golf. Algo diferente pois os queijos da serra foram então acompanhados de presuntos. Estes apresentavam-se laminados nos pratos , e com abundância, mas também no seu formato tradicional, pendurados sobre as mesas, servindo de decoração.

Após as conversas breves e os múltiplos cumprimentos típicos destes eventos encostei-me a uma mesa conversando com a dona do estabelecimento, minha conhecida desde os tempos em que aqui cheguei. Estava ela controlando os acontecimentos, ainda que o espaço tivesse sido alugado e, portanto, a sua responsabilidade executiva diminuta.

Enquanto conversávamos pude comprovar ao espanto, até terror, dos seus empregados, várias vezes dirigindo-se-lhe em pânico "D., o que fazemos?, eles [os convidados] estão a carregar os presuntos", perigando até a decoração. A senhora, estupefacta, ainda procurou o meu conselho, "o que é que eu faço?", e eu só me ria, "que fazer?", e ela "ouve, são teus patrícios, tu é que os compreendes, o que é que eu faço?", até aflita com a confusão e com as hipotéticas reacções. Lá lhe fui passando a minha modesta opinião, de experiência feita, que nada, que se ficasse ela quieta. Então não tinha alugado o espaço? Aquilo era oferecido na recepção, e no entender dos convivas era para levar, não tinha nada a ver com o assunto. Ela que se deixasse ficar. Assim mais sossegados bem se riram, ela e os empregados.

Estes episódios são já tradição. Surgem recorrentemente nas conversas. Narram-me ainda que aquando da visita do Presidente Mário Soares também os convidados saíram de mala cheia. E quando o Presidente Eanes visitou Maputo, em 1981, até pancada houve à porta da recepção.

De todos estes episódios pode-se pois retirar um padrão comportamental. Que ultrapasse o jocoso. Em meu entender este é já um comportamento tradicional, aquilo que a velha etnografia chamava de "usos e costumes", presente ente alguns extractos da comunidade portuguesa. Que assim representam a concepção que têm da relação havida com os seus (longínquos) representantes eleitos. Quando estes se aproximam extraem-lhes as oferendas, potenciam-nas. Aquilo a que eu, repetindo o acima considerado, teorizo como "a apropriação ritual dos queijos da serra" (e em calhando dos presuntos).

Presumo que isto possa ser interpretado desta forma: largos extractos dos portugueses aqui residentes, porventura não tanto a sua elite económica, sentem-se abandonados ou desprezados pela sociedade ou pelo seu Estado. Fruto da história complexa deste país, da descolonização. E também das levas de migrantes colonos desfavorecidos, dos quais alguns aqui se mantiveram, sempre reclamando algum apoio estatal. E não esquecendo o estigma do "português de segunda". E também de gente que por cá está e sente uma lassidão nos laços com o Portugal de origem, sempre desejáveis de reafirmar.

Nesse sentido esta apropriação de bens comestíveis nos momentos cíclicos em que a sua nacionalidade é reafirmada em eventos festivos e rituais (as visitas de Estado) não pode ser considerada apenas como fenómenos de cupidez e má-criação, para além de apetite. É também uma catarse de uma relação complexa com o seu Estado, uma afirmação daquilo que sentem, uma sensação em que se auto-definem como credores do seu Estado, do seu país. Do abandono em que se reclamam. E, obviamente, da sensação de orfandade que o fim do Império deixou em alguns extractos sociais, e neste caso explicitamente naqueles que não eram os mais favorecidos, nem nisso se tornaram.

Não discuto se terão razão, não é isso que me interessa. Afirmo que o sentem e assim o expressam, ritualmente. E afirmo também que adoram queijos da serra e presunto.

*****************

Hoje o Primeiro-Ministro Durão Barroso chega a Moçambique. E logo à tarde há a recepção à comunidade portuguesa. Estarei presente, honrado com o convite. Mas de olhar antropológico atento, procurando comprovar se o ritual se repete.
Com um sorriso, claro está. Mas também compaixão.

Publicado por JPT em 01:49 PM | Comentários (5) | TrackBack

Raguebi

Já que falei de raguebi gostaria de lembrar um ponto. Há muitos anos, por ocasião da Taça do Mundo de 1991 ou de 1995, João Paulo Bessa publicou no Público os melhores textos sobre desporto que li. Neles procurava explicar o jogo, e todas as suas etapas, através de uma analogia com uma batalha medieval.

Infelizmente não os guardei. Um dia encontrei-o algures e tive a desfaçatez de meter conversa para lhe dizer isto que acima escrevo, e pedir-lhe que os republicasse de alguma forma. Penso que nunca aconteceu. Se algum leitor os tiver ou conhecer bem que podia invadir os meus "comments".

Ontem Portugal teve uma vitória retumbante e inédita neste desporto. (Quem a imaginaria, há alguns anos?). Uma boa maneira de a comemorar seria a reapresentação daquele belissimo tratado. Ou será pedir demais ao Publico?

Publicado por JPT em 10:57 AM | Comentários (2) | TrackBack

Consciências?

Acerca de um apontamento meu sobre a guerra no Sudão recebi uma simpática nota de um dos autores do "Acuso2", que inclusive teve a gentileza de o ecoar (o jargão diz "linkar") no seu blog.

Diz ainda estranhar o silêncio sobre esse assunto. Não estranho eu. Escrevi isso para alertar sobre o assunto (qualquer antropólogo lamenta o massacre em terras de Nuer, mas isso é outra história). Mas também escrevi para sublinhar um ponto. A cacofonia sobre guerras alhures na atmosfera portuguesa (seja lá qual for o meio de comunicação) prende-se com as possibilidades de associar as partes da guerra abordada ao espectro político-partidário português. Seja Israel, Iraque ou outro qualquer.

Há os que o fazem directamente (ou seja, têm consciência disso). Há os que fazem sem essa consciência, apenas surfando no discurso dominante.

E porque é tão importante o tal "espectro político", porque é tão premente discuti-lo com recurso a todas as analogias e ferramentas, até as tais guerras alhures? Num país onde nem a modalidade de tratamento de lixo se consegue decidir definitivamente?

Porque o controle do Estado ainda (sonho o ainda) permite o acesso às benesses. Económicas e estatutárias. E estatuto é economia, sff.

O meu caro Werewolf do Acuso 2 agradece-me ter alertado consciências. Não o fiz decerto. Nem nunca foi esse o meu objectivo. Pois não acredito que haja consciências dormentes (aqui e ali talvez, concedo). Há, aí a Norte, um "compromisso histórico" e as consciências agitam-se em torno dele, das flutuações que a divisão do quinhão vai tendo, consoante a estação. O resto do mundo que se lixe. Objectivamente, que se lixe tudo o que não dê para alimentar o discurso interno. Da maneira mais linear possível, dita eficaz.

Toda a solidariedade, toda a preocupação com o alheio, tudo isso é belo. Mas termina se for posto em causa o rendimento a distribuir. Exagero? Veja-se a festa com o Timor Lorosae, tudo na rua, etc e tal, tanta consciência desperta. Num país que se recusa a aumentar o volume de Ajuda Pública para o Desenvolvimento. Ainda que o tenha presente na retórica. Que nada faz para mudar as regras do comércio Norte-Sul. Não há aí o mínimo de vontade. Não é uma questão de consciência, é de vontade! E nisso Portugal é muito europeu: mudar um pouco (do mundo) para que tudo fique na mesma.

O "compromisso histórico" é este. Vem do tempo do vinil. É cantado à esquerda e à direita, rico e pobre, todos os dias. Cante-se pois:

Oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends.
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?

Oh Lord, won't you buy me a color TV ?
Dialing For Dollars is trying to find me.
I wait for delivery each day until three,
So oh Lord, won't you buy me a color TV ?

Oh Lord, won't you buy me a night on the town ?
I'm counting on you, Lord, please don't let me down.
Prove that you love me and buy the next round,
Oh Lord, won't you buy me a night on the town ?

Everybody!
Oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?
My friends all drive Porsches, I must make amends,
Worked hard all my lifetime, no help from my friends,
So oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz ?

That's it!


Arrogante filho-da-puta, dirão os poucos leitores. Nada!!! Não sou diferente, tenho um Mercedes (bem, o meu carro tem um motor Mercedes), e alguns outros bens. Até DVD e scanner novo.

Mas ao menos canto a canção. Não venho com internacionalices ou com nacionalices. E quando vejo a miséria que nos rodeia, a dantesca miséria que nos rodeia, sei que isto não muda com conservadorismos bacocos nem com folclores agitados. Mas também não sei o que fazer.

Arrogante filho-da-puta?

Um abraço werewolf

Publicado por JPT em 04:18 AM | Comentários (2) | TrackBack

Arenga sobre Hinos (e até sobre a Europa)

Aprendi o hino nacional na escola primária. Trinta anos depois ainda me lembro das invectivas da professora sempre repisando que não se devia gritar no verso "às armas" mas sim no final "marchar, marchar". Desde então cantei o hino meia dúzia de vezes, sempre a plenos pulmões. E sempre no futebol. Não sei a letra de cor, só a consigo reviver em grupo. E muito possivelmente será essa a sua missão, ser cantada, revivida em grupo.

Sei que é ela uma sobrevivência. Algo muito datado e quixotesco, ainda que se tenha (avisadamente) substítuido os "bretões" inimigos por idênticos "canhões". Há anos Alçada Baptista propôs a sua substituição, o que lhe causou a perda da tença estatutária. Tinha ele toda a razão objectiva. E nenhuma razão subjectiva.
No hino nacional não interessa verdadeiramente o que se está a cantar. Interessa sim cantar. Um símbolo aglutinador. que vale outra coisa do que é. (Um caso em que o real, a canção, é mera aparência).

[Lembro-me de ser adolescente rebelde e desrespeitador de tudo o que me impingiam. Um imbecil, em suma, ainda que carregado de acne e medos. Certo dia fui à festa do jornal Avante, não me lembro se isto se passou no ano do Chico Buarque ou dos Dexys Midnight Runners. Mas lembro-me que apesar de ser tão atrevido ter ficado completamente escandalizado: houve um discurso antes do espectáculo e cantaram o hino. E os assistentes cantavam-no de punho no ar, uma violação clara do sentido que julgava (e julgo) devida à infausta canção mas orgulhoso hino.]

A propósito de quê, esta conversa? Pois hoje a TV5 transmitiu em diferido o França-Inglaterra do torneio das 6 nações (raguebi, claro). Eu, e desde que Gales não esteja em campo, torço pela Inglaterra: Gales, pois lembro-me do Barry Jones (mal, é certo), mas muito bem do seu sucessor Phil Bennet; do Gareth Edwards; do John Williams, do JJ Williams, do Gerald Davies, do Fenwick. É óbvio, era miúdo demais para perceber o jogo dos avançados, não me lembro deles. Mas todos eles fizeram-me um bocadinho galês, durante essa década de 70.

Mas se eles não estiverem é a Inglaterra. (O que eu torci há uns meses, manhã de sábado ao calor da praia em Pemba, durante a final da Taça do Mundo. Ainda para mais ao meu lado uma galesa, doente de rivalidade a torcer pelos australianos...)

Daí que hoje sentei-me. As equipas perfilaram-se e eu também, no sofá. Pronto para, português, ateu e republicano fundamentalista, respeitar e sentir o ansiado "God Save the Queen", ali a anteceder a Marselhesa hino dos pavões.

Mas fico estupefacto, a banda avança com Beethoven. "Que raio é isto?" ainda me perguntei para logo aparecer um plano aéreo com a bandeira da UE lá posta à frente dos jogadores: o hino da Europa, lamento-me eu, desalentado.

Que monstruoso ridículo. Que artificialidade ridícula. Ali a fingir-se símbolo de uma identidade comum. Como se não fosse o próprio torneio muito mais do que o torneio. Ele próprio o símbolo, já secular, dessa identidade comum, vivida, lembrada, reforçada, no embate anual.

Que coisa burocático-politiqueira, aquele Beethoven ali postado.

Depois, depois, os ingleses cantaram (com tudo o que tinham dentro deles) o seu hino. E foram para o jogo levar uma sova.

Eu entretanto fui jantar, nem vi. Mal-disposto.

Publicado por JPT em 03:43 AM | Comentários (1) | TrackBack

março 26, 2004

Novos elos

Acabo de incluir ligações a alguns sítios informativos e ainda a dois blogs memorialistas dedicados a Moçambique: o ”Pemba para Sempre” e o ”Xicuembo”

Publicado por JPT em 12:38 AM | Comentários (1) | TrackBack

março 25, 2004

Conferência de ministros da cultura da CPLP

Dentro de alguns meses decorrerá em Maputo a conferência dos ministros da Cultura da CPLP. Não estou particularmente expectante quanto aos seus resultados (quem o estará?), mas sempre poderá implicar algum processo positivo. Tenho as maiores reservas a estas conferências inter-ministeriais. Para mais quando tutelam áreas intangíveis, por norma secundarizadas e suborçamentadas. E, para cúmulo, quando agregam representantes de um organismo que não apresenta sinais de particular vitalidade, a esconsa CPLP. Mas, repito-me, esta conferência sempre poderá implicar algum processo positivo.

Há quinze dias um verdadeiro escol dos intelectuais e artistas moçambicanos esteve em Salvador a convite do ministério da cultura brasileiro para participar num encontro preparatório da citada conferência. Também os outros países africanos da CPLP estiveram representados a nível governamental (à excepção de Moçambique) e por personalidades da área.

O carácter inusitado desta reunião preparatória deixa adivinhar algumas dinâmicas, ao demonstrar um novo interesse brasileiro nas relações culturais com os países africanos (e não só da CPLP):

a. o interesse do seu próprio ministro da cultura na dinamização das ligações com a área cultural africana (Gilberto Gil, está claro; reunião em Salvador, “sede” do sincretismo);
b. um sinal (mesmo que secundário) de um novo interesse do Brasil de Lula no desenvolvimento das relações Sul-Sul, o anunciado estabelecimento de laços multilaterais que o reforcem no diálogo com o Norte (o celebrado eixo Brasil-África do Sul-Índia; e para quando a Indonésia?);
c. e, por silogismo, uma diferente concepção do intercâmbio cultural. A procura de uma maior simetria (ainda que o “etnocentrismo” brasileiro e o seu desconhecimento das realidade africanas venha sempre ao de cima, diz quem sabe) nas relações culturais; a percepção do capital político que os laços culturais poderão vir a assumir, cimentando relações no futuro.

A um outro nível o encontro de Salvador reforça a ideia da relativa ineficiência da CPLP. Pois muito do que ali foi discutido já teria sido protocolado em 2000, não tendo sido possível percorrer caminhos nesse sentido. Mas valerá a pena insistir.

Essencial terá sido o facto de Portugal não se ter feito representar. Nenhuma personalidade enviada.

[Certo que Boaventura Sousa Santos abriu e encerrou a reunião, mas sob convite brasileiro. Ao que consta um discurso ideologizado que não dinamizou em particular as delegações africanas. Mas ao gosto do actual poder brasileiro. E, presumo, que em contracorrente do actual poder português. Assim, talvez um pouco inibidor de congregações na prática cultural que aqui se desejam. Mas enfim, será porventura um vulto incontornável.]

Mas por iniciativa própria nenhuma delegação portuguesa acorreu a Salvador. Nem personalidades, nem representação governamental. Ao que dizem apenas uma figura mui secundária da administração pública, que pautou a sua presença por uma total discrição.

Repito, pouco haverá a esperar deste tipo de conferências. Mas a ausência portuguesa (hiper-notada, hiper-criticada) demonstra uma “ciumeira” (hiper-sic) para com o Brasil, além da evidência do desinteresse efectivo com a CPLP. Fiel ao que aparenta ser o verdadeiro rumo português: o da manutenção de laços bilaterais, reduzindo uma multilateralidade que potencie a autonomização dos países africanos. Concepção de evidente anacronismo e incompetência, pois a autonomia está aí há já muito e chama-se independência. E integração regional. E internacionalização.

Mas algo mais transparece. A total desvalorização de uma aposta na constituição de redes culturais institucionalizadas, ou seja de condições para intercâmbios estruturantes, que ultrapassem as cíclicas “embaixadas ao papa”. A desvalorização destas redes é um efeito de puro economicismo e politicismo, dever-se-á ainda à ignorância das possibilidades do tempo (mais) longo do cultural. Mas o abandono do desenvolvimento dessas redes indica também a incapacidade de serem elas conceptualizadas e executadas.

Finalmente esta perspectiva é ainda devedora de uma inócua, porque irreflectida, valorização da língua como vector de união. Falácia que no fundo é apenas a legitimação da desistência da actuação no domínio da colaboração cultural (entre outras). Até porque desprovido o Estado português de instrumentos institucionais para a desenvolver, inexistente a política africana do Ministério da Cultura, extinta a Comissão dos Descobrimentos, transformado(pacificamente) o Instituto Camões num instituto de língua.

Nota de rodapé: pode ser (talvez, talvez) que a não representação portuguesa neste evento se prenda com outros factores. Que seja um torcer de nariz não isolado a algum voluntarismo de Brasília (ou Salvador). Nesse caso (que não me pareceria totalmente descabido) uma correcção diplomática, que se saúda. Mas que por si só não invalida alguns dos entristecidos desabafos lá de cima.

Publicado por JPT em 05:16 PM | Comentários (0) | TrackBack

A fala do ateu II

(cont.)

Nunca elaborei muito sobre este ateísmo. É-me ele normal. Não me ensinaram qualquer divindade, nem tive que a abandonar. Por vezes lembro a solidão que isso transporta. Também ela normal. E não particularmente dolorosa. Pois é-se assim mesmo.

Olho a fé alheia com interesse, até profissional. E com respeito, de cidadão. Aceito algum proselitismo alheio. Pois que fé, que crença, que convicção não implica a sua transmissão? E aprecio ouvir a gente de fé, tentar entender-lhe a lógica, ainda que sempre irredutível. E sentir-lhes o sentimento.

Apenas uma vez graduei o que me separa, e por insistência do interlocutor. Que insistia em evangelizar-me, surpreso pela minha impermeabilidade ao que ele considerava ser a dúvida. Ou seja, exigia-me ele que abandonasse eu o ateísmo, que aceitasse a hipótese a existência de deus, que duvidasse da sua não-existência. Pois não é a dúvida, implicitava ele, sinal de saber? Isto tudo sem que se permitisse, por seu turno, a duvidar da sua crença. Esta é uma situação padrão, diga-se, mas nem todos são tão insistentes.

Para rematar improvisei. Esquiços que me ficaram até hoje: o de uma superioridade intelectual, pois o crente aparenta ser incapaz de conceber um mundo sem causa, e em particular sem causa consciente; o de uma superioridade moral, pois não preciso de sacralizar os valores que vão comandando (com algumas falhas, reconheço) a minha vida. São eles opções, até conjunturais, e por isso tão válidos.

Morreu então a conversa, ofendido o intelocutor. Que aceita ver-se superior ao não-crente mas nunca o inverso. Lembro que lamentei ter falado. Porque assim não se abate a fé de alguém? Não, porque não interessa tentar abater a fé. Para quê?

E para quê estas memórias curtas? Para concluir que não entendo o (meu) ateísmo como uma "situação", como uma "condição". Não me cria qualquer vínculo especial com outros ateus. Não me impede qualquer vínculo com crentes. Não me constitui base para qualquer identidade colectiva. Em suma, não é a minha religião.

*******

Vem esta a arenga a propósito de uma noção que agora descobri, a dos "brights". Se calhar é algo já do conhecimento geral, estarei eu atrasado.

Mas fiquei estupefacto, até gelado. Diz o "Hou-Hou Club" que "o termo é uma tentativa de reagrupar todos os não-crentes com um aspecto novo e simpático, como o fez a comunidade homossexual nos anos 70, apropriando-se do termo "gay". O termo foi adoptado rapidamente ... e suscitou um entusiasmo mundial..."

Têm o blog "The Brights"que acabo de visitar e onde lá está o manifesto: "unir os não-crentes para união social e política"

Repito-me estupefacto. As pessoas têm todo o direito de se associarem umas às outras, não me vejo censor. Mas para quê esta plástica, este "tornar-se simpático" ainda para mais em sociedades abertas?

E para quê este afã em criar identidades artificiosas. Um apelo à acção política e social assente numa visão de quê? Que união implicará o ser ateu? Que valores sociais, que práticas políticas, lhe serão obrigatórias ou esperadas no hoje em dia, só devidos a essa sua característica?

Amanhã lá estarão a dizer "mas se é bright como poderá pensar deste modo? defender aquela posição?". Ou seja, exigindo-se que a partir de uma concepção sobre o todo (até fluída, ainda para mais) se derivem constantes e sistémicas perspectivas sobre os particulares.

No fundo uma nova religião. Apenas isso. Ou não, menos que isso. Porque inconsciente de tal o ser. E decerto polvilhada de peralvilhos cheios deles mesmo e suas certezas.


Publicado por JPT em 02:13 AM | Comentários (2) | TrackBack

março 24, 2004

Blog porta-aviões

”Fora do Mundo”, de Francisco José Viegas, Pedro Mexia e Pedro Lomba.

Publicado por JPT em 03:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 23, 2004

Sudão

No Sudão a guerra dura há décadas. Rezam as notícias que há agora novidades, e nada boas. No Sudão a guerra dura há décadas. Rezam crónicas que as razões são petróleo, "oil". No Sudão a guerra dura há décadas. Rezam de saber feito que por lá fazem "etnocídio"/"genocídio" - que imberbes palavras. No Sudão a guerra dura há décadas. Nem sei detalhes para aqui deixar. Apenas que no Sudão a guerra dura há décadas. Que há novidades, e nada boas. Que as razões são petróleo, "oil". Dito em inglês, em malaio, em francês, em norueguês (oops, em norueguês, não são estes tão finos?).

No Sudão a guerra dura há décadas. Não há manifestações, não há televisão, nem discursos, nem Haia, nem partidos, nem tão pouco seus lideres. Ou até intelectuais. Nem mesmo esses bloguistas. Não há exaltação, não há atenção, não dá tesão.

Mas é claro como petróleo, "oil". É que são pretos os que morrem no Sudão.

Publicado por JPT em 01:39 AM | Comentários (2) | TrackBack

Madam & Eve

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Madam & Eve será menos universal do que Calvin & Hobbes ou Mafalda, talvez exija um pouco de conhecimento sobre a África do Sul. Mas isso em nada implica ser menos genial. Há mais de dez anos que Madam, Eve e Mom (auto)ridicularizam preconceitos e caminhos. Espelho hilariante e implacável de uma África do Sul pós-apartheid que afinal é o mundo.

Aí em baixo tenho a ligação para a tira diária da criação de S. Francis, H. Dugmore e Rico. Leitura obrigatória. Mas menos (muito menos) obrigatória do que deliciosa. Quem não conheça aceite o conselho, visite. E acabará a encomendar os livros (David Philip Publishers).

PS. Já agora, Madam & Eve é o ex-libris do Mail & Guardian (também com ligação neste blog). Semanário sul-africano exemplar. Uma esquerda clarividente, uma esquerda do sul, com os punhos metidos nas feridas, por demais preocupado com hipotéticos caminhos para as sarar, em caminhos nunca lineares portanto, e jamais folclóricos. E implacável para os desvios dos seus próprios líderes, afinal eles próprios (como em todo o mundo) os grandes adversários daquele algo melhor que todos (ou quase) precisam.

Publicado por JPT em 12:48 AM | Comentários (0) | TrackBack

março 22, 2004

Roupa Velha 12: Um Estrangeiro na Zambézia

UM ESTRANGEIRO NA ZAMBÉZIA, durante as cheias

De Quelimane ao rio Chire quase vai um dia. Dois camiões atolados há já 15 horas vedam a estrada, rodeados de uma meia dúzia que tapa todas as irreverentes opções. A surpresa de aí encontrar um mui recente ministro português, simpatia enérgica a gerar o desentupimento. No contraste com a minha displicência de Rothmans feita sinto os determinismos psicológicos. Há quem tenha o dom do poder e outros, como eu, olhamo-lo, quase sempre de viés. Esperando que milho e madeira desçam das viaturas converso com um indo-descendente, dez anos comerciando entre a Moita, o Laranjeiro e a Costa da Caparica. Ao “porque raio voltaste?” solta um “que sentido tem aquela correria?”: não há-de ser esse cofió a separar-nos, Adam! Algo envergonhado conta-me que, farto da espera, pagou 400 mil meticais para se descarregarem os camiões. E estes, logo que menos pesados metem a primeira velocidade e saem calmamente das suas covas.
Rio-me de mim, qual psicologia, qual poder do Grande Homem Branco: “É a economia, estúpido!”.

Um padre na estrada, desses de décadas de mandioca e feijão com bicho, guerras, água morna, falhanços, malárias, que fazem este ateu sentir-se um pouco mais pequeno do que já é. Irritado, o velho! Narra o episódio do padre italiano que morreu há dias, arrastado nas cheias ao tentar levar doentes ao hospital. E do seu colega partindo em busca do corpo, irregulares caminhos, margens lamacentas, atolado vezes sem conta, o cansaço sem desespero da gente de fé. E do seu regresso, ainda sem sucesso, onde a polícia o multa em um milhão de meticais, que isso de nas buscas ter caído a chapa da matrícula…até pode ser verdade mas não apaga a ilegalidade.
Determinismos culturais? Tradição, culto dos mortos, ritos prescritivos, enterro lá no lugar dos antepassados? Que idealismo, “é a economia, estúpido!”.

Perto de onde era o batelão do Chire, pequena travessia por roldanas, é agora uma infindável planície de água, bordejando a aldeia Pinda. As primeiras casas distam 50 metros planos do rio. Felicidade pela inesperada presença de Ventura, o meu motorista, pastor da igreja evangélica que aí professam. Numa pobre capela de pau-e-pique uma breve e alegre oração conjunta. Faço um apelo a que partam para zonas mais altas, pois as chuvas a oeste e as descargas vão aumentar. Já o administrador o disse mas não vislumbram razão para tal, nas cheias de 1978 as águas não ultrapassaram aquela árvore acolá, guardiã da secura a 20 metros da povoação. Empirismo puro, para racionalista aprender! Intercedo junto de Ventura para que os convença. Responde que não o fará, aquela gente não tem tecto noutro sítio e as suas machambas estão ali. Para onde irão?
Fatalismo, inconsciência? Mais uma vez, “é a economia, estúpido!”.

Para trás ficou Quelimane, onde a beleza das mulheres até magoa. E testemunha, sem essas coisas do genoma, que a mistura das gentes é bonita. Nas esplanadas da cidade vou indagando como vivem as meninas que passam. Perguntas cujo caroço, vejo-o agora, é o sentimento de que dói menos uma mulher menos bela ser prostituta do que uma mais bela. Imoral moralismo! Que não, dizem-me, mesmo sendo ali porto isso não é mais generalizado do que noutros lugares por esse mundo fora. Mas lembram que muita rapariga procura um marido que a tire dali. Lembro o Primeiro Dia de Mafra, com o longínquo aspirante Boieiro aos berros, qual vedeta de Hollywodd, apelando à rusticidade pois os piores classificados iriam parar às ilhas “de onde virão casados”. E o frémito de horror que percorreu o ainda informe pelotão, imaginando o casamento com uma açoriana.
É o mesmo, a troca do isolamento geográfico por outros isolamentos. Neste combate à lonjura, “é a estúpida economia” dos afectos, estúpido!

Gurué, verde montanhoso na falsa beleza da monocultura. Modernos rumores de futura indústria de capulanas bem nas nascentes do Licungo, todas essas tintas navegando até ao Índico, dando de beber às gentes, colorindo a Província. “É a economia, estúpido!”. Avaria madrugadora, marcho durante horas provando o envelhecimento. Uma moto passa e há-de voltar já liberta do pendura, um miúdo que me transportará para a cidade. À proposta de lhe “pagar o combustível” o jovem extensionista rural de Mocuba ri-se e diz-me “ó seu estúpido, nem tudo é economia”, que um dia o hei-de safar algures. Obrigado Felix dos Santos, pela boleia e pelo alívio.

Por todos estes sítios se encontram europeus. Cooperantes, velhos cooperantes, ex-cooperantes, neo-cooperantes. Ali e acolá um comerciante, até um empresário. Tal como no sul toda essa gente vai partilhando cereais destilados e a opinião que a actual cooperação não ajuda o futuro do país, que algo tem de mudar. Estarão eles enganados, tal como os moçambicanos que de o acharem até já estão fartos de doadores? Sem respostas nestas noites distritais, lembro-me do meu pai e trunco-lhe as palavras: “a democracia é o alcatrão e a electricidade!”.
Mas vai-se dizer isso, arriscar os empregos de expatriado ou os clientes de dolar no bolso? Deixar andar, “é a economia, estúpido!”.

Risonhos, vêm centenas de homens na estrada. Logo procuro saber que se passa e do aglomerado ouço, espantado, “Maharishi”. Desde há alguns meses 1700 jovens meditam 4 horas diárias em troco de 270 mil meticais mensais. Pasmo, que raio, receber para meditar! Resquícios cristãos, a noção de que o transcendente exige pagar ao intermediário com o(s) espírito(s). E porquê assim, porque não o contrário? De facto, “é a economia, estúpido”, como tirar os homens do trabalho sem os compensar, quando vivem no limiar da economia de subsistência? E face aos que ainda agitam uma idílica agricultura tradicional vejam a sua desnaturalização, pois meditar potenciando equilíbrios pressupõe os desiquilíbrios. E talvez possibilite outros sincretismos, renovações, transformações. Por eles, coisas bem locais. Porque a mentalidade, essa “economia, estúpido”, coisas feias e bonitas, agradáveis ou não, está aí omnipresente. É deixá-la ir, e ainda bem que auto-meditada.
Tenho que partir, mas a vontade é quedar-me por lá! Fica a esperança no sucesso desta ideia. Repito-me, se aliada ao “alcatrão e electricidade”, parece bem mais promissora que tanto “desenvolvimento” semi-importado.

A norte, onde o Zambeze só dá o nome à província, o Alto Molocué, pequena vila dividida por esse rio. Vizinho da pequena ponte o Fotógrafo Soares, “fotografia tipo B.I”. Não resisto, desço as escadas, minto-me de colega e peço para fotografar. O velho fotógrafo, com o caudal em casa, dá-se à imagem junto dos seus. Proponho que saia dali, é visível que as águas vão subir. Calmamente aponta umas frágeis canas, habitual limite do rio, e às quais em breve este retornará pelo que não vê necessidade em partir. Respeito, mudo a conversa, responde-me que o negócio vai normal, mas que não chega para nova casa de tijolo. Ficará acompanhado da família, feita dique moral. De novo, “é a economia, estúpido!”.

A casa desabará meia hora depois, a água cobre a ponte. Lembro o padre e, aqui inútil, cruzo-a rumo ao Maputo, à Inês. E à notícia da morte de C. Geffray. Fica este país, agora desprovido de longínquo e magoado saber, mais pobre. Porque nem tudo, estúpido, é economia.

Março 2001

Publicado por JPT em 09:47 AM | Comentários (2) | TrackBack

Shikhani

shikhani.jpg

Para mim Shikhani é o maior escultor moçambicano. Ainda que não esculpa há anos. Obras de uma robustez misteriosa que nos impõem espanto. Dele procuro fugir reduzindo-as de pré-colombianas.

Na sua pintura encontra-se essa madeira, aqui disfarçada nas cores vivas com que o velho mestre risca os seus caminhos, labirintos de rotas paralelas nunca concluídos, uma angústia vejo-a eu.

Visitei-o agora, cicerone. Recebe-nos com aquele enorme sorriso de boas vindas, até desmerecidas por este amigo relapso. Está inquieto Shikhani, tanta a obra recente, acumulada sem mesmo secar. Nem nos espera, lá no aeroporto está a brotar...

Publicado por JPT em 02:52 AM | Comentários (0) | TrackBack

março 21, 2004

Só porque me apetece

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(Roubado ao Sépia, que roubou à Casterman, que editou o Hugo Pratt)

Publicado por JPT em 01:54 AM | Comentários (3) | TrackBack

março 20, 2004

Apontamento copiado

No blog "Liberdade de Expressão" está escrito (e para todas as frases há ligações):

Estas guerras também merecem uma manif

Quit threat at Somali peace talks

Alarm at Liberian ritual killings (Olha! Tráfico de órgãos)

Thousands flee Burundi fighting

Ivorian leaders debate civil war

Uganda villagers killed in raids

Refugees killed in Sudan riots

Mass rape atrocity in west Sudan

***********************

No meio da cacofonia giraça eis uma faísca de inteligência portuguesa. Cito-a, pois.

Publicado por JPT em 06:18 PM | Comentários (0) | TrackBack

Do 11 de Setembro

O ”Aviz” relata do seu espanto ao ouvir um imbecil na rádio a saudar a morte dos americanos no 11 de Setembro. Não terá sido o único. Daí uma pequena memória sobre o dia.

Nesse 11 de Setembro tínhamos imensa gente em casa para jantar. O motivo do repasto era a visualização de um documentário sobre Nacala, feito pela Joana Pereira Leite. Lá se jantou, os convivas nervosos, estupefactos. No fim mais ou menos votou-se o vídeo em detrimento da CNN e lá se seguimos para as memórias da Joana. Claro que num dia desses tudo terminou em grande discussão, sobre méritos e deméritos do vídeo, seu sub-texto e etc. Serviu de catarse.

Já noite longa e terminados os contra-argumentos levei alguns dos convidados, os portugueses, ao hotel. Fiquei-me só, bastante acelerado, de tudo o que se tinha visto quase em directo, do jantar meio louco, da discussão que se seguiu, e do cocktail de cervejas, gin, vodka, tinto e whisky que tinha acompanhado o dia.

Não me imaginei na cama e segui à Bagamoyo, meio vazia estava, dia de semana e tão especial. Porta a porta entrei no Luso, onde o balcão pode ser recatado em troca de uma ou outra Reds.

Também a matar a noite por lá estava o André, um italiano meu conhecido e há muito aqui residente. Lá nos juntámos, o assunto era óbvio. O horror, o espectáculo, o futuro. Tudo dito e redito. Até que começa ele com a arenga que os americanos estavam mesmo a pedi-las, tinham que levar com situações destas, tanta a sua arrogância, o imperialismo. E tudo quanto fazem pelo mundo fora.

Tentei interrompê-lo, a puxar-lhe pela manga, até numa concordância que muita violência fazem e patrocinam os EUA. Mas caramba, aquilo tinha sido horrível - "viste aqueles tipos a saltar lá de cima?" - e ele nada, nada mesmo, que era tempo dos americanos sentirem em casa a violência, não tinha pena nenhuma.

Bem, que me restava fazer? Concordei com ele. Que tinha razão. Realmente o poder americano é violentíssimo, usa a agressão constantemente e capeia-a. E fui adiantando que ao olhar para trás também saudava todos os italianos mortos durante a II Guerra Mundial. Não é que os sacanas tinham apoiado o Mussolini?

Não percebi bem porquê mas ficou irado, insultou-me. A conversa morreu ali mesmo, e desde então cada vez que me vê - e já lá vão quase três anos - limita-se a um aceno, tão breve quanto possível.

Nos dias seguintes fartei-me de ouvir gente a dizer o mesmo que ele. Que tinha sido horrível, é certo. Mas que estava na altura de eles apanharem em casa.

E nem todos os que falavam eram italianos. E eu sem saber o que lhes dizer.

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março 19, 2004

Aqueduto

Então vão demolir parte do aqueduto das Águas Livres para interessa lá o quê, diz-se no "Público"?

Quando alguém protestar aposto que ainda vão aparecer a falar da inevitabilidade, no progresso, na plasticidade histórica das cidades.

E o povo falará da bola, scolari, mourinho (agora racista, para culminar), porto e sporting, e tralha afim.

E todos são povo...

Publicado por JPT em 06:10 PM | Comentários (2) | TrackBack

Nampula outra vez

Não vou a Nampula há algum tempo. Não sei o que lá se passa. Já escrevi sobre o assunto, opinando com o cuidado possível, assente em conversas havidas e naquilo que mais ou menos conheço sobre o país, e em especial sobre o norte.

Ontem mostram-me a Visão (sem link), hoje o ”Público”. Lixo puro, sensacionalismo. E dizem-nos orgãos de referência. Se o são então como serão os outros.

A reportagem do Público tem primeira página, tem uma menina a escrever sobre a míriade de cheiros que há no mercado (não vai ela às compras em Lisboa, à praça, à drogaria?), ecoa a mui estranha irmã que vai dislatando. E não diz nada sobre tráfico, nada, sobre raptos, nada. Mas cria toda a impressão que algo de muito grave se passa. Mas não diz nada, não viu nada.

Ah, e lá está o "branco", sempre temível que passou e levou. A menina jornalista, para além dos cheiros não percebeu nada.

Jornalismo de referência? Uma merda!

Publicado por JPT em 10:40 AM | Comentários (4) | TrackBack

Religião: a fala do ateu I

Uma das frases que se me marcou, pérola do falar do falar político, foi de Mário Soares. Quando da sua primeira candidatura a PR disse que "não tinha a graça de ser crente". Um animal político, goste-se ou não.

Então apreciei o engenho da frase, instrumento quase subtil de apelo ao voto católico, um lamento até compungido pela sua inferioridade de não-crente, que o irresponsabilizava de tal característica, e implicitava mesmo um pedido de apoio. Algo que o suplantava, que afinal até derivaria da própria divindade. Depois disseram-me ser aquele dito um erro teológico, mas isso não lhe retirava a arte retórica.

Passados alguns anos a sua memória passou-me a irritar. Porque inferiorizadora do ateu. No fundo tão legítima como alguém a lamentar-se de ser crente: "desculpe lá, sou católico, não tenho culpa, é mais forte do que eu", "o senhor não leve a mal mas sou budista, é uma maleita crónica", e etc.

Irritação que, sei-o, se associava com as tidas nessas periódicas conversas em que desembocava eu no meu "sou ateu" para logo me emendarem, prestáveis e esperançosos, "ateu não, agnóstico". Prestáveis, esperançosos, mas mal-criados. Eu aqui cheio de respeito pela fé alheia, interesse mesmo, e os interlocutores na volta da palavra ali a desdizerem-me sobre mim próprio, a desrespeitarem-me.

Não tenho dúvida que há uma suave desvalorização do ateísmo. De tal forma que quando encontro alguém que se diz ateu e não agnóstico dá-me vontade de o abraçar. Não por qualquer solidariedade especial, ou por sentir particular afinidade. Não mesmo, o ateísmo não me funciona como vínculo. Mas apenas por não se refugiar no retórico agnosticismo.

Por vezes quando alguém se auto-reclama de agnóstico vem-me ao de cima toda a maldade e vou-lhe conduzindo a conversa para até que conclua ele, até envergonhado, "Ok, eu sou mesmo é ateu!". Nem sempre, claro está, que há muito agnóstico por aí. Ou pelo menos às minhas mesas.

Mas há uma desvalorização, suave repito. Que casa com a constante desculpabilização. Reparo-o, pois cada vez que ouço, a mim próprio ou a outros, uma afirmação de ateísmo lá a seguimos (Pavlov explicaria) de uma veemente afirmação de respeito pela fé, pelas religiões e pelas igrejas daqueles que nos rodeiam.

(e aqui aproveito, sem qualquer ironia e com toda a honestidade, para informar o hipotético leitor deste blog que tenho o máximo respeito pela fé alheia e pelas instituições religiosas)

[há-de continuar]

Publicado por JPT em 10:03 AM | Comentários (4) | TrackBack

Ainda sobre Espanha (e sobre o humor imbecil)

Há uns dias escrevi sobre Espanha. E chegou. Também concluí que a vitória do PSOE foi uma vitória do terrorismo. Até neste blog de canto esconso levei com discordâncias, via mail acima de tudo.

Breve regresso à questão (e último?) apenas para citar "Pacheco Pereira"O que me interessa não é a análise espanhola ou europeia, ou americana, é a análise da Al-Qaeda».

É mesmo isso. Ao invés do que leitores me escreveram, e ao de tantos outros, que se ficam no considerar que ligar a vitória do PSOE ao terrorismo é um crime lesa-democracia. Mas considerar isso em nada nega a legitimidade das opções espanholas. Apenas, mas um enorme apenas, frisa que decerto entenderam os terroristas a sua acção como um enorme sucesso. O que lhes dá alento, bem como o dá aos seus apoiantes. Cristalino como água mineral.

Mas ainda que simples conclusão isso exige elementar exercício. Tentar entender como pensam os outros (neste caso terroristas e seus adeptos). Entender-lhes lógica de acção e de prospecção. E não ficar encerrado nos nossos princípios. Neste caso nas odes aos valores do voto livre, da alternância. Ou na festa pelas nossas opções, neste caso das político-partidárias respectivas. Assim ficam presos, assim incapazes de entender.

Não é pedir muito. Parece. Mas em alguns casos será. A este respeito dois exemplos de humor imbecil, encontrados logo hoje pela manhã, em gente incapaz de dar o salto da sua "casinha tão modesta quanto eles":

- o inefável "Barnabé" a considerar o óbvio raciocínio de Pacheco Pereira como estando ele "refém da Al Qaeda". É até cansativo ver uma auto-reclamada esquerda, aquela das tarjetas multiculturais e internacionais, tão autocentrada, incapaz de praticar os próprios slogans. Nada de novo, mais um efeito (o desta década) do reaccionarismo da dita esquerda portuguesa, tão autóctone ela é.

- e de sinal contrário, um tão superficial arauto dos americanos, típico exemplo de uma auto-reclamada direita [por onde andará a direita europeia, tão anti-americana ela própria in illo tempore?], o "Homem a Dias", que remata: "Quer dizer, chamar "países" a coisas como a Jordânia, Marrocos e o Paquistão (os mais antiamericanos) demonstra um espírito de abertura que não é para todos."

Para quê perder tempo a ecoar dislates? Não exactamente por eles. Mas ainda que sendo óbvio que este mundinho dos blogs lusos não representa (não quer?, não pode, e não o faz) o país, isto irrita.

Pois quando neste meio se ouvem tantas loas a pensadores como estes, só resta esperar que seja esta uma dimensão muito particular, muito reduzida, do país que se vai tentando ser, de um país menos pequenino do que vai sendo.

Publicado por JPT em 09:45 AM | Comentários (1) | TrackBack

março 18, 2004

Eduardo

Este comentário tem que vir para letra grande. Obrigado Eduardo....

[e calar os espantos e os inespantos das donas Fátimas ou Inêses, ainda que tão diferentes, é ser daqueles correctinhos. Muitos os farão, mas não o somos nós para as nossas mulheres mães filhas. Nem pensar.
Saem mais abraços]


***************

Texto sobre "recepção diplomática":

Súbitos, os olhos culimam uma mashamba na Internet. Há ali, num belo retracto, algum sangue redesenhando o luzidio dos batons e as femininas línguas apalpando o quinino, o limão e o Gin.

Descapulanizados, os amores, fazem corajosamente diplomacia por entre tiros e assaltos. É fresco o quintal ou a sala, apesar dos 30 e tal graus com que, descalços, uns pés rasgados em Michafutene agarram o pilão no verde da matapa.

Desse verde, uma criança sonha nas costas o biberon de leite que o piripiri, a molho no Chiquelene, não consegue comprar. Insenta, a mãe, da dureza fálica do sr. Cossa, sangra o mênstruo, num pedaço a cores de uma velha capulana, de outras seis proles que no esperma cansado e no bafio azedo do tontonto aquele irá trazer, a murros, como um ramo de flores para não falar de amor.

Entre a água morna na moringa e os pingos de suor a lavarem-lhe o rosto, dona Fátima faz suspiros para esquecer o medo da violência com que todos os dias o país a acorda pela velha esteira. E sem diplomacia nem nada, nem gelo, nem fraquitos gins, iça o velho balde de água nas duas mãos gémeas que, sem coserem, fazem a moda das suas companheiras a provar, nos jardins, as verduras da sua machamba fritas e enroladas na massa das chamussas diplomáticas.

Não há assalto pior que o que faz a Pátria, todos os dias, à alma lúcida de Dª Fátima sob os olhares incrédulos e bem grávidos das recepções nas embaixadas

Publicado por JPT em 05:31 PM | Comentários (1) | TrackBack

Protocolo e os vestidos curtos

A próxima visita do PM português a Moçambique recorda-me um pequeno episódio ocorrido aquando da vinda do PR Jorge Sampaio nos idos de 1997. Por essa ocasião a delegação portuguesa ofereceu um banquete bastante alargado, no qual não tive oportunidade de participar. Mas aqui em Maputo pude assistir à alguma azáfama que o antecedeu.

Foram então convidadas largas centenas de personalidades moçambicanas. Muitas habituais nestas situações. Mas era tal a dimensão que vários dos convivas estavam pouco rotinados a banquetes de Estado. Para mais ofertado por Estado estrangeiro.

Vivi isto um pouco como conselheiro de esplanada, a esses mais desabituados. Lá me apareciam conhecidos num apelo de ajuda: "ó teixeira, V. é que me há-de dizer o que significa isto". Chegavam agradados com o luso convite, quem não gosta de ser assim reconhecido?, ainda para mais quando dá para chegar a casa a dizer à cara-metade "prepara-te que temos banquete".

Mas aportavam também com um problema. Convites já recebidos, envelope timbrado, cartão impresso em relevo dourado, prova de "quem é quem!". Mas coisas de protocolo europeu em África. Pois lá vinha, formalissima indicação do traje de rigor. Inapelável nos homens o fato escuro. Ora para alguns fato sim senhor, agora escuro, preto, é que em terra destes calores não tinham. E lá me chegavam a pedir-me opinião, e eu a deixar-lhes ao critério próprio, que havia de fazer?

Por essa altura trocavam-se os dolares numa loja de roupa na Baixa, a Milano - essa que agora está toda remodelada, modernaça, ali à Clínica Cruz Azul. Um dia passei por lá nesses intuitos e dei com a casa cheia, azáfama grande e inusitada. Encostei-me ao balcão e fiz-me desentendido na pergunta "então, muito movimento hein?", e os empregados a confirmarem, naqueles dias era um corropio de gente, todos a comprarem fatos pretos e a acertá-los. "É para o banquete", diziam até cúmplices aqui com este português.

Mas mais preocupante era ainda a questão das senhoras. Pois no dito cartão-convite lá vinha especificado: vestido curto. E eu a adivinhar as inquietações lá nas casas, os maridos encarregados de me virem perguntar, entre intrigados e assustados, "vestido curto? mas curto quanto?, até onde, isto é para mostrar as pernas", até ao jocoso meio-desconfiado "mas é para se verem as pernas? querem ver as pernas das nossas mulheres?". Ainda que pouco sábio em tais matérias lá fui acalmando humores e temores, que isto eram coisas de costumes europeus, linguagem a evitar aqueles vestidos arrasta-chão. Que levassem elas saias normais ou então, caramba, os belos vestidos compridos por aqui tão usuais em dia de cerimónia.

Enfim, não houve dúvida, uma pequena distracção do nosso protocolo que veio provocar algumas fortes dores de cabeça em vários casais convidados. E até despesas.

Nos dias seguintes lá ia eu perguntando o "então correu bem?", e que sim, senhor, tudo normal. Não era nada demais, eram mesmo pouco curtos os vestidos pedidos. Não, não havia nenhuma malandrice ali. Afinal...

Publicado por JPT em 05:12 PM | Comentários (0) | TrackBack

Para autores de blogs

”O Vizinho” é um curioso e pede que se lá vá dizer causas e origens dos nomes do blog de cada um. Ideia engraçada.

Publicado por JPT em 11:27 AM | Comentários (1) | TrackBack

Recepção diplomática

Uma recepção diplomática. Quatro senhoras de diferentes países ali à conversa. Uma disserta sobre o ano que viveu em Nairobi. Cidade temível, tipo Joanesburgo, uma criminalidade omnipresente, vidas encerradas em bunkers, expatriados aterrorizados e os locais também.

Ah, rejubila ela, que diferença em Maputo, esta segurança, esta calma, nada típica das capitais africanas, esta vida aprazível. E todas concordam, aliviadas até pelo que o destino lhes está a reservar.

Bem, lembra-se uma outra, "outro dia fui assaltada na f. engels (tão bem conhecemos, sempre foram sete anos!), roubaram-me a mala, empurraram-me pela ribanceira abaixo, foi terrível, ainda para mais vinha com os meus dois filhos, ali a verem tudo". Uma pequena pausa e segue outra - esta conheço melhor, e mesmo bem - "pois, e há alguns meses estava no café Nautilus num sábado de manhã, assaltaram a caixa de câmbios defronte, gerou-se um tiroteio de meia hora, mataram três assaltantes e nós ali estendidos no chão, outros fechados na casa de banho, as balas a sibilarem, até dois dos clientes ficaram feridos". E, remata uma terceira, "assaltaram-nos a casa para nos roubar uma mobília nova que tínhamos acabado de comprar, eu estava bem grávida dos gémeos, e ainda assim espancaram-me valentemente".

Entreolharam-se as senhoras, ali em plena recepção diplomática. Súbito lembradas que tanto naturalizam o seu quotidiano que até esquecem tudo isso, até se sentem seguras. E, depois, servem-se de mais um gin, "fraquinho, s.f.f.", um vinho branco talvez, e acompanham com uma chamussa.

Bem rijas as nossas mulheres...

Nossa sorte. Nossos amores.

Publicado por JPT em 02:19 AM | Comentários (1) | TrackBack

março 17, 2004

Prémios blog

[apontamento nocturno sem preocupação de forma]

A ”Memória Virtual” ecoa uns prémios internacionais de blogs.

Mas só no ”Hou-Hou Club” (um bom blog que não visitava há meses) hei-de encontrar a lista completa.

O melhor blog "africano e do médio oriente.." é ”Made in Bagdad” Muito bom. Atenção, MUITO BOM. Atrasa-me a cama. Texto abissal, e estética a mexer (literalmente). Brutal.

Mas, caramba, Bagdad não é Argel, Monróvia ou Kigali. A geografia vale o que vale. Mas porquê estes novecentismos serôdios, que tem África a ver com o Golfo, mais do que qualquer outra região? Cansam-me tantos mapas distorcidos, tantas austrálias reduzidas, tantos greenwichs, tantas não-penínsulas europeias. Certo, a própria representação gráfica é uma construção social, um acto de apropriação/dominação (como qualquer representação), blá, blá, blá. Mas realmente: mapa distorcido cabecinha pequenina.

***************

E é desse premiado ”Where is Raed” que roubo esta citação do Huntington (que não será um terrível revolucionário) que lhe serve de epígrafe:

"the West won the world not by the superiority of its ideas or values or religion but rather by its superiority in applying organized violence. Westerners often forget this fact, non-Westerners never do."

Assim como quem diz, pela superioridade dos seus Estados em organizarem a violência (externa) legitimando-a. (e isto faz-me lembrar um autor qualquer)

Boa frase para deixar nas mesas de cabeceira, bem emolduradas no meio dos naperons burguesinhos e fotos da família, de tanto pensador das direitas, tão convictos andam "sei lá o quê", daquela coisa especial que possuem. E, já agora, nas dos das esquerdas, tão convictos idem. Para que se lembrem estes que se não for assim lá se lhe fogem as condições para tanto multiculturalismo e pluralismo.

Pois a democracia assenta nisto. Sempre assentou. E mais vale ter consciência. E vivê-la.

Publicado por JPT em 06:55 PM | Comentários (0) | TrackBack

Brinquedo novo

Isto de mudanças tem isto. Brinquedos novos, isto dos contadores de "visitas", coisas de robots chamam-lhes os entendidos. Tive curiosidades, quantos vinham, de onde vinham, quanto tempo ficavam.

Coisas de robots, repito o que dizem por aí, isso das contagens. Robots sim, mas esquizofrénicos. Tem três, cada um dando seu número. Alguma razão haverá. Mas decerto esquizofrénica.

Chega. Estou como a Carolina. Quero outro brinquedo novo.

Publicado por JPT em 01:00 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 16, 2004

Escravatura

Meio escondido decorreu até hoje em Maputo um congresso organizado pela UNESCO. Propósito, o de discutir a dinamização do ensino da história da escravatura nos países do Índico, particular relevo aqui em África.

Pergunta, assim de raspão, "então como é que está esse ensino". Não há, dizem-me, silêncio total (daí o congresso) em todos os países.

Caramba, como se apaga a história através da História.

Publicado por JPT em 06:37 PM | Comentários (1) | TrackBack

monroe...quem?

Hoje, e como é felizmente habitual, jantar cá em casa, visita de Portugal, gente por cá muito veterano. Uma visita após anos de ausência. Lá para o meio da conversa a inevitável pergunta, "então quais as diferenças que encontra por cá?". Pois a mesquita nova da Mondlane, pois toda a Costa do Sol atapetada de vivendas. E, talvez mais analítico, isso dos americanos estarem e em força, por todo esse país, distritos a fora, cidades também, as suas organizações, a rede de ongs também. Nós, já tão habituados até nos surpreendemos com a surpresa alheia. "Muito mais do que os europeus" diz o conviva. Claro. E de que maneira.

Mas com muito menos retórica. Ah, e assim acredito que os corredores, Beira e Nacala, vão mesmo funcionar.

Monroe...quem?

Publicado por JPT em 06:33 PM | Comentários (0) | TrackBack

Do tamanho do mundo

O pormenor com que as primeiras palavras do novo PM espanhol são escrutinadas, com que as suas propostas são aventadas ou recenseadas, poderão ser explicadas pelo ambiente emotivo dos últimos dias.

Mas faz-me espécie toda essa atenção. Tal como a atenção informativa (inclua-se bloguística) sobre as primárias americanas tiveram até há pouco.

Caramba, são cuidados e atenções quem me fazem pensar o meu país tão pequeno. É que o mundo (ainda) é grande. E sobre ele a atenção pouca.

Publicado por JPT em 08:35 AM | Comentários (2) | TrackBack

março 15, 2004

Ainda Espanha: a europa até onde?

Ouvi e li em n sítios isto. Que os atentados de Madrid significam que a guerra chegou à Europa, que o terrorismo islâmico chegou à Europa, etc.

Recuo uns meses. A Turquia deve ou não entrar na Europa (calão para UE)? Torce-se o Giscard (quando ouço deste só me lembro do Bokassa canibal e seus diamantes, mas enfim, devo ser o único) com a sua matriz cristã da Europa. Torce-se alguma direita, mas não toda. Ergue-se a esquerda, o europeísmo moderno e aberto, pluriisto e aquilo, multiisto e aquilo.

Rebentaram bombas, e que bombas, em Istambul.

Afinal. Então são europeus os turcos ou não? Ou são de vez em quando e outras não?

Ou são apenas aqueles lapsos da língua, que denotam as hipocrisias de momento (oops) porque convenientes (política real) ou giras (o erotismo do caviar).

Adenda (sobre o passeio bloguístico): a ler blogs vizinhos do PS está por lá a ideia de que o Labour é de direita (Não sou censor, apenas recenseador). Vai ser interessante a evolução deste pensadores nos próximos meses.

Publicado por JPT em 11:32 PM | Comentários (1) | TrackBack

Pequenas gaffes (sobre Mia Couto)

"Aqui" leio a bronca de Bush, que ao discursar por ocasião da semana da Mulher saudou a libertação de uma líbia opositora ao governo após dois anos de cativeiro, apontada (entre outras) como exemplo da luta das mulheres por...etc., etc., etc. Só que a senhora afinal era um homem. Esta é das ficam como anedota para gozar com o homem, ainda que seja óbvio que se limitou a ler um discurso: erro de assessor, nada mais.

Mas fez-me lembrar uma gaffe do género, à qual pude assistir. Daquelas que volta e meia regressa à conversa, sempre levando ao riso.

Há anos o primeiro-ministro Guterres visitou Moçambique. Foram então condecoradas algumas personalidades moçambicanas (penso ser um hábito nestas ocasiões). Lembro-me que Mutola, Rangel e Naguib o foram, o que não me parece ter sido nada má escolha (e, sem desprimor, achei óptimo condecorarem Rangel). E também Mia Couto foi condecorado com um grande colar rutilante.

Estavam pois nas entregas, de cujos preparos se encarregava alguém do protocolo português. Diante de plateia apinhada e até cerimoniosa este lá ia lendo perfis e atributos respectivos, e à chamada cada um avançava à vez.

Estava-se nisto quando se ouve na sala um sonoro, grave (aquele som cavo protocolar, imagine-se) e bem com-pas-sa-do "Senhora Dona Mia Couto", e tudo a entreolhar-se em sorrisos quasi-explodidos enquanto lá avançou o Mia, com aquele ar de suave traquinice a dar o pescoço ao colar, como se nada fosse [ainda hoje imagino o que terá pensado o orador quando se deparou com aquela barba, mesmo que rala].

O que nos rimos com aquilo tudo, depois. E aos mais agrestes, daqueles do "como é que isto é possível! que ignorância, etc e tal" também só valia dizer um alçar de ombros, um "acontece, o homem enganou-se" coisas tão mais graves por aí. E que não deixam estas memória de sorrisos.

Publicado por JPT em 09:15 PM | Comentários (2) | TrackBack

Pequenas mudanças, grandes favores

Algo que nunca consegui perceber é como é que conduzo. Com gosto e nada mal, passe o auto-elogio. Espanta-me porque o carro é a única máquina que domino. O resto é um drama, traumático: a de barbear em desuso, a sonora uma complexidade que a vota ao silêncio, um computador máquina de escrever, a fotográfica sempre desfocada. Agora um scanner (novissimo) que não liga. A Inês olha, pesarosa. A Carolina lá há-de chegar o dia.

Vem isto a propósito de algumas pequenas mudanças que aqui consegui introduzir, para meu espanto. Fiz ligações, pus o meu nome e morada, e até um contador de visitas. Para mim um espantoso domínio das vísceras informáticas. Procuro outras, tornar os arquivos visíveis [e nisso este sistema é um bocado fajuto] e a casa mais agradável à vista.

Mas estas conquistas devem-se, em exclusivo, à ajuda (paciente) de alguns leitores, prestáveis. Agradeço-as aqui. E muito em especial a esse velho amigo de miudice, reencontrado aqui trinta anos depois, prova que "o passado é aqui ao lado". E logo um esteta olivalense, navegador do "Oceanus Occidentalis". Abraço.

Publicado por JPT em 04:10 PM | Comentários (2) | TrackBack

ONU e Grandes Lagos

Kagamé está em Maputo. ”Palavras para quê?”. Se a própria ONU "é tão isto", envolta como está no que se passou nos Grandes Lagos.


Publicado por JPT em 09:23 AM | Comentários (0) | TrackBack

Espanha

1. Pouco sei da política espanhola, não me está no cerne das preocupações. Aqui de longe tenho apenas a vaga ideia, talvez errada, que Alfonso Guerra não estava no poder.

Com alguma surpresa caíu o PP. Como português isso satisfaz-me e muito! O governo que caíu foi o que arrastou o petroleiro Prestige até Portugal. Acto indigno, cobarde, agressor. Dir-se-á que natural, para defender o seu próprio país? Nada é natural. Nesse caso o único natural que existiu foram os ventos e correntes que direccionaram o crude para Galiza após o naufrágio. Repito-me, foram miseráveis, cobardes e agressores.

Cobardia que sublinharam na gestão de todo aquele caso. Relatos de então consideravam que teria sido possível minorar os efeitos da catástrofe desde que a sua inevitabilidade tivesse sido desde logo assumido. O transbordo em terra foi até defendido. Não sou especialista, não conheço o caso, mas lembro-me da ideia de um governo a procurar afastar o mal e não em tratá-lo.

Sobre o inenarrável comportamento com a população da Galiza acho que foi tudo dito, até pela RTP. Lembro a negação oficial da existência de uma catástrofe ambiental e as imagens da costa ali mesmo. E a falta de recursos para o combate ao crude. Se bem me lembro até à visita do príncipe, umas semanas depois: o que prova ser a monarquia espanhola algo mais do que meramente simbólica. Ficou-me a ideia de um governo a procurar negar o mal e não em tratá-lo.

Cobardes por fim nesta semana. Tivessem eles assumido a hipótese Al Qaeda, tivessem assumido a responsabilidade pelas opções políticas que consideraram correctas...mas assustaram-se, tremeram. E mentiram (para os compêndios da História a circular da ministra dos negócios estrangeiros).

Pareceu um mau filme de Hollywood, desses militaristas. Os políticos que enviam os heróicos militares para a guerra e depois, ao primeiro embate, acobardam-se.

Um merecido final.

2. Ao ver as manifestações, gigantescas, pus-me a pensar que se os terroristas tivessem uma racionalidade semelhante à nossa à visão de um povo tão unido contra eles teriam obrigatoriamente que concluir a derrota, o erro estratégico desta acção, desta tipologia de acção.

3. Ao ver um governo cair, quase certamente pelos efeitos do atentado não posso deixar de pensar o contrário. Para os bombistas a queda de um governo inimigo por via de um atentado é uma extraordinária vitória. Cuidemo-nos.

Publicado por JPT em 08:52 AM | Comentários (3) | TrackBack

março 13, 2004

Investida noctívaga

Um ilustre leitor arrombou-me de novo, devido a oxítono pecadilho e, pior ainda, a um descentramento escribístico [se é que isto existe].
Emendo um, atentarei ao outro.

Publicado por JPT em 07:38 PM | Comentários (2) | TrackBack

Padrinho

Acabo de receber um email do meu padrinho, que ando muito ácido diz ele, talvez por falta de Sol, vai aventando.

***

Espanha enche as atenções do mundo, tudo espera notícias. Por maioria de razão as atenções portuguesas, vizinhos, irmãos, e o Euro. Eta? Al Qaeda? Ao jantar vemos a TV5, a TVE, a CNN. Tudo aponta a Al Qaeda.

Todos? Não. Uma estação irredutível, a RTP. Que anuncia, várias vezes, a prisão de dois "hindus" e de três marroquinos. A pista está aqui. Apesar do paradoxo à primeira vez que tal ouço vem-me à cabeça "o que tem a Espanha a ver com Caxemira?". Para de imediato perceber, constrangido, que não souberam traduzir "hindus" por indianos. Que não sabem o que é "hindu".

Sobre uma questão tão central, nos telejornais mais importantes, na televisão do Estado, repete-se um erro tão crasso. Que inclusive nega a pista Al Qaeda. Irredutíveis na ignorância.

Amanhã director, editor, locutor e outros "ores" continuarão. Como se nada fosse.

***

Como adivinhaste Pedro? Está mau tempo por aqui. Chuva, enublado e até frio.
Abraço para ti

Publicado por JPT em 04:32 PM | Comentários (4) | TrackBack

março 12, 2004

Voto livre

Li ontem num blog (e não o registei, é pena) um pequeno apontamento que me ficou a germinar. Questionava o autor se será constitucional obrigar à disciplina de voto dos deputados à Assembleia da República portuguesa.

Não sou jurista donde, silogismo, não sou constitucionalista. Mas realmente a questão parece ter algum fundamento: como é que em democracia as pessoas podem ser obrigadas a votar de determinado modo? Sob pena de serem sancionadas, explícita ou implicitamente? Não haverá anti-constitucionalidade na prática da Assembleia? - o que não seria novo, há dois anos foram apanhados a aprovar leis com menos que o número de deputados constitucionalmente requeridos. Que me lembre era uma prática de décadas, e denunciada a propósito das importantissimas leis de programação militar e eleitoral, salvo erro.

(Diga-se que então ninguém foi punido. Repito, não sou jurista, pouco ou nada percebo de leis e da sua aplicação. Mas se a violação de uma lei pressupõe julgamento e hipotética punição porque é isso diferente aquando da violação da lei fundamental?)

E se o Tribunal Constitucional entendeu preocupar-se com o voto de braço no ar no PCP porque considerado anti-democrático, implicitamente constrangedor da liberdade individual dos votantes, não se deveria também preocupar com esta explícita coerção sobre os votantes na Assembleia da República? Parece-me lógico, mas enfim, repito-me leigo.

Já agora uma última questão, um pouco lateral. Sempre estranhei que os deputados dos partidos reclamassem liberdade de voto para questões especiais, eu chamar-lhe-ia as grandes questões. Como a recente votação sobre a IVG.

Estranho essas vontades, pois parece-me que são nessas votações que se levantam questões centrais quanto à adesão a determinados valores: concepções de vida, de vida em sociedade, de limites fundamentais da acção do Estado, etc. (mas poucos etcs.). Ora é nessas questões que se pressuporia que houvesse uma radical homogeneidade intra-partidária. Ou seja, que os partidos fossem constituídos por pessoas que partilham um pequeno mas fundamental quadro de valores que as unisse para lá das normais (e salutares) distinções nas perspectivas do exercício político corrente.

Assim sendo seria natural que nessas "grandes" votações todos votassem em massa, sem se apelar a qualquer "liberdade de voto" [diga-se que esta deveria ser constante, mas enfim]. E que no dia a dia pudessem votar diferentemente segundo as distintas percepções da acuidade ou legitimidade das propostas em causa.

Em suma, nunca percebi porque não exigem a liberdade de voto relativa à qualidade de um OGE, de uma qualquer lei sobre sardinhas ou reformas, para depois a virem reclamar quando têm que legislar sobre aquilo que, efectivamente, os deveria unir como um bloco partidário, ideológico e sensitivo.

Publicado por JPT em 11:38 PM | Comentários (0) | TrackBack

ELES NÃO!

ELES NÃO!

Publicado por JPT em 06:00 PM | Comentários (1) | TrackBack

Dicionário por favor

Não tenho dúvidas, ontem não devia ter lido blogs. Irritei-me demasiado, pus-me a escrever sem necessidade, só raivoso, em vez de estar a dormir. Ainda me dá o cardíaco, estou na idade. Não ganho nada com isso, e o blog é uma diversão, nada mais.

E estou completamente certo que os tipos do BE gostaram tanto daquilo como eu. Apesar de lhes desprezar a retórica, mas que interessa isso? E quanto ao seu comunicado até é justo, aquilo foi mesmo "indignante e fascizante".

Bem, pode-se perguntar porquê "indignante"? Cá nos dicionários de casa não está, mas nunca fiando. Algum leitor terá um mais completo e actualizado dicionário que me elucide? Ou está lá só para rimar?

Por cá, espanhóis entenda-se, consideram que é Al Qaeda. Não é o tipo de acção Etarra. E foi numa zona pobre, a Eta não iria aí dizem.

Então se foi a Al Qaeda são eles "fascizantes". Como contestar então intervenções que os persigam? Como conciliar isso com as críticas recorrentes às velhas políticas do Chamberlain, do Blum, que não mataram a víbora no ovo?

Sei que escrever assim é demagojante (desculpem, mas também posso ir ao "ante"). Mas quando as pessoas querem ser muito assertivas esbardalham-se em contradições. Acontece-lhes coitados, e estão eles tão cheios de certezas...

Publicado por JPT em 02:20 PM | Comentários (1) | TrackBack

Cabo Verde

Email amigo faz-me chegar um artigo de Barata-Feyo sobre Cabo Verde, publicado na última Grande Reportagem.

Nele se aflora um total e radical paradoxo: como Cabo Verde teve sucesso na sua gestão política atingiu um patamar de desenvolvimento (escolaridade generalizada, cerca de 70 anos de esperança de vida, 1500 USD ano/per capita)
que o integra num grupo de "países de desenvolvimento médio".

O que sublinha a competência e seriedade do seu processo independente. Mas também algo que arrisca impedir a continuação das ajudas multilaterais e dos juros bonificados nos empréstimos internacionais. Bem vindos ao mundo real, parece ser o mote, "desenrasquem-se" na global competição: a um país pobre de recursos naturais, onde a riqueza é (como se bem vê) a humana.

Em suma, punidos por terem sucesso. Punidos por competência e seriedade.

Claro que não se pode ajudar tudo e todos. Tem que haver limites. É pois natural que UE, OSCE, ONU e outros, multilaterais ou bilaterais, prefiram apoiar aqueles governos/Estados realmente pobres: Angola, Congo, Sudão e desse género. Dificilmente exemplos de aplicação das ajudas internacionais, mas absolutamente integrados nos critérios de medição do subdesenvolvimento.

Esta notícia, a concretizar-se, será um paradoxo absoluto. Vamos ver se há ainda alguma racionalidade nisto tudo do "desenvolvimento", e se alguma dela está sediada nos organismos internacionais. E se assim se introduzem mecanismos correctores desta situação.

Muito honestamente creio que sim, seria um absurdo tão grande que deslegitimaria as próprias instituições doadoras. Mas mais vale estar atento.

Publicado por JPT em 08:19 AM | Comentários (1) | TrackBack

Gilberto Gil

Afinal sempre vem a Maputo. Final de Abril (27, 28?), dois concertos lá em frente do catembeiro, em torno do Café com Letras. Um em pé, outro para abonados, sentados. Há-de animar.

Publicado por JPT em 07:31 AM | Comentários (0) | TrackBack

março 11, 2004

....(diário)....(coisa ilegível)

Choca-me mais aquilo [há lá algum conceito para descrever?!] de Madrid do que se fosse em Monróvia, Kuala Lumpur ou por aí? Sim, são-me mais próximos. Não que outros sejam distantes, mas estes mais próximos, mais manos. Estúpido talvez, mas é assim. [chorar nas cheias de Moçambique, zapping se na China, tal e qual]


O weblog esteve todo o dia em baixo e ainda bem. Não foi dia de escrever.
(E também não é dia de andar por aí a apontar o dedo aos burguesotes que em tempos até disseram mais ou menos bem de quem, afinal, tanto os odeia. Só eles, imbecis, é que não percebem que nestas coisas não há lados: só há o nós e os filhos da puta. Também por isso ainda bem que o weblog esteve mal.)

Ao fim da tarde uma aula, turma virginal e eu a tentar-me coloquial. Condorcet imagine-se. Virginais, já disse, provoco-os, se realmente encontram essa perfectabilidade na história. Hum, hum, dizem, de tão evidente. Mas um não o acha, um mais velho, da minha idade, a negar o progresso pois se o houvesse não se estaria "a destruir o Iraque". Percebo bem que me está a picar, homem do mundo nada parvo este. A tirar-me as medidas, hoje mesmo. Passo-me, passo-me mesmo, mas não saio do tal francês. Hoje não hei-de sair.

*************

Jantar cá em casa, um antigo professor nosso, aqui em investigações vindo de Portugal. Lembramo-nos de que a última vez que cá jantou foi exactamente naquele 11 de Setembro. Que horrível coincidência.

*************

Antes de dormir venho aos mails. Nada. Aliás andam escassos. Ou passaram de moda. Ou são anos demais aqui, desvanecendo-se ligações. Um amigo da minha safra faz hoje quarenta anos. Ainda telefonei. Apenas mensagem.

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Nada de mails, blogs então. Aliás "blo.gs", os favoritos. Aquilo de Madrid, claro está. Algumas boas análises, já nem sei onde: "Filhos da puta", ou coisas semelhantes - não há nada mais para dizer.

Salta-pocinhas de blogs. E nisto os burguesotes, também humanamente indignados mas...mas...[contextos, contextos, aproveitamentos, aproveitamentos]. Num deles hei-de deixar um "foda-se" em comment público. Enojado, e nunca esperaria que mo acontecesse ali.

*******

O nazismo é explicável, versalhes, a crise de weimar, o tal de desemprego e pobreza, etcs vários. Será que esses burguesotes cada vez que um bando de neo-nazis bate ou mata um africano, um asiático, um homossexual, um cigano começam a falar dessa tal weimar ou de versalhes (não só o palácio). Ou do aproveitamento que as ligas de imigrantes ou as associações cívicas ou os partidos que lhes estão mais próximas poderão fazer da filhadaputice criminosa em questão?

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Vão, por favor, vão mesmo ao Abrupto [toda a gente tem a ligação]: vejam o post das 16.19, transcrição de um leitor. E depois, mas só depois, venham lá contar-me das causas justas, dos slogans giros, da oposição esclarecida, das deputadas giras (são tão feias, que raio, são tão feias aquelas mulheres) desses gajos.

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Já disse não é dia de andar por aí a apontar o dedo aos burguesotes que em tempos até disseram mais ou menos bem de quem, afinal, tanto os odeia...talvez por isso ainda bem que o weblog esteve mal todo o dia. - não devia ter vindo ler blogs. Para quê irritar-me?

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Isto não tem nada a ver, mas vem-me à cabeça para deixar neste diário. Há meses lançou-se em Maputo o livro do Fauvet e do Mosse, a biografia do Carlos Cardoso. Sala cheia. Muitos conhecidos, vários amigos. Lá, acompanhado de pessoa conhecida, o Louçã. Vários amigos meus a chegarem-se-me, ao português residente, gajo “até da malta”, nuns "vem lá conhecer o homem", "não vais lá conhecê-lo?", "apresento-te". Eu percebo, as nossas biografias são mesmo diferentes, resta-lhes o encanto (mesmo que desiludido) por uma esquerda que não é o meu. (Se calhar chegámos ao mesmo sítio, mas por caminhos diferentes).

Recusei-me, quero lá conhecer o homem, que se lixe a bacalhauzada. Às insistências do "lá estás tu com as tuas coisas" tive que ser franco, “não falo com etarras”. Para a surpresa deles, que raio ando eu a inventar? Nada, quem vem torcer a história para contextualizar etarras é etarra, não me fodam. “Não falo com etarras” – tal como sempre me neguei a esses periódicos pedidos de ajuda para uns amigos de amigos, “pessoal da malta”, umas atrapalhações a que eu se calhar poderia acorrer, lógico que coisas de “fp’s” que ainda por aí andam.

Mas é certo, prefiro, e muito, um gajo exilado há vinte anos, que borregou forte e feio quando era mais ou menos puto, do que um filho da puta que acha que tem qualquer coisa a ver (mesmo que muito ínfima) com um "lado" qualquer onde se agrupam estes miseráveis (sejam eles anti-castelhanos ou anti-americanos ou o raio que os parta). E que por isso se crispa e torce em momentos como este.

*******

Ah, para eles é que se deveria citar aquela do Brecht (não, não é um liberal pró-americano), a célebre "primeiro vieram buscar o.., depois ...etc e tal , hoje vieram-me buscar a mim" - use-se, que eles gostam muito de a atirar à cara alheia, invectivando-nos de alienados, passivos.

*******

hoje não devia ter vindo aos blogs, vá lá que a Inês se levantou e me obriga a ir para a cama, chega de resmungar...mas hei-de subir as escadas a repetir “não falo com etarras” e ela “cala-te, vem dormir”. E, entenda-se, deixei hoje de falar com quem vota neles. Os miúdos da família que se fodam...

Publicado por JPT em 08:06 PM | Comentários (2) | TrackBack

Sobre os postais de Santos Rufino

Olhando o postal de Santos Rufino abaixo apresentado e face à minha ameaça de ir enchendo este blog com essa colecção o leitor amigo António Botelho de Melo enviou-me mensagem que, de imediato, transformei em participação.


Para quem, como eu, não possui os albuns nem a colecção de postais, limitando-me a usar o temível scanner para os poder apresentar, não posso de gemer de inveja pelas posses apregoadas.


Aqui segue:


A história dos postais do Rufino é bem interessante. O trabalho foi feito por uma equipa de alemães duma firma fotográfica creio que de Hamburgo, que estiveram em Moçambique em 1927 e que fotografaram a então colónia para um trabalho que consistia em postais e uma colecção de 10 álbuns fotográficos, sendo os quatro primeiros da cidade e distrito de Lourenço Marques. A qualidade das fotografias - tudo produzido na Alemanha de Weimar - é inegável e o seu valor histórico evidente. Muitas delas são panorâmicas e de uma beleza sem par. Os postais foram feitos a partir desse trabalho. Eu tenho (em Lisboa, para variar) duas colecções dos 10 álbuns, pois tive uma quando tinha 12 anos de idade e perdi com a debandada daqui à medida que a Frelimo assegurava que iria instalar uma ditadura comunista. Anos mais tarde, através de antiquários, fui recompondo a colecção. Como sou teimoso, acabei com duas.


O Santos Rufino era uma figura de LM e tinha uma loja de artigos de papelaria. Acho que há um prédio algures com o nome dele. A produção de postais foi de tal ordem que, quando visitei Maputo em Dezembro de 1984, dez anos depois da independência e residente nos Estados Unidos, e aqui reinava a maior miséria da era do "repolho e carapau", consegui encontrar centenas dos postais numa alfaiataria dum velhote monhé na parte velha da baixa, que mos vendeu todos a dez meticais cada - para ele uma fortuna, para mim quase nada. Depois disso, vivia eu nos EUA, passei anos a enviar postais do Rufino a toda a gente que eu conhecia...a partir de Boston. Ainda tenho alguns lá por casa.

Mais importante que isso tudo, é o facto de a Lourenço Marques dos anos 20 e 30 do século passado ter sido uma cidade inacreditável de seu próprio direito, com uma cultura própria, luso-sul-africana, um ambiente de trabalho e convívio que não se via em mais parte alguma, com o maior número de "kiosks" por km2, cinemas, a sua própria casa de ópera - o Teatro Varietá - e uma arquitectura sem rival. Ainda tive a sorte de crescer e ver alguma dessa arquitectura ao vivo, mas que foi sendo adulterada à medida que crescia a pressão com o desenvolvimento que precedeu o 25 de Abril em 1974. Os álbuns do Santos Rufino retratam essa cidade no seu auge de entre-guerras.

As fotografias também são boa fonte para uma análise do aparecimento do urbanismo em Moçambique, já que a população negra, com hábitos, tradições e culturas completamente distintas, residia quase a 100 por cento no mato. As cidades eram um fenómeno estritamente colonial, muito localizado, completamente distinto da realidade rural. Só mais tarde, com o Salazar e o seu Acto Colonial de 1932 (ou 3) e legislação associada - aliás estritamente uma "copy-paste" da legislação francesa da altura - é que vieram com aquelas ideias do branco de primeira e de segunda, do assimilado e o não assimilado, etc, o que teve impacto na urbanização e em quem podia ou não viver nas zonas urbanas.

Um abraço do

António Manuel Silva Botelho de Mello

Publicado por JPT em 07:43 AM | Comentários (3) | TrackBack

março 10, 2004

Democratas

Repugna-me o discurso "contra os políticos", o ignaro "são todos iguais". Em todos os lados se encontra gente inteligente e ininteligente e, o que é diferente e mais importante, gente decente e indecente.

Ser democrata é ser pela democracia representativa. E daí que é ser pelos partidos, mesmo que sendo de nenhum partido. E o vice-versa, ser pelos partidos é ser pela democracia.

Entenda-se. Ser pelos partidos, ser pela democracia, é também ser contra o seu grande, dantesco e verdadeiro inimigo: a partidocracia, a dominante ideologia suicidária dos tempos que aí correm.


Faço este giro político pois nele se poderá depreender que hoje é dia para prestar homenagem a um político que a merece. E que, decerto tem os seus inimigos hoje reforçados, e por estúrdios motivos.


Portanto, e daqui de Maputo, vénia ao decente e democrata Rui Rio.

Publicado por JPT em 08:18 AM | Comentários (2) | TrackBack

março 09, 2004

Inhambane

inhambanecaisacostavel.jpg


Da colecção de postais de Santos Rufino, editados em 1928.

Presumindo ser do agrado alheio aqui serão colocados de quando em vez alguns dos exemplares desta longa e bela colecção.

Publicado por JPT em 01:46 PM | Comentários (1) | TrackBack

Roupa Velha 11

MENSAGEM

Há alguns anos decidiu o Estado agraciar-me com uma comenda em reconhecimento pelo exercício das elevadas funções de que estive incumbido por estas paragens. Também a iniciativa privada nacional aqui instalada considerou assinalar tamanha actividade, tendo-me então obsequiado com um magnífico exemplar da Mensagem pessoana, polissémica obra para quem vasculha a alma lusa e respectivos Impérios e desencantos, neste caso acoplada aos sonhos do grande Pomar, Júlio este, sete vistas da referida lusitanidade.

Reconhecido e respeitoso nem o livro assinei, evitando macular tal artística iniciativa, assim julgando-me bibliófilo. Apressei-me a depositar a obra na nossa estante Altamira, brilho de qualquer sala pequeno-burguesa, e na qual vamos, como se negligentemente, oferecendo às visitas as reluzentes lombadas acumuladas, ali a intervalarem o nosso altar de antepassados, fotograficamente convocados para defesa da paz e sucessos deste lar.

Há pouco, decerto por razões climáticas, assomou-me o fastio e lá retirei o citado livro para um lento e distraído desfolhar no descanso da varanda sobre o Índico, após o qual lhe dei um indevido abandono, impróprio ao pintor e não menos ao poeta.

Nisto precipitou-se a Gata Joana, personagem moçambicana dominadora desta casa, porventura farta de lusófonas construções ou de heteronómicas mitologias, e, no fervor do seu mui frequente cio, decidiu urinar o belo exemplar, talvez reclamando a sua propriedade, quiçá reclamando-se Ofélia.

Agora, e enquanto o livro seca no sol da varanda, questiono-me. Que fazer à comenda?

Setembro 2001


[sai com um abraço ao blogocompanheiro BotaAcima]

Publicado por JPT em 01:29 PM | Comentários (0) | TrackBack

Ainda a Lusofonia

Hoje mesmo um artigo de cristalina clarividência de Tomás Vieira Mário, publicado no jornal Notícias. Mais uma vez se desmonta a lusofonia. Que se mantém recorrente no discurso português, por defeito de cultura e, acima de tudo, de inteligência.

Hei-de voltar ao assunto. Tal como já o aflorei em textos hoje já no arquivo.
Mas para quem queira perceber um pouco do Portugal de hoje em África leia sff, ainda que algo longo.

Ah, o Primeiro-Ministro Durão Barroso visita Moçambique este mês. O quão bom seria que alguém lesse e compreendesse coisas destas. E que à ignomínia e imbecilidade dos nossos socialistas em África se sucedesse alguma decência e inteligência. A ver vamos...

QUE AGRICULTURA LUSÓFONA É ESTA?
Tomás Vieira Mário
Notícias, 9 Março 2004

Ele há-de sempre haver coisas nesta lengalenga de lusofonias que só fazem sentido em contextos do absurdo!

Estava eu ainda a comentar com um amigo, na tarde de domingo passado, sobre o anúncio de uma exposição, que suponho fotográfica, a ser organizada pela RDP-África, em Lisboa e que, nos anúncios desta estação emissora, se denomina “Imagens Lusófonas”! E eu me perguntava: mas ... de que raio de imagens estariam eles a falar?! Porque, pela explicação e entendimento oferecidos pela RDP-África, e dada a “missão” desta mesma estação radiofónica (comunicar para – e não necessariamente “com” – as comunidades africanas dentro e fora de Portugal), tratar-se-ia de uma exposição de fotografia de autores alegadamente falantes da Língua Portuguesa. Mas ... sendo que nestes se incluem angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos, santomenses e timorenses, porque haveriam todos de ser considerados lusófonos?

E afinal, ainda estava o pior por vir: nas edições de segunda-feira de alguns jornais nacionais vem um texto publicitário anunciando uma reunião que se chama “II Jornadas de Agricultura...Lusófona” (!). De novo, a inevitável pergunta: de que agricultura estarão eles a falar? Que agricultura será essa, denominada “lusófona”? Haverá alguém com paciência suficiente para me explicar o significado de uma tal expressão, mesmo admitindo que seja utilizado em sentido figurado? Que figura pretenderia ela representar?

Pela lógica das coisas, sou induzido a pensar que eles pretendem, nestas jornadas, falar das possibilidades de investimento luso no sector agrícola em Moçambique, já que diz o subtítulo “Moçambique – terra de oportunidades”. Mas e então porque não dizer logo “Jornadas sobre o investimento português no sector agrícola de Moçambique”?

É que, de contrário, a agricultura moçambicana longe ser “lusófona”, seria “bantófona” (...) já que ela é dominada por camponeses moçambicanos locais, na sua quase totalidade, analfabetos da Língua Portuguesa!

A lusofonia – vozes mais autorizadas já o disseram inúmeras vezes, e com maior veemência – corresponde a um quadro socio-linguístico dos portugueses (lusos), do mesmo modo que nós, moçambicanos, pertencemos a um quadro socio-linguístico bantu. Por “camonianos” que pudéssemos ser!

É que, tratando-se, como se pretende fazer depreender de iniciativas conjuntas Portugal-Moçambique, porqu erazão é que vai, sempre, prevalecer a lusofonia como denominação de referência? Por falarmos, como se vem repetindo, a mesma língua? Já o havia dito, repetidas vezes, o saudoso Prof. Aquino de Bragança: da mesma forma que com a língua comum nos podemos entender facilmente, também com ela nos podemos facilmente insultar!

(...) De tal forma que a evocação da Lusofonia aparece, quase que exclusivamente, para denominar estratégias portuguesas de afirmação no exterior, sob o manto da “língua comum”, nomeadamente com as suas ex-colónias africanas.

Mas parece simplesmente ridículo, arbitrário e destituído de qualquer sentido (político, histórico, cultural, etc) atribuir denominações do género “Agricultura Lusófona”, para encobrir formatos de estratégias empresariais portuguesas para África! Ainda seria de considerar qualquer coisa como “Agricultura Luso-Moçambicana”, etc.

Daí a pouco vamos também ter, em Moçambique, jornadas de “Educação Lusófona”, ou de “Conservação de hipopótamos e búfalos lusófonos”.

(...) Afinal, porque razão é que ao invés de uma Comunidade de Países Lusófonos, os Estados falantes do português acordaram em criar uma “Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”?

Publicado por JPT em 05:13 AM | Comentários (3) | TrackBack

março 08, 2004

Bebes

Presumo que sejam meus compatriotas. Engarrafam e vendem vinho em Maputo. Chamam-lhe, e acho isso uma maravilha de marketing, BOMBARRIL.


Presumo que sejam, eles ou o vinho, do Bombarral. Ou espero que o sejam. Ali fronteiro ao velho Cartaxo.


Acho este vinho Bombarril uma delícia.


Nunca o bebi. Queiram os deuses que nunca tal me aconteça. Mas, repito, acho uma delícia.

Publicado por JPT em 07:32 PM | Comentários (2) | TrackBack

Comes

[Decido-me a partilhar informações verdadeiramente fulcrais.]


A pastelaria Polana permite a aquisição de uma tarte de caju absolutamente excepcional. No mesmo local transaccionam-se bolos de chocolate que os verdadeiros apreciadores consideram dignos de apresentação.


Para uma refeição fora de casa o melhor local em Maputo é INDISCUTIVELMENTE o restaurante Kamujoma (bairro Sommerschield, ao Prédio do Partido). Comida zambeziana digna de todos os encómios - mas apenas serve por encomenda, para "take-away" ou para grupos.


Esta última afirmação é dogma.


Este pendor gastronómico (que muito se valorizaria com a contribuição alheia) foi impelido por uma manga épica saboreado ao jantar de hoje, adquirida aos vendedores de rua postos junto ao Talho Polana - os quais não costumam vender gato por lebre.

Publicado por JPT em 07:31 PM | Comentários (1) | TrackBack

Em África (com Knopfli)

Aqui deixo um seu poema que tanto uso, inspiração e alerta:


As Origens

Feita de lavras

em pousio e esperança adiada

pertencemos todos a esta áfrica lusitana

que pelas outras se expandiria. Por estas

andámos perdidos, ignorando então

que a passagem obrigava ao regresso.


(Rui Knopfli, O Monhé das Cobras)

Publicado por JPT em 07:05 PM | Comentários (0) | TrackBack

Professores

À conversa com amigo, professor, vai-me ele questionando
- Ainda não percebi porque é que quando me encontro com bancários de bancos deficitários, médicos de hospitais-morgue, vendedores (directores, claro está) de empresas meio-arrombadas, diplomatas de países em desuso, funcionários de estados ineptos, todos eles me perguntam, amáveis e interessados, “Então, estás só a dar aulas?”

Publicado por JPT em 06:43 PM | Comentários (0) | TrackBack

Futuro

Será?:


A nossa esperança imprudente parava o tempo, num optimismo amável que triunfava sobre as fragilidades do mosaico díspar dos eslavos do sul
(Álvaro Guerra, Crónicas Jugoslavas, 34)

e já agora...


o ódio é uma viva contradição - não conhecendo fronteiras, ergue-as onde quer que chegue” (o mesmo, 33)

Publicado por JPT em 03:47 PM | Comentários (0) | TrackBack

março 07, 2004

Acontecimentos de Nampula

Pelo mundo ecoa o sangue de Nampula. As primeiras denúncias de raptos e de cadáveres desorganizados foram por cá menosprezadas como alarmistas. Não só pelas autoridades mas também pela comunicação social, e nestas incluindo alguns teclados usualmente atentos e críticos.


Não me arrogo de clarividente. Também achei tudo meros exageros, habituados que estamos a boatos espantosos provenientes dos distritos. Quando os rumores recaíram sobre um casal de brancos (zimbabweno e escandinava, julgo) recém-chegados à região ainda menos os julguei credíveis.


Não por os considerar oriundos de racismo. Mas porque estas suspeições sobre estrangeiros são padrão, vistos eles como agentes de práticas diabólicas. Digo-o por experiência própria, já antes alvo de suspeitas de vampirismo e de envenenador de poços, esta última durante epidemias de cólera. No campo estas visões do agressor externo recaem sobre os brancos mas também sobre negros, se forasteiros de aparência urbana, e, tradicionalmente, sobre os profissionais de saúde.


[Sobre estes assuntos há até alguns textos: o sociólogo Carlos Serra publicou há pouco um livro “Cólera e Catarse” sobre as acusações de produção de cólera na província de Nampula. A americana Merle Bowen publicou um artigo sobre as crenças vampíricas na Zambézia e eu próprio aflorei o assunto num pequeno texto há tempos apresentado]


Mas há poucas semanas almoçou cá em casa um padre muito veterano da província, aqui de passagem. Alarmado com a situação. Bastou para mudasse eu de opinião, tão fidedigna era a fonte.


Não se tenha dúvidas. Algo de terrível acontece em Nampula. Muito provavelmente ligado a redes internacionais de pedofilia, o regresso da escravatura.


E também ligado, em paralelo ou em cruzamento, com assassínios para utilização em práticas feiticistas. Que julgo recorrentes. E que por vezes chegam ao conhecimento público: há alguns anos ficou célebre uma decapitação em Maputo seguida da prisão de um mwalimu, que aparentemente teria encomendado a cabeça. Mas também nestes casos há muitos rumores, como as histórias de raptos para a África do Sul, dita grande consumidora de objectos humanos. [Rumores cujo credibilidade não deixa de ser prejudicada pelo facto dos seus ecos se restringirem ao jornal “Fim de Semana”, simpático pasquim maputense ainda que de mui reduzida fiabilidade]


Mas é preciso discernir. O que se passa neste momento não é tráfico de orgãos. Não há em Nampula possibilidades tecnológicas para o realizar. Os cadáveres surgidos terão quanto muito o destino da tecnologia feiticista.


Julgo aliás ter sido esse factor que impediu uma mais breve consciencialização. Quem apregoou o tráfico de orgãos incorreu num discurso tão irreal que implicou a desconfiança do público, ainda para mais neste contexto de rumores habituais.


PS. Aprecio o blogueiro HR, até mais "em":http://substrato.blog-city.do que "no":http://bazongadakilumba.blog-city.com/, e já aqui o disse. Talentoso, atento, cáustico. E dos poucos portugueses nestas andanças que olha para África. Foi muito certeiro sobre este assunto. Mas escrever


"Antes de mais, é nossa obrigação esclarecer que em Moçambique não
há tráfico de órgãos. O país não tem condições sequer (de isolamento
térmico, de higiene, técnológicas, etc.) para suturar uma pequena
ferida a direito, quanto mais para extrair um fígado, ou um rim para
futuro transplante
"


entra em manifesto exagero. Surge a reproduzir estereótipos que lembram a selva conradiana. Exagero que arrisca reduzir algo de importante: tem ele toda a razão no diagnóstico que fez sobre este caso. Excepto quanto ao sistema de saúde. Decerto que deficitário mas não ironizável, nunca ironizável.

Publicado por JPT em 01:08 PM | Comentários (1) | TrackBack

março 06, 2004

Macaneta

Domingo de Macaneta, calor mesmo sério mas a sombra das árvores disponível o suficiente, que tão poucos usaram hoje o batelão para a vir concorrer. Torrar um pouco e ainda mais na água, um aqui raro mar chão que reforça o caldo salgado a disfrutar.


Depois o habitual almoço, para mim a garoupa ainda nova, espreguiçados de costas para o mar num bem defronte da foz do Inkomati, o rio ainda curvo e numa modorra toda brilhante, e aquela calmaria à sombra a entranhar-se e assim a desmanchar-nos as atenções, uma quase sesta de delícias.


Na cabana ao lado uma meia dúzia de patrícios e suas senhoras, cinquentões avançados eles não tanto elas, em meandros de avantajada patuscada. Gente do por cá, caras conhecidas, aquelas dos breves acenos quando cruzamos. Mas são tantos os seus comes que nem lhes resta tempo para irromper naquele nosso silêncio.


Súbito um deles desperta, mas em tom nada desiludido, num vibrante “Não há dúvida, os melhores frangos são os da Guia ...os melhores frangos do mundo”, repete-se no enfatizar, e ainda que logo de todos receba uma muda anuência insiste em que "não há nada como os frangos do Teodósio, o Teodósio do Rei dos Frangos", uma intimidade que o prova por lá assíduo, e até voraz pois culmina a anunciar que “chego a comer dois frangos”.


Surpreendo-me a sorrir, tanto frango até me despertou a sonolência, que raio de ideia, ali bem no Inkomati, ainda résteas de mangal, e o homem a resmungar a Guia. Mas é à Inês que não lhe escapa enquanto ri baixinho um “esta é de blog...”. É, mas afinal sem qualquer malícia, eram-lhe as saudades. Ali no Inkomati as saudades da churrascaria do teodósio...

Bolas, devem ser mesmo bons os tais frangos. Só podem mesmo ser.

Publicado por JPT em 09:42 AM | Comentários (0) | TrackBack

março 04, 2004

Por águas diplomáticas

Sobre este assunto deixei passar uns dias, até de propósito à espera de reacções - irónicas que fossem -, mas também pelo corropio que o final das férias académicas me causou.


Há cerca de duas semanas despediu-se de Moçambique o embaixador chinês. A ter cumprido o natural período que as missões diplomáticas demoram Sexa. Embaixador terá acompanhado (e quiçá impulsionado) o muito saudável e visível incremento da presença chinesa neste país, ao nível empresarial e também de cooperação - é voz corrente que a APD chinesa é absolutamente ligada, ou seja os seus projectos implicam associação a empresas chinesas. Não sei se é absoluta esta afirmação, não acompanho a matéria, mas o tangível (e audível) afigura-o.


Mas não é isso que me leva a este escrevinhanço. Apenas a despedida do senhor embaixador. Pois por essa ocasião deu Sexa uma entrevista ao jornal Notícias, na qual se debruçou sobre a vida machambeira.


Aí referiu serem as mulheres moçambicanas as obreiras de todo o trabalho agrícola, enquanto que os seus pares homens se limitam a pequenos trabalhos iniciais (o desmatar), e pouco ou nada mais fazem, preguiçando e bebendo no restante tempo. E dizia ainda, no rescaldo da sua missão, que se por cá os homens trabalhassem como as mulheres o país se desenvolveria a contento.


Nem me atrevo a questionar da justeza das conhecimentos agrícolas de Sexa Embaixador, ainda que talvez um pouco urbanos. Mas quando amigos se aprestaram a narrar-me estas espantosas (e até pouco diplomáticas) afirmações, o esconjuro da preguiça moçambicana, não pude deixar de me interrogar: e se tivesse sido o embaixador de um outro país a sair-se com esta? O sueco, o argelino, o brasileiro (e já nem digo o português)?

Não cairia o Pott e a Fortaleza???

Publicado por JPT em 01:23 PM | Comentários (0) | TrackBack

O Senhor Pine Ataca de Novo

O amigo Pine, exilado na apertada faixa entre estremadura e alentejo, enviou esta missiva. Após partilhar estas ma-schamba para exorcisar o luso estado surge, até poético, apelando ao por aqui...e transpirando essas saudades

Ocorre-me, ò das musas, que a vida não é um sonho. E apesar de tudo o importante é que se vá colimando. Daí que nada de desilusões...nem de ilusões.

Grande abraço, e aqui segue transcrição

Caro Ele,

Que alegria reler a Macaneta, recordar o Inkomati, regressar à Ma-schamba. Que alegria recordar os amigos de lá longe, de onde saímos com saudade . Que bom é saber que a Ma-schamba ainda tem uma Macaneta onde chegamos, comemos, torramos e banhamos.

Um destes dias em que o sonho esteve comigo, sonhei com a Ma-schamba, com a imensa Ma-schamba de Pemba à Ponta do Ouro, com todas as Macanetas, Inhambanes, Quissicos, Ilha de Moçambique, tudo o que de bom vivi, sonhei que a estava a viver com a minha Ela, que ainda não conhece essa imensa Ma-schamba e que já a respira um pouco como eu.

Mas sonhei mais, sonhei com uma Ma-schamba em que uma mulher chamada Luísa fazia a diferença, porque a governava, com claças, como alguns dizem, mas também com paixão e com saber, sonhei que essa Luísa estava a fazer a diferença e que as ruas da Ma-schamba, todas as ruas dessa imensa Ma-schamba, estavam diferentes, mais bonitas, mais floridas, mais arranjadas, com mais pessoas, com menos crianças abandonadas à sua sorte. Sonhei que essa imensa Ma-schamba renascia, com amor e muita justiça, que essa imensa Ma-schamba não pedia ajuda, oferecia trabalho, crescia por si só, mostrava a alma de uma nação.

Sonhei que essa mulher de calças, que essa Luísa, fazia uma nova Ma-schamba, mais igual, mais rica, mais solidária, mais diferenciada. Sonhei que na capital da Ma-schamba existiam árvores que floresciam porque a Ma-schamba estava bem tratada e não porque a natureza assim o ordenava. Sonhei que na capital da Ma-schamba, como em cada uma das cidades e cidadezinhas da Ma-schamba, a minha Ela me dizia "que bonito, que povo sorridente, que povo bonito" e que eu lhe respondia que tinha sido uma Luísa, de calças, mas também de saia, porque uma Ma-schamba precisa de calças, mas precisa muito de umas saias que a tornem mais bonita e mais solidária.

Sonhei. E no dia seguinte acordei com a tristeza de ver que não são as calças que fazem uma Ma-schamba, que essa Ma-schamba talvez tenha calças a mais e conteúdo a menos. Estou longe da Ma-schamba e por isso não sei se ouvi boatos ou se ouvi verdades, mas sei que, inflizmente, uma vez mais a culpa vai morrer sozinha, como morreram algumas crianças, como morreu uma freira. E são estes boatos ou verdades que fazem com que a Ma-schamba não seja a do meu sonho, que fazem com que as árvores floresçam só porque a natureza manda e não porque a Ma-schamba está mais bonita e mais solidária.

Um abraço, ainda não completamente desiludido do Pine.

Publicado por JPT em 01:19 PM | Comentários (0) | TrackBack

Votação musical

O colectivo Periscópio-Quatro num arroubo de nacionalismo apela à votação na eleição pela BBC do "Artista do Ano de Música Clássica, pois por lá pontifica um candidato português.

Torço-me um pouco a estes nacionalismos. E não conheço a maioria dos músicos concorrentes. Mas estou obrigado a ecoar esta chamada de atenção. Pois estou certo que o meu irmão, se ainda por cá, gostaria de saber o seu filho tão eleito.


Então, e por ti mano velho, clico e bebo um trago diante da tua baía.

Publicado por JPT em 09:18 AM | Comentários (0) | TrackBack

Roupa Velha 10

O APITO


Vocês conhecem o Vicente Pereira? Está em Maputo há uns anos, veio como delegado da A.J. Costa Construções e depois passou para administrador da Construtora Mafrense e nessa altura, já com melhores condições, lá conseguiu convencer a mulher, a Piedade, a vir juntar-se-lhe acompanhada das duas filhas. Vivem aqui na Polana, ali à Rua da Argélia, numa vivenda geminada com um bonito jardim, aquele com a mafurreira na esquina, lindissima. É uma bela casa, aliás isso era condição para a mulher vir, que lá em Pero Pinheiro a família não está nada mal instalada, no género deles é certo. O Pereira é um tipo decente, certo que algo casca grossa quando bebe o seu copo a mais, tem boa fama na empresa apesar de ser do género insulto seguido da palmada nas costas, mas sabem-no um gajo justo, nunca ninguém disse que roubasse, e o trabalho vai sendo feito a contento. A apontar-lhe só mesmo o ser exaltado, um sanguíneo com o coração na boca, espero que não se venha a prejudicar por isso, este mundo não está nem para fraquezas nem para franquezas.


Conheci-o há uns tempos, num desses almoços de domingo em que por aqui se juntam os casais e desde então encontramo-nos para beber um copo ou visito-o quanto estou sozinho, e é melhor assim pois a Piedade fica mais à vontade no tu que partilho com o marido, ela finge que não mas faz cerimónia com a Inês, atrapalha-a a doutora. Gosto de lhes frequentar a casa, conversa simples em mesa farta, a rapaziada das construtoras tem sempre os nossos vinhos, o pior ainda são as bagaceiras lá da terra que se têm de beber senão é uma ofensa. É um bom ambiente, solto, uma família simpática que gosta de receber, mas não qualquer um, pois são gente arguta, aliás a mulher ainda o é mais, acho eu. As miúdas estão bem educadas e dão cor à casa, rondam os quinze anos e já devem andar por aí a partir uns corações. Não há dúvida, o Pereira é um tipo de família, vê-se no seu orgulho com os rebentos e no carinho bigodudo com que trata todo aquele harém. Terá a sua gaja de quando em vez mas isso não o distrai dos seus.


Na sexta-feira passada apanhou-me solteiro, a Inês tinha ido ao Chokwe nas cooperações, e muita questão fez em que eu fosse jantar lá a casa, um bacalhau trazido de Malelane, insistência à qual não me fiz rogado. Como convidados esperava o Vitorino, também sozinho pois a mulher está em Lisboa, o pai mal de saúde, e ainda o Abreu, sempre só ao jantar, este deixou a família em Lourosa e é por cá mouro de trabalho e de putas. Chegámos todos antes do dono da casa, o que não nos atrapalhou pois ali estamos todos à vontade, a Piedade lá serviu o meu gin e as cervejas deles, e encetou a sua conversa de mãe, desfilando os progressos do filho mais velho que ficou em Lisboa entregue aos avós e ao Técnico e o rosário de preocupações com os crimes que vão acontecendo na cidade, que a assustam mais por causa das suas raparigas, agora numa idade em que as não consegue reter em casa, aliás nessa mesma noite tinham ido para uma festa em casa de uma amiga, a filha dos Borges, os quais confesso que não conheço, ele é mais um desses bancários ao que parece.


Nós a sossegá-la nos elogios aos filhos e lá chegou o Pereira, a desculpar-se, mas eram as complicações de última hora, nem tempo havia para um banho, ainda insistimos que o fosse tomar, ninguém estava com pressas, mas nem pensar nisso, "lavo antes a alma com um whiskizito e pronto". E bem precisada de alguns afagos lhe estava ela, via-se nesse cansaço de sexta-feira feito exaustão em quem trabalha aos sábados, pois os prazos das construtoras não estão para grandes repousos. Era óbvio, não estava nos dias dele, logo começou por protestar a ausência das filhas, em surdina defendida pela mãe, e não tardou a despejar os problemas, esta nova lei de obras públicas que ensarilhou ainda mais a vida das empresas estrangeiras, mais as complicações no hotel que estão a construir e bem atrasado está, mas isto não acompanhei com detalhe porque estava na sala de jantar com a Piedade que me fica sempre bem fingir que ajudo as donas da casa, e era ainda uma série de material urgentissimo que primeiro se atrasou em Durban e agora nunca mais se conseguia desalfandegar. Aproveitando um breve silêncio ainda tentei mudar a disposição, a puxar a conversa para a bola, mas ali diante de três benfiquistas tão sofredores a conversa não pegou.


Estávamos nisto e ei-lo estancado, a protestar com os vizinhos, que barulheira aquela! Realmente à chegada eu também tinha reparado na algazarra que ia na casa ao lado, mas nem comentei o assunto, poderia parecer indelicado, nunca se sabe. Ora ele é que não se calou, "mas que raio", começou, "o que é que se passa?". A mulher foi-o acalmando, que deixasse, ainda nem nove horas eram, e numa sexta-feira, era só preciso um pouco de paciência. Mas paciência não é o forte do nosso amigo, em especial naquele dia, e aquela também me pareceu questão antiga da casa. Entretanto lá se compôs a coisa, aliás foi aqui a influência do doutor, eu próprio, pus a Dulce Pontes a cantar um bocadito mais alto que o normal, e para escorropichar o aperitivo brindei aos nossos sucessos e à boa converseta à mesa, que os vizinhos já se calariam e tanto os camarões como o vinho verde fresquinho nos esperavam: "vá lá, Vicente, para a mesa, ou queres matar à fome os convidados?", sabendo bem que quando lhe chego ao nome próprio ele se desvanece.


Mas à mesa, e apesar da competência do cozinheiro, logo voltou à baila o assunto vizinhança, o Abreu, imprudente, foi perguntar quem eram. Ao lado vive uma família moçambicana, o tipo é Director Nacional, parece que das estradas ou coisa assim, ninguém tinha confirmado, casado com a D. Felismina, senhora simpática e prestável, afiançou a Piedade. Nem são maus vizinhos, defendia ela temendo alguma tempestade, gente educada, o problema é o barulho que por vezes fazem, as portas que sempre batem, conversas mais noctívagas, a música nas noites de fim de semana, mas nada de muito grave. "E a barulheira nas manhãs de domingo", frisava o Pereira, isso sim grave, as únicas em que ele pode não madrugar. O pior é serem imensos, nem se sabe bem quantos, estas famílias enormes, "coisas desta gente que só um antropólogo é que compreende, não é assim ó doutor?", ainda lhe saíu uma ironia o que na altura até pareceu bom sinal, e nem se percebe como é que lá cabem todos, é o Director, mais os filhos e os seus velhos pais, mais dois ou três irmãos e cunhados e respectivas proles, e as visitas que vão e vêm. Enfim, uma confusão, e ainda por cima não é nada seguro, dificulta o controle, os guardas da casa confundidos com tanto movimento sem saberem quem é quem.


Bem, o Abreu redimiu-se e teve artes de mudar de conversa, umas maledicências de patrícios, histórias mais ou menos picantes sobre um alentejano que por aí apareceu, essas cenas de import-export e quejandas, coisas de matrecos já dizemos nós, como se tivessemos gerações de África, incomodados com os recém-chegados. Mas súbito a gritaria aumentou, percebia-se "ai, ai, pai não nos faças isso", e pedidos parecidos. Acho que a dúvida foi de todos "querem ver que o Director está a dar porrada nas filhas?", "ou na mulher?". E aquilo continuava, "ai que eu morro, ai, ai", e então a Piedade afiançou que era a voz da D. Felismina, a esposa do Director. E surpresa ficou, pois o homem não é desses, pessoa tão calma, afável, nunca ela tinha ouvido tais histórias nas conversas de vizinhas ou de cozinha, mas também "hoje é sexta-feira, dia dos homens, querem ver que o gajo já está bêbado a estas horas?", e o Pereira então não estava a ser ilógico apesar dos desmentidos da mulher. Deu-me para apaziguador, ainda fui dizendo para se esquecer o assunto, a comida não estava nada má, e em breve os vizinhos se calariam até porque se havia discussão em família tão extensa alguém havia de por água na fervura, no que concordou o Vitorino com um "éh pá, eles que são pretos que se entendam".


Acho que foi isso que rebentou o Pereira, "nem pensar nisso, estou farto disto, estes pretos não respeitam nada!". A Piedade, algo enfastiada com o tom, levantou-se para ver como estava o bacalhau "e peço ao Lucas para ir saber o que se passa", e foi o pior, que era o que faltava "estou em minha casa, e agora mando o cozinheiro resolver-me os problemas", e enquanto a mulher foi à cozinha ficou ele para ali a resfolegar, "foda-se que não aguento mais, estes gajos lixam-nos a vida, e nem em casa descanso....não, não vou jantar com esta barulheira, estou em minha casa, vou lá calá-los" e, súbito, arrancou danado em direcção aos vizinhos. A Piedade voltava da cozinha, com o Lucas cozinheiro atrás com o bacalhau entre mãos, ainda o chamou mas só ouviu um ameaçador "tá calada, não te metas nisto que é coisa de homem", e lá foi ele com a mulher no encalço num "ai meu Deus, espera ... que te desgraças" e nós, claro, abandonámos a mesa e seguimo-los, meio hesitantes, cá fora ainda vimos o Pereira, enérgico, a tirar o apito ao guarda enquando voava pela porta aberta dos vizinhos, seguido pela mulher. "Vai fazer merda" murmurou o Vitorino que o conhece bem melhor do que nós, de outras aventuras ainda em Portugal.


E aí corremos também nós, entrámos casa adentro, o guarda atrás, o Lucas também mas já sem o bacalhau, e ali deparámos com o Pereira bem plantado no meio da sala apinhada, dobrado sobre o apito, estridente, afogueado, com tudo o que tinha dentro dele a sair-se pelo silvo, impondo o silêncio alheio, e toda aquela família, ainda maior do que o imaginado, estupefacta a olhar para ele. E após aqueles longos segundos de apito, uma autêntica eternidade, saíu um silêncio compacto sobre a casa, e aí ouvimos a Piedade, ali de costas para nós, já dentro da sala, falando serenamente rodeada de dezenas de olhares petrificados: "D. Felismina, o meu marido está a apitar contra os maus espíritos. Sabe?, na nossa terra quando morre alguém apitamos sempre para os afastar", e aí lá se levantou com custo a dita, mamana mesmo, interrompendo o pranto com "ai, vizinha, muito obrigado, muito obrigado, vizinho", e o Pereira esgotado, hirto no meio da sala, olhando abismado para a Piedade, lívido, silencioso, apito na mão desmaiada, e a recém-viúva "não pare, não pare, continue, por favor, apite", ao que a Piedade, heróica, a sossegou pois "já não é preciso mais, minha amiga, já se apitou o suficiente, eles já partiram", "acha, acha mesmo?", ainda duvidou a boa senhora e a nossa comadre que pronto, "os nossos sentimentos, logo que soubemos viemos com estes amigos só para saudar", e que estávamos todos à disposição para o que fosse necessário, e a mão dela conduzindo as costas do marido para a saída, para onde seguimos acompanhados pela D. Felismina atravessando aquela cortina de gente espantada, e antes que a incredulidade se levantasse já estávamos na rua, no portão, a entrar em casa, e só aí a Piedade conseguiu articular, "vê se te acalmas homem, nem sempre hei-de estar atrás de ti", "mas porque raio é que não me avisaste antes" ainda foi ele resmungar, e nós nada, que não era connosco, "pois estava o Lucas, a acabar de me dizer que o Director morreu esta tarde, e tu a sair que nem o Diabo". Caramba, "foste apitar na sala do defunto"...

Ainda levou um tempo para que eu me lembrasse de fumar um cigarro e depois, sangue-frio do Lucas, passámos ao bacalhau já requentado, comido mas não saboreado ao som do carpir vizinho.

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março 03, 2004

Camarada Crespo: e ainda os Olivais

O meu camarada Crespo, migrante constante e daqueles que nos abrilhanta lá (cá) fora, e que ainda por cima também é olivalense, acaba de regressar a Portugal vindo de longínquas paragens que não destas. E a anunciar-se escreve (também) isto.

"Cá estou de volta à terra...A missão correu bem ... mas
nada que se compare com Africa na saudade.

Gostei de ver que não te esqueceste dos Olivais...Gostei de
te ouvir falar dos sítios e das pessoas. O café Modesto era paragem
obrigatória cá para o careta. Ainda hoje quando vou almoçar a casa
dos meus pais e lá que vou tomar café com o meu Cota. Por vezes
vou com a Sofia. Gosto sempre de me sentar 5 minutos nas
escadinhas a olhar para a praça e a relembrar o tumulto de motas e
janados aos Sábados depois de almoço para rumar ao Rock
Rendevouz. Tanto que custava arranjar os cento e cinquenta paus
da entrada
.


Enfim ler o teu texto fez-me lembrar velhos tempos e um
punhado de desaparecidos, que cedo se afirmaram como
predestinados a foderem-se cedo.

Um dos últimos foi o Pedro R.., rapaz do teu lado (Sul) e que
encontrei em Angola. Numa das ultimas saídas pela Noite Lisboeta
encontrei o C... que me disse que o Pedro R... havia morrido em
Angola."


Tenho saudades tuas pá. E não há dúvida, nestas distâncias todas que fomos arranjando envelhecemos como o caraças. Então bebamos uma ao R..., que ainda me apareceu lá por S. Martinho do Porto, em tempos que lhe eram melhores.


E já agora, regista, não te souberam substituir por cá. E fica-te com Abraços!!

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março 02, 2004

Cahora Bassa

CahoraBassa.jpg


(foto retirada de "A Nossa Energia Abraça Moçambique", HCB, 2000; lamentavelmente sem individualização da autoria de cada fotografia)

Como antes referi em alguns blogs discute-se a Ajuda Pública ao Desenvolvimento portuguesa: "aqui":http://bloguitica.blogspot.com/2004_02_01_bloguitica_archive.html#107782190064132980, "aqui":http://vostrodamus.blogspot.com/2004_02_01_vostrodamus_archive.html#107788365827588231, "aqui":http://bullandbear.blogspot.com/archives/2004_02_01_bullandbear_archive.html#107808188927307645 e "aqui":http://weblog.com.pt/MT/mt-tb.cgi/59661


Aí integrada surgiu a questão de Cahora Bassa, como ilustração de algum deficit de capacidade de realização, mas em termos algo deslocados.


Por um lado, porque Cahora Bassa não pode ser considerada APD (no jargão, cooperação). Pesem embora os continuados esforços dos sucessivos governos portugueses em integrar nessa rubrica os gastos com a manutenção da empresa que gere a barragem, ao invés das considerações internacionais (em especial da OCDE) sobre a matéria - diga-se até do algum mal-estar que essa prática veio a causar.


Por outro lado também a realidade actual da Hidroeléctrica de Cahora-Bassa não corresponde exactamente ao que foi referido (natural, não sendo o cerne das preocupações dos blogoescribas em causa).


Finalmente afigura-se que se aproximam, até que enfim, momentos de transformação bem positiva (para Moçambique e para Portugal) da situação da empresa.


Para retocar alguns pormenores, mesmo que marginais ao cerne da questão "cooperação", aqui me recorro de um recente artigo da autoria do meu amigo António Botelho de Melo, cronista contínuo, algo corrosivo e, até, visita regular destas Ma-Schamba.

CARPE DIEM
Por António Botelho de Melo

(publicado origialmente na revista "QP", nº 32, Dezembro 2003/Janeiro 2004, Maputo)



A história tem destas coisas: a descida do dólar e a subida do rande poderão vir a ser o elemento crucial que vai viabilizar em 2004 uma “velha” aspiração moçambicana: que a Hidroléctrica de Cahora Bassa, empresa de capitais maioritariamente portugueses e que explora o complexo hidroeléctrico na parte moçambicana do rio Zambeze, passe a ser um património sob gestão dos moçambicanos.



Das várias curiosidades esotéricas da experiência colonial portuguesa em África, sempre houve duas que me fascinaram no caso de Moçambique. Uma, foi o genial mas patentemente inexplicável investimento que António de Oliveira Salazar, o emblemático ditador português e principal responsável por mais uma descolonização extemporânea, permitiu que um seu grande amigo, o Engº Trigo de Morais, fizesse nos anos 50 naquilo que nos tempos chamavam o Colonato do Limpopo e que hoje dá pela designação menos imperialista de Chókwé. Conhecia vagamente o complexo pois aquilo nos anos sessenta estava cheio de açorianos e os meus pais, oriundos das ilhas atlânticas onde Gungunhana usufruiu um bucólico exílio, iam lá uma vez por ano ver um casal (apropriadamente, simpático mas analfabruto que bastasse)que plantava tudo e mais alguma coisa. As visitas eram valentíssimas secas, eu ficava o dia inteiro na barragem a ver os jacarés, e voltávamos para casa com sacos enormes de feijões, favas e pão doce que depois levava penosos meses de uma dieta a martelo para acabarem. Há coisa de dois anos, para oferecer ao Luis Trigo de Morais, um seu descendente, comprei num alfarrabista em Lisboa um livro publicado nos anos sessenta, o qual relata toda a saga do Engº Trigo de Morais, que foi de facto uma grande personalidade. Creio que está sepultado perto da barragem.



O outro foi Cahora Bassa, a grande barragem, central hidroeléctrica e um gigantesco lago atrás, construído em Tete em plena guerra de libertação, com toda a pompa do regime (até havia uma marca de cigarros com o seu nome) e cujo único cliente de renome era, e é, até hoje, a África do Sul – ou melhor, a Eskom. Azar para o governo português (o de hoje herdou os activos e alguns passivos do regime anterior), ficou dono de 82 por cento da empresa, mudou o “Cabora” para “Cahora” no papel de carta (“acabou o trabalho”, na língua da região)e procedeu a cumular dois mil e tal milhões de dólares em dívidas, pois, com as vicissitudes depois de 1975, a economia parou e aquilo só gerava muita despesa e nenhuma receita.


Bom para vender, como diria o escritor Eça de Queiroz. Mas, por razões óbvias, durante décadas ninguém quis comprar e o governo português ficou a segurar o saco.


Devido à dívida acumulada, e bem feitas as contas, contabilisticamente a HCB (sigla que hoje descreve a empresa, que figura no topo das empresas a operar em Moçambique) se calhar valerá pouco mais que nada – mas logo se verá quando os accionistas portugueses receberem a avaliação que encomendaram à UBS.

Entretanto mudaram-se os tempos, mas não os equívocos. As sucessivas administrações foram gerindo o processo enquanto possível. Mas na base a estrutura do negócio permanece a típica de um elefante branco da era colonial que simplesmente não se logrou resolver.

Até agora, quero dizer. Vejamos os principais interessados. Moçambique creio que teve uma posição consistente de querer desempenhar um papel mais preponderante na gestão dado ser aquele um dos grandes recursos nacionais e onde portanto os moçambicanos deveriam ter mais dizer. Estando em paz e na senda de um desenvolvimento que se crê profícuo nas próximas décadas e com necessidades significativas de água e energia (recursos estratégicos no século XXI), crêm-se criadas as condições para uma rentabilização e gestão alternativa credíveis deste recurso que é o complexo em Tete.

A África do Sul, que está a entrar na fase do após o pós apartheid, e também com a sua quota de “passado colonial”, e que quer energia boa e barata, tem posto a sua pressão (tem dado todos os indícios disso, incluindo o pagamento dos famosos 3 cêntimos de rande por quilowat, o que dá para rir) e incluiu o misterioso aparecimento recente, na imprensa sul-africana, de alguns curiosos artigos, o mais politicamente correctos possível, a chamar todos os nomes possíveis aos portugueses e a exortar os tugas a resolverem o assunto. Touché.

Em Portugal a HCB, que estava perdida algures no meio da burocracia governamental como um investimento do Estado, pouco mais serviu que para acumular dívidas, arranjar alguns empregos porreiros (exceptuo alguns magníficos técnicos que ajudaram a fazer aquele um grande empreendimento a qualquer titulo) e envenenar as relações com Moçambique e, em parte, com os sul-africanos.

De boas intenções está cheio o inferno. E de facto perdura no ar há muito tempo um sentimento que, aparte do restante investimento português cá, esta é uma festa para que não foram extactamente convidados. Mas, no mundo real, as soluções resultam quase sempre de consensos sobre como melhor resolver os problemas. E agora é a altura:

a) Moçambique finalmente, e claramente, reúne todas as condições para assumir um papel mais preponderante que reflicta o interesse nacional; o sector da água e energia já é, e pode vir a ser mais, o motor do arranque da criação de riqueza e empregos no futuro, num contexto regional;
b) a África do Sul está numa posição única do ponto de vista financeiro: tem a necessidade, tem a moeda quase mais forte do mundo em termos cambiais, e capacidade de endividamento mais que suficiente para entrar em qualquer negócio a um bom preço e, correctamente, olhar para Moçambique como o vizinho que pode e deve vir a ser um parceiro estratégico;
c) Portugal está com a corda na garganta como nunca esteve, fiscal e financeiramente, e, se só por isso, deveria estar mais predisposto a negociar uma alienação de algum do seu capital social na HCB a um preço amigável. Adicionalmente, creio que a resolução do dossier HCB seria um contributo positivo para algum desanuviamento e um relacionamento menos atribulado com Moçambique;
d) As taxas de juro internacionais estão a níveis historicamente nunca vistos e há imenso dinheiro por aí à procura de bons investimentos. A HCB, que nunca foi um bom investimento para Portugal, poderá vir a ser um bom investimento e nessa base, deveria atrair capital e investidores.
e) uma actualização das taxas cobradas pela electricidade para preços de mercado geraria as receitas que sustentariam de forma mais que adequada a compra de 32.01% das acções pelos moçambicanos (resultando nos mágicos 50.01% de capital, ou controlo do empreendimento) e ainda a liquidação de boa parte dos 2300 milhões de dólares da dívida que o governo português - bem ou mal - acumulou desde 1974.

Havendo bom senso e uma visão histórica e empresarial das partes envolvidas, creio que há neste momento o contexto e as condições para estruturar um negócio que a todos convenha.

Esta é a altura. Portanto, como diziam os velhos romanos. carpe diem.



António Manuel Silva Botelho de Mello

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Roupa Velha 9

NAS SAUDADES, UM BOCADO DE OLIVAIS


Em memória do Zé Monteiro, Senhor e Iconoclasta


O primeiro tipo que vi a xutar foi o J. Keke, para aí há uns 20 anos, estávamos todos na gruta do Venâncio. O Keke apareceu a pedir para dar lá o caldo e entrámos todos, a pensar que se ia fumar um charro. Ele não gostou, e eu também não que seringas nunca foi comigo, mas ainda precisou de ajuda para o garrote, hesitámos, ficámo-nos e foi a Nuxa que os teve para se chegar à frente. O Keke era da geração mais velha, junkie de sapato italiano, bem penteado, andar balançante e inchado, olho arqueado, tipo bonitão piroso. Depois a vida foi-lhe piorando, baldou-se para o estrangeiro constava que em curas, e um dia morreu em Itália de um tiro na cabeça. É certo que muitos anos depois, eu já trintão no café do Pinto, e ele entra-me, igual a sempre, todo atilado a pedir uma bica. E lá ficou, sorte dele. Outros morreram assim, também ao Persio lho aconteceu lá pelas vindimas estrangeiras, último refúgio de uns quantos, e estou eu a almoçar numa tasca com o coronel e o gajo a entrar a dizer que não está nada morto, e se pode almoçar connosco. Mas não estava lá muito bem, e afinal sempre se morreu passados uns tempos. E o Zombie, verdadeira série B, um tipo altíssimo e magrérrimo, todo baço do cinzento que era, assim alcunhado porque quando morreu de Od decidiu-se a acordar na morgue onde, contavam, causou um grande impressão, e até susto, do feio que era.



Nos xutos perdeu-se muita gente, alguns resistiram anos a fio e depois limparam-se, até era engraçado nas imperiais da esplanada e eles, sumol de ananás, limpinhos, a contarem das dores das curas. Outros foram morrendo, de amigos amigos assim só perdi o Zé M. que está aí na epígrafe, um Senhor que me faz saudades, Átila da retórica a erva não nascia sob as suas palavras. Outros perdi de outra maneira, estão vivos mas o seu desatino separou-nos, que se aprende a não ter paciência para os agarrados, alapam-se mesmo, só tantos anos depois percebi que quais matacanhas, que é bicho que nem conhecia à altura.


Quem cresceu nos Olivais sabe bem o que era a mistura de gentes, que era o que tinha a piada, foi o que retirámos do Salazar, que foi quem inventou o bairro, uma sopa de classes queria ele, a ver se melhorava o tempero, o dele claro está. Já aos 9 anos se saía da carrinha do Valsassina para a pedrada com os ciganos e havia quem logo fizesse alianças de classe com o Chica e o Pimenta, que penso perdurarem até hoje, caso seja necessário. Quando chegados a crescidos isso dá-nos um grande treino na vida, apesar das surpresas! E aprendemos que as drogas são como o futebol e a caça, os índios vêm de todas os estratos.


Lá pelos finais do liceu, quando tocou a rebate por causa das médias, havia imensa gente junta, nem se sabia bem como, que aquilo éramos aos magotes, saímos de todos os recantos. E também havia muito produto, as mercearias não faltavam, lá no Gordo, nos Candeeiros, no Brisa, nos Viveiros, no Ferrador. As mais pesadas diziam que era no Cambodja e no Modesto mas aí só ia quem conhecia e os tinha no sítio. E já nem falo do Comboio Parado e do Vietname, ambos na Cidade da Beira, mas a estas últimas nunca me cheguei, que essa era zona nada segura para nós, nunca percebi bem porquê, falta dos contactos certos, penso eu mas só hoje.


Da geração mais velha alguns já andavam aflitos com a heroína, o cavalo como dizia a xunga dos dealers. O ácido é que era coisa de filme, sabia-se que existia mas não era usual, e o que aparecia era só estricnina. Mais tarde fomos ao Burroughs e afins saber como aquilo funcionava. Fomos mesmo uma geração pós-acido e pré-pastilhas, essas que lá para os 90s puseram Lisboa aos pulos de madrugada com músicas que me tornaram avô, que aquilo era só barulho, e ainda para mais usada por gentes que só bebiam água, que desperdício de noites.


No início dos 80s foi a era dos drunfos, o ácido dos pobres. Noites quentes pelos cafés com dezenas de tipos meio aos gritos meio aos grunhidos, um bazar de comprimidos onde o rei era o Espanhol, um celta sem dentes, histriónico. Aí o pessoal graduava-se, o máximo era quem arranjava as panteras cor-de-rosa, o grande somio, coisa de tráfico, mas os mais bimbos ficavam-se nas farmácias das mãezinhas, as cujas iam esquecendo os maridos ausentes ou arredios à pala dos roips ou mandraxs, uma porra porque davam ganza mas tornavam-nos amnésicos. E era assim, erravam grupos anestesiados, nada para lembrar no dia seguinte, excepto pelo sóbrio que ia para tomar conta, quando o havia disponível. Acho que isso decaíu quando o Chico dos Drunfos se deixou morrer atropelado em plena Av. de Roma. No meio disto tudo usavam-se speeds, mais legítimos porque até vendidos nas farmácias. Os mais velhos falavam, saudosos, do lipoperdur, uma verdadeira lenda ainda hoje lembrada com frémitos, que lhes tinha permitido terminar o liceu no meio da festa. Mas tinha sido retirado do mercado, fascistas, pelo que rapaziada estudava e curtia à base de comprimidos para emagrecer, uma cena um bocado envergonhada, sem grande onda, e que cobrava o acelerar com ressacas chatas que não havia modo de enganar, era só estar acordado até passarem.


Mas o que reinava era o haxe, era a base moral daquilo tudo. Barato era, mas raro havia dinheiro para comprar as barras de gramas, pelo que ele nos chegava aos pintores, o vulgo de então para cem escudos cujas notas já nem existem. Era coisa de consumo constante, logo de manhãzinha um assobio lá em baixo na rua, às vezes ainda na cama era o aviso para sair a correr, o apelo à vaquinha que aquilo era coisa para fazer de preferência em grupo, se bem que a prática da marroquina, a bem democrática passa única inchada até rebentar, nunca fosse cumprida, para desespero de quem ficava para o fim, ali a remoer-se com as cinzas alheias. É certo que o brunhol era quase sempre muito misturado, em especial com aquelas cenas do shampoo, mas ia dando para não nos ficarmos atravessados. Pela diferença ficou célebre uma carga que deu à Costa, largada por qualquer traficante em apuros e prontamente recuperada ao circuito, tão bom era que anos depois ainda se dizia que o produto em causa “é da costa”, como selo da qualidade.


Já bem rara era a erva, coisa de retornado, mítica mesmo, uns tipos mais estranhos esses gajos de África, quase todos ali pela Portela, vá lá que faziam imensas festas, curtiam um bocado diferente do que nós, que nos chegávamos a eles e a elas, sempre na cola. Mas quando ela aparecia era altura de festa, levada aos sacos de plástico até de supermercado para os grandes momentos, esses quase sempre lá pelo velho Dramático em cascais. Ou mesmo quando o Woodstock fez dez anos, a malta à meia-noite no cinema e gajos que até as mantas traziam, e vá lá que ninguém se despia na sala.


Com isto tudo também na nossa geração o pó se foi espalhando. Mas já havia várias versões, diferentes andamentos. Quem começava nas chinesas, a fumá-lo, levava logo na cabeça, que aquilo agarrava, que da chinesa ao xuto era um sopro, e eles a dizerem que não, que se aguentavam, mas todos sabíamos que depois era difícil sair. Certo que o Lou Reed já não xutava, que o Richards e o gémeo mudavam de sangue de seis em seis meses, dizia a Rock & Folk, mas aqueles heróis todos, especialmente os da guitarra fálica tinham-se passado. E até os mais velhos, Bird e Coltrane. Era só arrogância, “Ya, eu controlo”, mas se tanto o Hendrix como o vizinho do lado tinham marchado… e se havia gajos em muito mau estado ali à mão de semear! Neles era muito um puxar do cabelo para trás, um que se foda que o rock n’roll veio para ficar, rust never sleeps…Mas é certo que ninguém chegou lá distraído, sem o pessoal a encher-lhe a cabeça. Mesmo enquanto se enrolava um charro, que o tempo dos cachimbos da prata daqueles SG todos tinha passado à história, houve conferências sobre a matéria, posto que aquilo não era saudável. Até porque a imortalidade tinha sido questionada de modo radical, o próprio Marley se tinha ido pelo pulmão, de tanto cantar pela Kaya.


Falando de mim, do que me lembro não é só do ter a minha vida para viver, futuro saudável e feliz, e trá-lá-lá. Mas também da onda má do pó cortado, cheio de venenos misturados que nem sempre eram só Royal de Morango, do medo dos badagaios que davam aos junkies, de tantas histórias más de ods ouvidas contar, até da rapaziada conhecida. E lembro-me muito bem de não ser maluco para arriscar uma cena dessas, e comigo estava muito boa gente. Depois um dia lá fui para doutor, quis-me intelectual, levei um ano que nem a Bola comprava, aquela que ainda era a do tempo bom, o do Pai Pinhão, não era como é agora, e foi um tempo em que era só ciência, um mimo, nem hoje sei o que me deu. E com isto deixei de fumar aquelas merdas todas, que me punham lúcido, a perceber os estrilhos todos que a vida é. Como era coisa honesta, decente e culta, bebia quando tinha que ser, e tinha que ser muitas vezes, que a angústia continuava. Acho que continuou até me encher de amor pela Inês, e isso ainda levou uns anos.


Mas o festival continuou, aliás está aí. Agora, se volto ao bairro ainda encontro personagens dos velhos tempos, uma verdadeira arqueologia. Alguns regressaram, cerâmicas frágeis a colarem-se os cacos. Outros nem tanto. Partilham-se as mesas, algumas bebidas e, se afloradas as memórias, o saber de que sabiam de início. É certo que a dor só se sabe depois de sentida, mas sabiam que ia doer. Talvez não tanto. Mas quem foi, foi…


Envelheço, mas quando chego a um sítio estranho continuo a perceber a onda reinante. E em Lisboa, que hoje me é estranha, entram-me pelos olhos dentro as linhas de coca nos narizes alheios. Mas isso são mais os tipos da minha idade, o kitch do cartão de crédito, a cagança enrugada de quem não quer ser velho, nem que seja à força. Mas nem sei bem que drogas os putos consomem, essas sintéticas, nem os nomes lhes conheço. E se ainda há aquilo a que nós chamávamos, tontos, de contra-cultura. Acho que mesmo só o Rui Monteiro, sempre firme de Blitz em riste, nos poderá dizer. E se houver, seja lá o que isso for, se funciona à base de produto como nos tempos dos Freak Brothers.

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março 01, 2004

Onde está o comandante?

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Loja em Maputo. Fevereiro 2004.

[Fotografia de Fernando Macedo]

Este apontamento é especialmente dedicado ao Paulo Gentil. A enrolar um abraço na discordância.

Publicado por JPT em 07:38 AM | Comentários (0) | TrackBack

Aldino Muianga

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Muianga é um nome não muito conhecido por cá. E nada exportado. Escrita serena, pausada, dizem-na condigna à personalidade do autor - que não conheço. Sem grandes riscos, também.

Pequenas histórias, muito realistas. Sem heroísmos ou sofrimentos de maíscula, ausentes as grandes causas ou cosmologias que tudo explicam. E vá-se o fatalismo, dá-nos essa pequena gente no seu andar, coisas da terra em dia-a-dia. Com dores, e muitas, claro está. Mas também com os sorrisos a perpassarem aquilo que nos diz. Moçambique.


Acabo agora, já atrasado, "O domador de burros". Que anda junto a "Magustana" e a "A noiva de Kebera". Livros onde o autor é mais Muianga. Para quem lê para conhecer e sentir um pouco vá até eles. Justificam muito mais do que a atenção que lhe tem sido dada no conjunto da literatura moçambicana.

Ah. Os especialistas que lhe façam a crítica à escrita. Mas garanto: é muito melhor do que as infaustas capas que sempre a recobrem. Que coisa!

Publicado por JPT em 06:09 AM | Comentários (0) | TrackBack

A modos que proverbial

Quem tem heranças tem temperanças.

Publicado por JPT em 03:14 AM | Comentários (0) | TrackBack

Aforismo

Que chova, quando e quanto seja bem-vindo

Publicado por JPT em 02:06 AM | Comentários (0) | TrackBack

Lema

O nosso lema (absoluto), aprendido com o Martim, amigo errante

"O que é que me interessa quanto é que pesa a prima...!!??"

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A Schamba

Sobre a terra trabalha, e como ninguém, o senhor "Carvalho".


“...a lances de catana e de machado desfaz a rama e a trama dos espaços virgens. Prepara um espaço para a nova lavra, esgotado o humus de uma lavra antiga. Alarga a circunferência de chão raso. Devolve o sol à terra e dá-lhe a mansa forma de um corpo fecundável e passivo. O tronco nu progride mata a dentro. Governa os braços firmes e velozes, confere exactidão ao gesto azado. E os fustes, gemem, fendidos pelo golpe. Martela, vigoroso, a rijeza maior de alguns dos paus, depois transforma em lenha as copas derrubadas...”

E assim continua por páginas várias, possuidor que é de incontáveis artes e engenhos, decerto porque de pactos com os seus diabos.

("Como se o Mundo Não Tivesse Leste", Cotovia, 117 )

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