fevereiro 27, 2004

Efeméride

O horroroso Benfica faz cem anos, o século! Trejeito meu. Encolher de ombros.
E olho para o meu antes: que sensaboria teria sido sem esse Benfica. Então, e afinal, parabéns.

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A Paixão segundo Mel Gibson

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Na Paixão de Mel Gibson a Monica Belucci protagoniza.

E como se pode polemizar quando a Belucci está?

Quando tal acontece haverá algo mais sob o firmamento?

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Bota de Bronze

botaAcima.bmp


O "BotaAcima":http://botaacima.blogs.sapo.pt/ medalhou o Ma-Schamba. E logo com a Bota de Bronze.

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fevereiro 23, 2004

Portugal de longe

A meio da tarde interrompi o trabalho para falar um pouco com patrícia acabada de chegar de Portugal. Ao "então como está aquilo?" segue-se uma escatologia que apenas não é uma saraivada de palavrões porque estou defronte a uma senhora. E como a conheço, nada dos coitadismos tão habituais, fico impressionado.


Grosso modo é o que me dizem nos últimos tempos todos os nossos compatriotas que aí vão - e acho que o vou transparecendo neste blog. E também a minha impressão quando aí passo, ainda que a correr.


Não é nada de "estrangeirado", a olhar de cima como se de paróquia aí se tratasse e nós cosmopolitas (em Maputo?). É mesmo estranheza. Estranheza sentida por pessoas diferentes, esquerda ou direita, norte ou sul, profissões diferentes. Mas não é estranheza com a política e o "sistema" (está na moda, o meu presidente recuperou o termo). É mesmo com os nossos patrícios - hoje o termo usado foi "alienados", noutras conversas chamam-se-lhe outras coisas (ainda há quem tenha passado pelo Marx, mas nem todos). Alienação produzido por alguém, auto-alienação, vejam como quiserem. Mas que estranha gente a nossa. Ou somos nós, "emigras" que não (os) percebemos...?


Pobres não, que já nem se lembram de como era há 15 ou 20 anos. Mas então o quê? E a todos nós nos aterroriza o horizonte de regresso. Por causa da companhia que teremos, não por mais nada.

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fevereiro 22, 2004

Eduardo White

Eduardo White, O Homem a Sombra e a Flor & algumas cartas do interior, Imprensa Universitária


Eduardo White, aí metido nos seus vinte anos de vida literária, lançou um novo livro, colectânea de textos alguns já por aí ouvidos. Ou lidos. Alguns merecem mesmo ser relidos, hei-de citar um bocadito só para aguçar.


O lançamento foi na sexta-feira, lá na Fortaleza de Maputo. Foi também de sua homenagem, Ungulani fê-lo. E ele próprio afirmou-se "o poeta incómodo".


Contou com o Presidente da República, vários ministros, o edil máximo da cidade, e muito do poder. Vinte anos são vinte anos.

Assim rápido, e porque nesta cidade tão racialista cito:


"Podem dizer-me ou insultar-me a cor que visto e, no
entanto, eu amo-a, desde a origem mistura com que me pensou e
talhou até a estas inacabadas sempre cores múltiplas com as quais
vou estando aqui. Sou um arco íris por vocação e não me cinjo
nem à ardósia e nem ao giz, e são minhas as geografias dos
lugares que desconheço mas que pelas veias respiro
"

(na Carta a alguns menos esclarecidos sobre o meu pardo mestiço
Eduardo White
)

Publicado por JPT em 08:59 AM | Comentários (0) | TrackBack

Eleições americanas

A minha irritação de estimação é a constitucionalmente inexistente figura da "primeira dama"- um dia hei-de desabafar sobre o assunto.

Mas aqui não é disso que trato. Apanho em Maputo os jornalistas que andam a traçar o passado de infância da candidata a mulher de presidente dos EUA. Aqui nascida, estudante em Durban e JHB, nos idos de 50-60. Quem quiser saber a versão americana poderá ir espreitando no Baltimore Sun. "Há-de sair" um destes dias.

Para saber a versão portuguesa terá que esperar que o marido da senhora seja eleito.

Enfim, curioso, a ver como eles agarram num passado algo retocado de quasi-freedom fighter, com laivos de anacronismo.

Publicado por JPT em 07:40 AM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 20, 2004

Gilberto Gil

Há alguns meses Gilberto Gil esteve aqui com o presidente Lula. Esteve, totalmente informal, no Café com Letras onde Naguib e Stewart Sukuma organizaram uma bela noite para ele (e para nós todos).

Nessa noite Eduardo White leu um extraordinário poema escrito para ali, nada encomiástico. E orgulhou! Nessa noite Cabaço, Salimo, Stewart, Chitzondzo (?, olhem, não estou certo) e outros cantaram um pouco, ali para mostrar. Nós todos gostámos. No fim Gilberto Gil cantou umas quatro músicas, e aqueceu. E todos nós gostámos. Depois prometeu que viria cá "com mais tempo" em Março. Cantar mais.

Não mais se ouviu falar disso. Está-se à espera. Se vier talvez chegue mais triste ou "desencantado":http://thelisbongiraffe.typepad.com/diario_de_lisboa/2004/02/momento_brasil__5.html dessas coisas de ministro. Não terá razões para tal.

Pois não há nada de novo neste mundo.

"Same old scene" era uma música romântica quando eu era novo.

Publicado por JPT em 07:37 AM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 19, 2004

Roupa Velha (Cerzida) 8: Homossexuais e Adopção 2

1. Conceder o direito à adopção aos homossexuais? E à reprodução assistida? Uma questão de cidadania. E que confronta o nosso modelo de família como núcleo legítimo de reprodução. Modelo cujas características, direitos e deveres estão codificados juridicamente e/ou expressos na ética, com mais ou menos fluidez.


Crente na igualdade de direitos de cidadania como recusar esses direitos? A ética democrática impele à simpatia por este novo capítulo da nossa organização familiar.


Subjacente a esta aceitação está a noção de uma inferioridade ética do actual modelo de família conjugal. Porque é ele deficitário quanto à igualdade dos cidadãos face à lei, distinguindo-os e discriminando-os segundo as suas práticas afectivas e sexuais.


Aliada a estas posições defende-se também uma educação sexual não orientada, não "heterossexista" de molde a evitar a continuidade de preconceitos, ao valorizar determinadas práticas em detrimento de outras, estas assim "demonizadas" bem como os hipotéticos núcleos reprodutivos que as assumem.


2. Outras sociedades organizam de modo diferente a sua família e reprodução. Isso demonstra que o nosso modelo vigente de família é específico, "um caso particular do possível"e não deve ser visto como absoluto, sagrado, inamovível.
Mas, e pela mesma razão, também não é puro atavismo, portanto desprovido de validade. Pois se o seu carácter contextual permite questiná-lo e, desse modo, modificá-lo, essa mesma historicidade di-lo produto de opções históricas, contingentes mas também significativas, estratégicas.


Sem grande rigor vejo-o como fruto e dominante de um contexto "euro-cristão", do qual será mesmo um dos traços comuns fundamentais. E nele se poderá dizer central a figura da unidade conjugal, com três propriedades básicas e indissociáveis: o casal é heterossexual, monogâmico e não-incestuoso.


3. Na comparação com outros modelos conhecidos de família e de reprodução é universal a condição heterossexual. Mas isso não é obstáculo à proposta em causa. Porque não inovar, não é a história uma mescla de constâncias e inovações?


As novas tecnologias de reprodução talvez tornem obsoleta a exigência heterossexual. A extensão dos direitos de adopção também. Mas não será esse um corolário tecnocrático, subordinando a discussão sobre o valor social "família" à técnica (tecnologia de reprodução e tecnologia jurídica) tal como se tudo o que é possível seja bom?


Ora, aqui como sempre, é aconselhável que as potencialidades da tecnologia se subordinem a uma hierarquia de valores colectivamente assumida.


De qualquer forma o proposto abandono do carácter heterossexual do modelo de família legítimo, entendendo este como contigência histórica e deficit ético, permite inquirir sobre as suas outras dimensões centrais, as proibições do incesto e da poligamia.


4. A monogamia, consagrada na lei e veículada por poderosos mecanismos de produção de valores (p.ex o ideal amoroso romântico ou o da união única indissolúvel), é também característica particular de alguns sistemas históricos e, portanto, questionável na sua necessidade e/ou superioridade.


Não há dúvida que a codificação jurídica da monogamia reprime a liberdade das práticas sociais polígamas. E também essa produção de valores monogâmicos modelam (abusivamente?) as práticas individuais, confinando-as à correcção moral monogâmica.


Não haverá aqui o mesmo deficit ético? Assumindo iguais princípios de igualdade de cidadania e dignidade das práticas sociais, como não fazer a crítica (política) da monogamia prescritiva? Como ser solidário com as reclamações dos homossexuais e esquecer os que desejariam assumir com todos os direitos a condição polígama, nas suas múltiplas formas?


5. É universal a prescrição do incesto. Mas também os conteúdos legais e morais que lhe estão associados são diversos, social e historicamente. Assim as proibições à conjugalidade entre parentes são também contextuais, e portanto questionáveis. E nunca naturais/necessárias.


É certo que sobre esta matéria é constante o recurso à (mítica) questão dos perigos da consanguinidade. Mas ela nem deve ser debatida no terreno do biológico, pois a questão é sobre um modelo de relações socialmente legítimas entre seres racionais, donde cognoscentes. Mas também porque aqui também se trata do direito à adopção, algo não-biológico. E ainda pelo recurso à reprodução assistida e a toda a parafernália de controle de possíveis deficiências fetais.


Nesta linha de pensamento, como não reconhecer o mesmo deficit ético desta dimensão do modelo familiar (a proibição do incesto), repressor de práticas sexuais e afectivas? E como não exigir o final da produção de valores que a-sexuam as relações entre determinados parentes e que demonizam aqueles que os transgridem?


Ou seja, como ser solidário com as reclamações dos homossexuais sem que haja uma crítica (política) da repressão à cidadania daqueles que torneam (ou o desejariam) esta específica codificação do incesto?


6. Analisando o modelo de família vigente não parece que haja qualquer privilégio ético das reclamações expressas na causa homossexual sobre hipotéticas reclamações polígamas ou incestuosas, por ora mudas face à extrarordinária perseguição social e jurídica que as suas práticas convocam, e ao complexo (culpabilizado?) dos seus agentes.


Talvez que os defensores da causa homossexual afirmem serem estes diferentes fenómenos, alguns até negativizando as outras práticas. Mas assim não estarão apenas a reproduzir preconceitos? Poderão afirmar que não têm obrigação de defender outros excluídos da reprodução social legítima. Um egoísmo identitário, apenas surpreendente porque sediado em movimento de uma esquerda libertária que se afirma solidária. E também porque sendo hoje os homossexuais (e suas causas) menos ostracizados moralmente que os incestuosos e juridicamente que os polígamos, poderiam expressar de modo coerente (no comparativismo relativista) e solidário o cerne da sua reivindicação: a mudança do modelo vigente de familia reprodutiva.


Talvez que esse restringir do questionamento procure não assustar a sociedade com propostas que, aos olhos de hoje, seriam escatológicas. Estratégia política, e talvez certeira. Mas indigna na sua vertente libertária. E incoerente na ausência de uma verdadeira reflexão sobre o assunto, eximindo-se à aplicação de uma crítica relativista alargada aos valores e questões sociais, ou seja restringindo-a ao que seja benéfico para causas políticas próprias.


7. Questionar este importante modelo social não deve assentar na força conjuntural de um movimento socio-político mas sim numa avaliação fundamentada do carácter contingente desse modelo. Para isso que se utilize a mesma metodologia analítica para todos os seus vectores.


Mas não deverá esta proposta ser acompanhada de uma reflexão sobre o modelo de família a propôr, entre as suas plurais possibilidades (que práticas sociais reprimir? que limites impôr? e, crucial, com que fundamentos?), no fundo que modelo de futuro se propõe face às radicais transformações que se defendem (ou se implicam)? Não é isso a acção política?


Não é de práticas individuais (tão múltiplas) que aqui se trata, mas sim de opções sobre normas constitutivas de modelos sociais, sobre valores organizativos da vida em comum. E essas opções sempre implicam o privilegiar de determinados valores e práticas sobre outros, sempre cerceando comportamentos e aspirações individuais. Ou seja são opções que constituem normas de cuja ontologia deriva necessariamente o seu carácter repressivo e exclusivo.


Normas contingentes essas que se devem subordinar a uma crítica dos seus fundamentos. Mas a sua subsistência, necessária para a continuidade social, implica uma adesão que não é apenas racional, que remete para a história dos valores que as suportam e enquadram, assim cimentando as sociedades.


Assim, e sem a frescura da novidade e o encanto do libertário, voto na actual família monogâmica, não-incestuosa e heterossexual, como enquadramento valorativo da sociedade. Sem aplicar ao limite a crítica aos meus valores, talvez ficando no seio de pre-conceitos a que aderi, homem do meu mundo. Mas como não? E aqui decerto a par dos adeptos da homoparentalidade, eles excluindo incestuosos e/ou polígamos (porque sexualmente incorrectos?), eu apenas crente que esta família tem vindo a ordenar satisfatoriamente o correr da sociedade. Apesar de tudo...


No fim todos aderimos a alguns valores. Sem razão, talvez. Mas com razões e emoções. E que nestas assentam os direitos da maioria viver segundo os valores pelos quais opta. Mais que não seja...


Finalmente, ouçamos, com o menor preconceito possível, os mestres do pensar sobre nós próprios:


"Sócrates: Não és da opinião de Homero para quem a idade mais encantadora é a do despontar da barba, precisamente a idade de Alcibíades?"


(Platão, Protágoras)


"Sócrates: "Diz lá se tens alguma coisa contra aquelas leis de entre nós que regulam os casamentos. Achas que elas são más?" Não tenho nada contra elas, responderei. "E contra as que presidem à criação da criança e à sua educação, educação que recebeste como qualquer outro?" (...) Elas tinham razão, direi eu"

(Platão, Críton)

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Homossexuais e Adopção 1

O presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção portuguesa, Luís Villas-Boas considera "o carinho transmitido por homossexuais ... um carinho falso. Não é carinho organizado, estruturante - gostam deles próprios através da criança".

Concorde-se ou não com o direito dos homossexuais à adopção, este tipo de afirmação é complicado e grave. Villas-Boas faz uma imputação de intenções "um carinho falso...gostam deles próprios através da criança". Das práticas sexuais dos indivíduos retira-lhes uma inferioridade. Sentimental (porque incapazes de carinho) e/ou ética (porque puros egoístas). É uma afirmação discriminatória? É-o. Mas de discriminações está o mundo cheio. Neste caso o que me choca fundamentalmente é o seu cúmulo, a sua justificação, a tal imputação de intenções egoísticas aos indivíduos homossexuais. Baseado em que argumentos? Em que realidade?

Criticável no cidadão? Sim, apesar de me irritar o "politicamente correcto". Mas inadmissível em quem ocupa um lugar de nomeação na administração pública. E aí estou com os tempos que correm. Rua...


E rua até porque imbecil. Pois desloca a discussão para factores individuais. Quando esta é uma discussão sobre a organização social, sobre a família, o modelo familiar. Que não pode debater-se no plano individual, mas sim no domínio dos modelos colectivos. Que modelos colectivos desejamos. Porque comportamentos individuais (carinho ou não, amor ou não, egoísmo ou não, etcs e não etcs) não os podemos deduzir, tamanha a sua multiplicidade: entre as pessoas e intra-pessoas.


E esta questão também não pode ser legitimada, como o querem em sentido contrário, só pelo facto de existir. "Dizer":http://jornal.publico.pt/2004/02/19/Sociedade/S16.html que "no presente já existem dezenas de crianças criadas por casais homossexuais, a situação já existe" não implica a sua aceitação. Uma modalidade de organização não é legítima e desejável apenas porque é real. Isto é uma afirmação tão redutora como as acima abordadas. E tão imbecil.


Ao leitor que ainda aqui está esclareço. Sou contra o direito dos homossexuais adoptarem. Ainda que confesse alguma oscilação interna. Então e se os pais das crianças forem homossexuais? Retirar-lhas? Eu não...era o que faltava. Que ideia mais absurda.


Mais uma vez. Esta é uma discussão sobre modelos colectivos de organização, sobre opções realizadas e/ou a realizar colectivamente. Não é uma discussão sobre as qualidades e defeitos do senhor a, da senhora b.


É um pouco como o aborto [que aqui surge porque também estruturante das modalidades de reprodução]. Sou radicalmente contra (excepto nos tais casos, de violação, de más-formações, de perigo para a mãe). E não me venham com o "direito ao meu corpo" porque se é assim então não me venham depois pedir dos meus impostos para a operaçãozinha ou para os medicamentos (e já nem falo do subsídio de funeral, aí será um caso de saúde pública). Pois então, e já que o corpo é seu, desenrasque-se...[pareço ultra-liberal? Não sou. Medicina pública, sff]


Um dia, há anos, uma jovem familiar minha, já adulta, engravidou. Lá fui ter com ela, a fazer de voz avisada. Primeira pergunta minha: "então porque raio engravidaste?". Segunda pergunta: "precisas de dinheiro para abortar?".

Dogmas? Isso são puras caganças. Opiniões? Claro. Carregadas dos meus conceitos. E dos meus preconceitos.


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Sonhos

Terra de bilingues. Terra de multilingues. Aos que enfrento, em cima desse estrado invisível que insistem em sublinhar, inquiro-lhes qual a sua primeira, aquela em que são mesmo. E quando ali oscilam, agarrados ao português de status, nem hesito no "em que língua é V. sonha"? para tantas vezes ver o "áfinal!" entre-sorrisos semicerrados "sonho em ...". Que os torna mais ricos.

Hoje, em dia de efeméride pessoal, muito me lembro disto. Associando-o a um "Atlas", o de Borges:


"O meu corpo físico pode estar em Lucerna, no Colorado
ou no Cairo, mas ao acordar cada manhã, ao retomar o
hábito de ser Borges, emerjo invariavelmente de um sonho
que acontece em Buenos Aires.....Nunca sonho com o presente
mas sim com uma Buenos Aires passada e com as galerias
e clarabóias da Biblioteca Nacional na Rua do México. Quererá
isto dizer que, para lá da minha vontade e da minha consciência
sou irreparavelmente, incompreensivelmente portenho
?"


E noto, meu Deus, há quanto tempo que não sonho com Lisboa, em Lisboa.

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Sete Anos

É hoje, sete anos em Moçambique!

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African Diary

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Um pequeno livro de Bill Bryson, narrando a sua visita aos projectos da CARE no Quénia. Uma delícia, polvilhado de um humor inteligente, forma de falar de coisas sérias (e tristes) sem afugentar a esperança.


E os lucros destinam-se aos projectos.

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fevereiro 17, 2004

Ricardo Rangel

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Desde anteontem que Ricardo Rangel é octogenário. E quão bem ele em tal se tornou. Aqui antepassado e sempre mestre da fotografia. E também amante, divulgador e organizador do jazz em Moçambique, nunca esquecer. E a embrulhar um rumo que lhe tem sido cheio e belo vem a sua muito especial fineza e aquele humor irónico que tanto tem de implacável como de gentil. Face a ele um misto de encanto e de inveja, é o que sempre me ocorre.

Para além de tudo isso ainda a memória de ter sido ele um daqueles que inventaram a moçambicanidade, ali em remoínhos de jovem com outros poetas, Noémia de Sousa, José Craveirinha, similitudes tantas que ainda chamam quem as sublinhe. Como tão bem o fez o José Luís Cabaço, durante a bonita, jazzy e porreira festa de domingo na AMF, a lembrar que nas fotos de Rangel se tinha transformado de laurentino em moçambicano.

As fotografias, a indignação, a ironia. E assim uma incessante e inteligente luta, ainda hoje. E sempre bela.


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Depois, e sem surpresa, noto que quando lhe vejo as fotos é o meu povo aquele que ele transporta.


Repetido abraço de parabéns e mais um beijo à Beatrice.

[Fotos roubadas ao "Iluminando Vidas"]

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Posfácio a contributo...

Ao fim de alguns anos por aqui à rapaziada acabam-se-lhes os contratos, as missões, e tantas delas nem tão bem sucedidas como isso, que isto se foi enchendo de planos e projectos mal-desenhados do optimistas que eram, quiméricos e tudo, e depois as culpas "hão-de ser" de quem para cá veio e não soube fazer o que estava estipulado. E é claro que não vão elas sobrar para administradores ou consultores, que aqui em em breves e ambiciosas deslocações traçaram o como Deveria Ser, num cheios deles próprios a julgarem isso ideias. E por tantas dessas com patrícios a esta terra já me aconteceu chamá-la "Um Cemitério de Quadros", e sei do que falo, que as minhas ossadas também se dispersaram por aí.

Mas outros partem apenas ao dar-lhes as saudades do rincão, ou fazendo contas às carreiras e aos comboios que temem perdidos, ou aos riscos do cardíaco quase fulminante ("mas que se tivesse sido apanhado a tempo...maldita falta de ambulâncias..."). Enfim, por razão ou outra, lá vão andando de volta à santa terrinha, uns até aliviados, outros entristecidos, isso depende de cada coração... - e também da atitude, que ainda há muita gente que cospe na sopa.


Depois os contactos com os amigos que por cá se fizeram e ficaram vão, e naturalmente, espaçando. Mas passados meses lá nos chegam os conselhos, por lá à mesa nos jantares dos (neo)retornados, ou nos emails que hoje escasseiam ou até nos telefonemas de dias de festa ou de bola. E vêm mesmo dos que daqui saíram roídos de zangas ou saudades: "deixem-se ficar, não voltem, isto está impossível, é uma vida desgraçada..." e quejandos etcs.

Por cá sorrimos a essas lamúrias, que julgamos cúmplices. Pois dão-nos elas alento contra as saudades, aquelas sem tréguas como bem se sabe. Mas adivinhamo-las algo aumentadas, pela amizade de quem nos sabe fora a custo e também pelas saudades de uma luz e de um espaçado tempo que por lá não há.

Mas que dizer quando de amigo nada radical, que daqui saíu por cima e que por lá chegou à mesma altura, me chega um desalento destes? Deixar-me ficar, "amais os meus" está claro. E aqui lembrar, caro Pine, que o quarto dos fundos está à disposição. E que sempre há um pouco mais de caril para juntar à xima, enquanto o quiseres.


Abraço, e manda sempre, que são precisos mais braços para a machamba, tão pouco choveu este ano.

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Contributo de Leitor Amigo, que ainda está pior do que eu

Pois pede-me o meu amigo Ele que polua o seu blog com alguma da minha verve. Tarefa difícil para quem já há muito se encontra arredado das lides Moçambicanas e que cada vez menos tem paciência para as "coisinhas" deste jardim à beira mar plantado.



Tenho lido atentamente as notícias, os comentários e o sarcasmo com que Ele nos tem lido, a nós portugueses não expatriados e não imigrantes e, por muito que ser Português seja algo que nasce connosco e connosco morrerá, confesso que por vezes desejaria que o mundo não soubesse que nasci, vivo e morrerei Português.


Vem tudo isto a propósito da desvergonha que comanda a vida Portuguesa, desvergonha essa que, quando lemos que existe em África, nos leva a esboçar um sorriso sarcástico e a comentar "coitados nunca hão-de saír da merda".


Pois é, nós somos um País do 1º Mundo, onde morrem crianças em hospitais por falta de assistência médica, onde se convocam para cirurgias doentes que já morreram há 5/10/15 anos, onde uma ministra "rouba" os descontos para a segurança social dos funcionários públicos, onde um 1º ministro ignora olimpicamente a gravidade das actuações dos seus ministros, onde professores são colocados em escolas com base em "cunhas" ultrapassando outros com melhores classificações, onde presidentes da câmara roubam (sim, sem aspas) descaradamente os municipes e o Estado, onde os estrangeiros são maltratados e explorados, onde ministros se dão ao luxo de dizer que os trabalhadores estrangeiros são um problema e não os deveríamos aceitar, onde o ensino básico cria ignorantes e iletrados, onde as televisões potenciam essa ignorância e essa iletracia, onde o sistema judicial e o segredo de justiça são um remake do pior que nos países mais subdesenvolvidos se faz, onde todos nós andamos alegremente, como uns tontos, a pensar que somos civilizadíssimos.


Comparo tudo isto com a velha Albion do amigo Blair do nosso primeiro-ministro e recordo como há bem pouco tempo o senhor Blair punha a hipótese de se demitir se a sua lei das propinas não fosse aprovada e se o inquérito à morte de 1 cientista cujo nome não me recordo viesse a provar algum tipo de envolvimento entre o Governo de Sua Majestade e o suicídio do cientista, e como na sequência do mesmo inquérito o presidente da BBC e o jornalista se demitiram por terem sido "acusados" de falta de profissionalismo. Que inveja que eu tenho de ver países onde pessoas com carácter ocupam lugares públicos.


Meu caro Ele, força continua e que Ela também lhes dê com alguma força. Um abraço do Pine...

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fevereiro 13, 2004

Versão moderna do "Vinho para o Preto"

Péssimas notícias de Portugal, ecoadas pelo sempre atento Bazonga, onde uma gigantesca cáfila se organizou para falsificar medicamentos e (também) exportar para África produtos falsos e/ou fora-de-prazo. A caravana inclui falsificação tipográfica de embalagens e dos seus rótulos, pelo que os habituais cuidados em confirmar indicações podem de nada servir.

As Ordens, dos médicos, enfermeiros e farmacêuticos, todas com gente metida nisso até às orelhas, já aí estão com os habituais discursos cândidos dos "inquéritos" e "responsabilizações" : que nojo, estas ordens zoófilas!

Outras notícias indicam que receptadores privilegiados seriam as clínicas privadas das capitais africanas. Que nojo, ao pensar em tudo aquilo que se tem consumido cá em casa .

Não há dúvida, é uma versão moderna do velho "vinho para o preto".

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fevereiro 12, 2004

Roupa Velha 7

(...)

Não resisti ao silêncio, retirei-me para casa até à Carolina, que até já estava no meu turno, e fiquei-me de guarda ao bichinho a remoer um whisky, aquecendo-o no tempo. Estúpido, distraí a memória, e deixei-me lembrar uma carolina preta, a filha duns tipos encontrados há anos, andava eu aos dragões. Entrei-lhes pela cabana dentro, de entrevista em punho e lá estava essa carolina preta, meia dúzia de meses pequena e já só o branco dos olhos do revirados que eles estavam, no colo da mãe, e esta defronte de mim sentada na esteira atrás do marido, e a diarreia não largava o bebé, e eu impávido a perguntar-lhes da machamba, e do algodão, e da frelimo, e da renamo, e do bafo do dragão, e o homem de braços cruzados a semirresponder, e eu era vampiro, e não dei dinheiro senão tudo virava irreal, e lá perdia o trabalho. Como a conversa não andava, pudera, avisei que voltaria no dia seguinte, e lá estavam eles à minha espera, eu de novo de entrevista em punho e a carolina preta, com o branco nos olhos do revirados que eles estavam, no colo da mãe, e esta defronte de mim sentada na esteira atrás do marido, e a diarreia não largava o bebé, e eu impávido a perguntar-lhes da machamba, e do algodão, e da frelimo, e da renamo, e do bafo do dragão, e o homem de braços cruzados a semirresponder, e eu era vampiro, e o bebé era óbvio que a morrer-se, e a mãe a agarrar-se a ela não fosse eu querer levar-lha ainda antes da hora, e eu para que tudo não virasse irreal não dei dinheiro, não os levei lá longe à Província ao hospital, e a carolina preta só inerte, os olhos revirados, e os pais apenas ali, e a cria do dragão a não medrar, e eu sem caju, sem lhes comprar caju, sem lhes dar caju...


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fevereiro 11, 2004

Roupa Velha 6

FRAGMENTOS DE LUSOFONIA

On disputa un peu sur la multiplicité des langues, et on convint que, sans l’aventure de la tour de Babel, toute la terre aurait parlé le français (…) car [on] supposait qu’un homme qui n’était pas né en France n’avait pas le sens commun


(Voltaire, L´Ingénu, 1767)

Noite! Finda a semana de chuvadas junto a exaustão do burguês envelhecido, que já se desconforta no mato, ao vazio que me esperaria nas ruas lamacentas da vila. Rôo a galinha do jantar e logo me afundo diante da RTP-África, ali deixada como respeitosa simpatia para comigo. A ela não me nego, pois aos outros sempre parece estranho aquele que recusa um pouco da sua longínqua terra, como se a ela devesse algo e não quisesse que lho recordassem.


Assim acomodado deparo com o inesperado símbolo do Instituto Camões, patrocinando um qualquer programa que aí vem. Apenas alguns segundos, mas anormalmente longos em TV. E quão estranha é a nossa mente, aqui junto ao Malawi e à vista dum antigo patrão de imediato se me associam ideias, mais rápidas do que o dizê-las. Sinto como o mundo muda, como se me mudou, eis-me agora, ainda que por alguma preguiça arredia ao “banho macua”, sujo, enlameado e, para mais, pouco abonado. Também um bocado liberto, é certo, mas não entrei em valorações. Apenas sensações.


Ao mesmo tempo a surpresa do inédito leva-me a um abrupto e mudo resmungo, um “que raio é isto? Só podem ser coisas da lusofonia …!”, logo confirmado nas imagens. Já estou a sorrir quando surge, como não podia deixar de ser, algo chamado “Contos Tradicionais da Lusofonia”, e hoje nem de propósito é um “Conto Tradicional Tsonga”. Iberos de Gaza, presumo eu!


E bem acondicionado se apresenta o dito, ali adaptado por um “poeta laureado”, antigo nome daqueles que depois, e até há pouco, se tornaram em desejados “intelectuais orgânicos”. Títulos aos quais, no entanto, continuo a preferir o de “escravo grego”, o cujo sempre me aparece com a cara do James Mason, sem que eu perceba bem porquê! Ainda para mais porque é imagem nada condizente com a figura incomodada e algo desalinhada que conheci em tempos a este ilustre autor e adaptador. Mas como criticá-lo, eu que já andei a organizar festivais da Francofonia? Puta fina ele, de esquina serei eu próprio.


Adianto-me e venho cá para fora fumar, a noite não será estrelada mas pelo menos não chove, e fico-me a matutar neste lusófono absurdo. Que é um absurdo desejado, procurado, planificado. Não será ele tão evidente que baste narrá-lo para afirmá-lo? Ou será assim tão subtil que outros não o vejam como tal? Enquanto se me acaba o cigarro ocorrem-me fragmentos passados de lusofonia, que deixo correr sem requebros de formas, para não contrapôr a essa hipotética subtileza uma qualquer outra.


Há uns anos foram publicados em Portugal os resultados do censo moçambicano. Logo me telefonou para Maputo uma angustiada jornalista inquirindo a minha opinião sobre o facto de apenas, e sublinhava o apenas, 6% das pessoas afirmarem o português como língua primeira. Fui-lhe dizendo que tal me custava a acreditar, palavras que a sossegaram lá no outro bocal, breve calmaria antecâmara do espanto quando fui continuando, que talvez fossem exagerados os números, porventura alguns teriam reclamado o português como natal sem o terem, como um bem de prestígio social. Timbre alterado, tendendo então para o agudo, murmurou, aflita, a radiofónica voz “Então em que língua falam as pessoas? Em inglês?”. Ah, uma menina que nem nos antigos gregos, ouvindo de soslaio o brabrabra dos bárbaros vizinhos.
Adiante.


Passado um ano, o já referido Camões editou uma revista dedicada à cultura moçambicana, a qual aqui foi lançada com grande pompa, no seio de grande iniciativa e de inúmeras personalidades autorais, uma imperial embaixada de lusófonos inteligentes. Para nela ser incluída encomendou uma entrevista alusiva ao então Ministro da Cultura local, o qual logo aproveitou para reafirmar, com veemência de ministro, a bantofonia do seu país e da(s) cultura(s) que o gera(m) e vive(m). A afirmação, em si mesmo óbvia – analisemos depois em que consiste a bantofonia, s.f.f. – assumiu, no entanto, estatuto de indizível em lusas terras. Decerto que devido a esse atrevimento, e apesar da sacrossanta democracia, volatizou-se a citada entrevista. Censura? No nosso Estado?
Adiante.


Passou-se mais um ano. Como manda a tradição, uma Universidade moçambicana organizou na abertura do seu ano lectivo uma Oração de Sapiência, da qual se encarregou um eminente catedrático brasileiro. Este, aproveitando a sala repleta, lançou-se numa violenta catilinária contra o capitalismo globalo-americano e seu economicista fascismo social, e, satisfeito, terminou sublinhando o seu enorme reconforto pela esperança na resistência moçambicana. Dela estava já seguro pois nessas 24 horas de estadia tinha encontrado em Maputo uma “vigorosa latinidade”. Ninguém se riu.
Adiante.


Mais um ano a correr e eis que me estreei no noroeste do país, este Niassa sempre visto como longínquo, desértico e quase inacessível, coisas da mitologia nacional. Recebido com uma hospitalidade notável, não demorei a cruzar o enorme planalto, um mato verdejante polvilhado de montanhas encimadas por cofiós brumosos, quilómetros de arvoredo e machambas, o verde castanho destas a entranhar-se no azul ameaçador de um céu carregado, um deslumbre único, um mundo a reclamar poetas que o digam. Súbito entra-se na terra batida, em contínua descida, cada vez mais curvilínea e deserta. Breves horas passadas, num cotovelo apertado, íngreme e pedregoso, todo eu estanco à primeira visão do Lago, e ali camuflado por estas montanhas um todo de água a perder de vista, abandonado numa calmaria como se fosse eterna. Ficamos parados, não sou o primeiro que o anfitrião, orgulhoso do belo no seu país, desvirginda de Lago, ele sabe bem o efeito! Depois, bem depois, reparo que lá em baixo há praia, e uma enseada, surpreendida ao fim de todo este caminho, desenhada por uma ligeira península que é vila: Metangula…


Arrancamos com vagares, e para sair do espanto pergunto o que já sei, “ali havia uma base da marinha portuguesa, não é?”, a guerra no paraíso. À óbvia confirmação adianta o meu companheiro que “diz-se por aí que vão instalar lá o centro de treinos dos fuzileiros dos PALOP!”. E eu, mau-feitio, logo a contestar “Nada!, aqui?, não acredito, neste ermo?”, mas ele resiste-me “Não sei, mas olha que se tem falado bastante, deve haver ideias para isso”. Entreolhando-o, ele de cara plácida mas agora algo distante, procuro rematar “Hum, devem ser alguns saudosistas portugueses…”. Com isto estamos já na contracurva e aí, sem qualquer pré-aviso, abandonamo-nos numa enorme gargalhada. A minha, entrecortada, demorou até à vila, e eis que regressa hoje, solitária, debaixo deste céu.
Adiantar mais? Ou consigo fazer-me entender?


Mandimba, 2002

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Devolução

Realce total para a notícia de que a Itália se apresta em devolver o obelisco de Axum à Etiópia.

A questão da devolução de itens cruciais do património cultural é vasta, e de nada serve abordá-la a correr (a meio de uma manhã de trabalho então nem pensar). Mas a pausa do café dá para saudar este caso particular. E lembrar que este não é nada um caso particularmente africano, como o demonstram as reclamações gregas junto ao Reino Unido. Como o lembrou, deliciosamente, V. Graça Moura na carta dirigida ao Ministro (dos Negócios Estrangeiros?) francês no ano passado, a reboque da questão iraquiana, então exigindo a devolução do produto das pilhagens napoleónicas.


Sem dogmatismo esta é questão em que cada caso é um caso. Lembro o impacto que teve na África do Sul, também no ano passado (?), a devolução dos restos mortais da mulher Khoi-San levada para a Europa nos inícios do século XIX como curiosidade científica e circense.


Finalmente, regressar a esta notícia, citando-lhe um aspecto que abala algumas certezas incertas com que vamos olhando para estas questões: "Até aqui os governos italianos tinham recusado todos os pedidos de devolução, garantindo que a Etiópia não estava em condições de assegurar a sua preservação. Mais de 60 anos depois, a realidade vem provar o contrário: o obelisco que ficou em Roma foi atingido por um raio e está muito danificado pela poluição, os dois monólitos que ficaram em Axum encontram-se em perfeito estado de conservação." refere o Público.


Enfim, caso a seguir com interesse. Até pelas implicações de precedente que poderá vir a ter

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fevereiro 10, 2004

(Des)Colonização

A "polemicazita" sobre a descolonização deslocou-se para o mundo blog. No colectivo "Mar Salgado":http://www.marsalgado.blogspot.com/ gerou uma polémica interna, em reacção a um texto algo "irreal":http://marsalgado.blogspot.com/2004_02_08_marsalgado_archive.html#107625602311731381 ali colocado por V. Lobo Xavier, no qual se defende liminarmente o colonialismo português.

Acredito que o teor desse texto esteja vinculado a dois factores: a um reflexo da polémica partidária que lhe é anterior; a um profundo desconhecimento do seu autor sobre o assunto que aborda. E, talvez, a um desejo de cutucar aqui e ali. O texto vale o que vale, as respostas que recebeu em casa própria servem para o ultrapassar. E, provavelmente, VLX terá curiosidade em se informar um pouco melhor sobre a matéria, agora que escreveu sobre ela, agora que se cumprem trinta anos sobre os processos de independência das colónias portuguesas.

Não é portanto sobre esse texto que venho escrever. Mas sim sobre um outro do mesmo "Mar Salgado":http://marsalgado.blogspot.com/2004_02_08_marsalgado_archive.html#107626643270129088, de Nunes Vicente. Uma posição crítica à do seu parceiro, lúcida. Mas onde ainda se retira "O Regime pode ter feito uma colonização menos brutal...", um traço recorrente na leitura do colonialismo português, e quase sempre conjugada com algum luso-tropicalismo, ainda que básico (não neste caso). Ideia baseada em alguns lugares comuns, frágil, preconceituosa.

A leitura da história e a realização da historiografia são actos políticos. Por isso não me pode surpreender que as perspectivas políticas surjam tão arreigadas quando se fala de Portugal em África. Mas o império acabou há já trinta anos, e não há apenas trinta anos. Para quê continuar a falar do colonialismo entricheirados em aparentes campos político-partidários?

O regime colonial era de uma brutalidade terrível. Não apenas pela violência política mas fundamentalmente pela sobrevivência quase até ao seu final de mecanismos violentos de exploração do trabalho local . Sobrevivência que não está ligada a qualquer "maldade" nacional (o que é isso de "maldade"?) mas à própria estrutura económica portuguesa, incapaz de desenvolver mais rapidamente outras formas de incentivos à produtividade.

Está isso narrado, contado, analisado (ainda que não em demasia). Basta ler, olhos abertos e despido de alguns preconceitos serôdios, anacrónicos.

Olhar para isso, saber isso, nada deveria ter a ver com as perspectivas políticas que se defendem para a sociedade de hoje. Saber o passado apenas. Saber mais sobre um Portugal ainda recente. E despirmo-nos dessa ganga de ignorância que de retemperadora nada tem.

Pois senão o coro de discursos sobre o regime colonial e sobre o seu evidente corolário, a descolonização, possibilitarão o reavivar de uma velha ideia tantas vezes apregoada: a de que a esquerda é mais "intelectual", "sábia" do que a direita. Ideia tão preconceituosa, irreal e anacrónica como as acima lamentadas.

Finalmente, e um pouco marginal a isto. Surpreende-me que um partido do governo, que o seu chefe parlamentar, usem a descolonização e a crítica radical aos regimes subsequentes como arma de política interna. Penso que foi Telmo Correia que disse quase isto "O dr. Mário Soares provocou e teve resposta apropriada".

Isto é de uma ligeireza absoluta. Porque pode prejudicar as relações entre Estados - e portanto são atitudes desprovidas de Razão de Estado. Porque pode prejudicar os interesses portugueses e as comunidades aqui imigrantes. Se fossem discursos integrados numa opção governamental de ruptura ou esfriamento com estes regimes não seriam ligeiros e seriam até legítimos (ainda que passíveis de discussão). Mas não é esse o caso. Assim são atitudes de dirigentes políticos tornados apenas ruído nas relações. E portanto ligeiras. E ligeireza em política é incompetência.

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Futebol: Mourinho e EPC

Ontem Mourinho foi destroçado por Prado Coelho no Público. E bem. A personagem é tão má como parece. Fiquei enjoado ao vê-lo numa conferência de imprensa da semana passada, a propósito do folhetim da camisa rasgada ("Lisboa em camisa", versão multimédia, sec. XXI). Com o ar iluminado que lhe é característico recordava os adeptos do seu actual clube de tudo o que tinha conseguido desde que tinha chegado ao Porto, o qual tinha encontrado numa péssima situação "devido à incompetência de um profissional" (cito de memória, mas decerto que muito aproximado) - mais do que presumivelmente falando do seu antecessor.

Se calhar vou já velho: sou do tempo de (e vai de memória) Damas, Manaca, Bastos, Alhinho, Da Costa (ou Carlos Pereira); Vagner, Nelson, Baltazar; Marinho, Yazalde, Dinis [Dé, Chico Faria, opções habituais]. E já então lendo a Bola, aquela dos grandes Carlos Pinhão, A. Farinha, C. Miranda, V. Santos, H. Serpa, etc. - essa Bola que faleceu nos inícios de 90 acho eu, e da qual os mais novos apenas conhecem um clone clubístico e acomodado.


Estas memórias surgem para reforçar isto: em trinta anos de acompanhar a bola nunca tinha visto/lido um treinador tão desleal para com os seus colegas. Tão merdas.


Inacreditável. Nojento.


Regresso ao Público. Pois EPC termina comparando o treinador ao juiz Teixeira. Dando a sensação que tinha escolhido o assunto, para ele tão excêntrico, apenas para ilustrar a pancada que queria dar ao magistrado.


Por mais buracos em que este se tenha metido, por mais asneiras que tenha cometido, parece-me completamente abusivo. Demagógico (tipo "vou meter o futebol para para chegar a um assunto a que o povo está atento"). Demagógico também porque em campanha. Terrorista até. Digno do próprio Mourinho.

(Já agora algo que estranhei desde o início desse caso casapiano: os perfis do juiz sempre apontavam, elogiosos, para a sua capacidade de trabalho, para nunca deixar os processos atrasar. Louvável.


Mas assustadora e descentrada como causa de boa imagem. É que os juizes estão lá para ajuizar bem, não para ajuizar muito.


Sintomático da confusão de valores a que se chegou. Tão sintomático como dizer mal dos antecessores, mesmo que nada tenham a ver com os assuntos em causa)

Publicado por JPT em 12:52 AM | Comentários (0) | TrackBack

Cooperação e Bom Senso

[Uma escrita ligeira sobre tema sério, texto curto sobre matéria onde há tanto a dizer]


Em Moçambique, e em África, vive-se sob o signo da "cooperação". Um diminutivo para Ajuda Pública para o Desenvolvimento. A qual é um instrumento de política externa. Para os países que a financiam. E para os que a recebem. Para estes é ainda, por razões óbvias, um instrumento directo de política interna. Para os financiadores apenas deveria ser instrumento de política interna aquando das avaliações das respectivas políticas externas, e nunca no dia-a-dia da visibilidadezinha lá (aí) no burgo.

Esta última afirmação não provém de nenhuma moral ascética. Acho normal que se procure a visibilidade no local onde se faz [e financia] cooperação. Mas em casa própria não. É evidente que as sociedades devem ter conhecimento do que os seus Estados fazem/financiam alhures. Mas o objectivo não pode ser o eco interno: pois isso imprime dinâmicas que reduzem competências e efectividade aos processos de cooperação. Em suma, porque leva a procurar a visibilidade a curto prazo, em detrimento de acções consistentes.

Enfim, regresso ao meu tema central. Nestes anos que levo de Moçambique aprendi algo sobre a matéria "cooperação", de tanto ouvir falar nela. É algo para profissionais, dotada de tecnicidade própria, linguagem própria, mecanismos muito próprios (p. ex. nós em Portugal não somos particulares experts em avaliação), e procedimentos burocráticos (leiam racionalidade) específicos. E, no meio disso tudo, é política. E, no fim disso tudo, nunca é (nunca deve ser) assistencialista (e só esta distinção exigiria um blog inteiro).

Portugal não tem grande experiência de cooperação. Dizem os profissionais da matéria que a cooperação portuguesa se iniciou, verdadeiramente, desde que o actual PM foi o seu Secretário de Estado. Nos anos 90 ela amadureceu e, ainda que o niilismo céptico seja mais bloguístico, apresentou melhorias substanciais, ainda que não lineares.

Entre outras razões eu identifico uma causa preferida para a não-excelência da cooperação portuguesa. A falta de bom senso. Fazer cooperação é fazer política no estrangeiro: onde é melhor não fazer do que fazer mal, contrariamente ao húmus filosófico nacional.

Para fazer bem (ainda que tantas vezes falhando) deveria haver uma cartilha, uma cartilha do tal bom senso: identificar objectivos próprios; identificar recursos humanos próprios disponíveis; identificar recursos financeiros disponíveis (a ordem é esta: não há pior do que ter o dinheiro e não ter gente preparada para trabalhar. Minto, até há: assinar protocolos e depois ir tentar desencantar dinheiro para os cumprir, mas isso decerto que os nossos funcionários nunca farão). Depois identificar os interlocutores disponíveis, identificar os seus objectivos, identificar os seus recursos humanos disponíveis e os financeiros. E depois articular os objectivos. [E, finalmente, não querer aparecer sempre no primeiro plano da fotografia.

À primeira vista tudo isto é óbvio. Mas é tão raro.

Isto tudo é técnica, requerendo bom senso. Não é alquimia, essa exigiria senso comum. Mas esta técnica inclui também uma ética, entenda-se como uma forma de relacionamento. Essa ética é parte da técnica, sem ela falha-se. Não é paternalismo, não é solidariedade, não é nada disso. É uma ética profissional.

Nestes anos aqui encontrei muitas missões de múltiplos organismos e instituições. Do Estado seguindo esta cartilha apenas duas: a falecida Comissão dos Descobrimentos e o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. Ouço também dizer que o Ministério do Trabalho (nunca acerto no nome) tem uma equipa que assim trabalha, e acredito. Fora do Estado a Associação Danças na Cidade é um exemplo brilhante, aqui chegados via Mónica Lapa, a qual veio a morrer horrorosamente cedo.

Concluo: são tão poucos que merecem ser citados. E essa raridade demonstra que o bom senso deve ser muito difícil. Merece decerto ser escrito com maísculas.

Publicado por JPT em 12:49 AM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 09, 2004

Proler 2

A propósito do apontamento sobre a Proler recebo os comentários merecidos face à escrita pouco cuidadosa que ali botei.

A revista tem recebido financiamentos do Estado moçambicano e do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. Aqui o ressalvo, aqui o sublinho. E com prazer.

A Proler sai de dois em dois meses. Quem a conhece desde o início sabe que tem crescido, melhorado. Na forma: impressão, paginação, revisão. E nos conteúdos. E, até talvez mais importante, o seu director Francisco Noa rodeou-se de uma pequena equipa de jovens colaboradores. A qual também tem vindo a crescer: amadurecer. E que poderão vir a adubar o jornalismo cultural (e não só) moçambicano - aliás acho que alguns estão já a colaborar também na nova revista Mais, uma boa novidade na imprensa de cá.

A revista tem qualidade, tem interesse. Para garantir a sua continuação e o seu crescimento esses financiamentos estatais são fundamentais, mas não suficientes. E talvez não o devam ser. O meu apontamento anterior reflectia apenas a surpresa em ver a relutância das empresas em ali se publicitarem, elas que ainda assim estão presentes no apoio a outras actividades com menos visibilidade. Daí a reprise: "e não há publicidade que se chegue à Proler, que ainda são uns milhares de revistas a circular."

A ver vamos.


Publicado por JPT em 07:34 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 08, 2004

Partilha do poder político

A semana passada foi importante. Tomaram posse as novas autoridades municipais. Dado que as eleições de Novembro passado ditaram a vitória da oposição em alguns Conselhos Municipais temos desde agora, e pela primeira vez em Moçambique, uma partilha efectiva dos poderes (formais). A coabitação a este nível. Democracia oblige? Então é bom...

Publicado por JPT em 07:29 PM | Comentários (0) | TrackBack

Revista Proler

10º número da Proler, a única revista cultural aqui. A salientar a capacidade de sobrevivência do grupo de Francisco Noa. Falta de patrocínios, falta de publicidade. É certo que a revista continua a oscilar entre páginas excessivamente académicas e outras bastante ligeiras, uma mistura por vezes pouco atraente e que desorienta alguns leitores. Mas vale...pelo esforço e pelo conteúdo.


Este número vale ainda pela entrevista dessassombrada de Ana Magaia, a decana (é ela que o reclama, corajosa!) das actrizes moçambicanas: o teatro está "moribundo", diz, exigindo uma escola de teatro. E não se safam os escritores. Ana Magaia no seu muito melhor.


E boa ideia, uma introdução à literatura oral, e ainda mais com a entrevista a Zacarias Mawai, o contador [boa notícia, a Promédia vai-lhe lançar um livro bilingue].


E ainda uma reportagem sobre as condições existentes para a actividade cultural em Maputo: "Todos os caminhos vão dar ao Franco" (Centro Cultural Franco-Moçambicano). Salientando a sua importância crucial nesta cidade e alertando para o facto de ser um polo para a internacionalização de artistas moçambicanos, nas artes plásticas e música, pelo apoio às suas apresentações no estrangeiro. Chama-se a isso cooperação cultural! [para bom entendedor...]
Pena é que não haja uma maior pormenorização dessas acções, o repórter tem que estar lá para isso.

Ponto final: não percebo como há tanto patrocínio para tanta coisa e não há publicidade que se chegue à Proler, que ainda são uns milhares de revistas a circular. Mas enfim, disso também nada percebo.

Publicado por JPT em 07:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 07, 2004

Lixo

Há seis sacos de lixo à porta de nossa casa. Tal como nas portas das casas vizinhas. A rua já fede.

Publicado por JPT em 07:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 06, 2004

Roupa Velha 5

O Efeito dos Músicos Cubanos

Li algures que alguns músicos cubanos foram impedidos entrar nos EUA para assistirem à entrega dos Grammys, para os quais estavam nomeados. Recusa de visto por estarem sob a alçada de suspeita de terrorismo.


Logo me lembrei de algo que escrevi há cerca de um ano, quando à falta de blog chateava os amigos invadindo-lhe as caixas de email com tralhas variadas. Vem muito a propósito, digo eu, imerso no dejá vu:


RY COODER E JOHN WAYNE

Já que anda tudo a entrefalar-se, entreescrever-se e entrefwdar-se sobre as aventuras do Jonh Wayne na Arábia também quero. E daí que segue opinião!


Mesmo que porventura elas sejam pouco legítimas ou necessárias confesso que até agora não me têm chocado muito. Talvez por serem já hábito antigo, o que há de novo neste mundo?


E também por não simpatizar lá muito com o outro tipo, aquele do deserto. E porque razão ou moral hei-de eu optar entre filhos da mãe só porque um é (bastante) mais fraco do que o outro?


E irritaram-me aqueles franceses tipo campeões da paz. Assim fugi aos antiusa, ali a aproveitarem, candidatos a vassalo “europeísta”, com frémitos dos atrevimentos do chiraque das bombas atómicas, e esse a sonhar-se magno no triunfo de Argel (terá havido algum assessor a sussurrar-lhe que era apenas humano?) e a reinventar-se imperador, na recepção à francofonia alargada, dezenas de gabirús ali a fingirem-lhe o beija-mão, mas com esses não se importam os pacifistas europeus , claro que desde que fiquem eles quietinhos a sul de Ceuta ou lá para o leste dos Urais.


(ah, estou velho, aqui a lembrar-me do avô Giscard, aquele que agora faz a constituição europeia, que era o tal que recebia prendas privadas, diamantes entenda-se, do velho Bokassa. Enfim, tudo napoleónico, n’est-ce pas?).


Mas o que me irritou mais ainda foi aí por casa, tantos tão felizes a reviverem timor enquanto davam cor às velhas bandeiras dos velhos estalinistas (que delícia, aquela aia a dizer-nos que o Iraque é uma democracia, e o outro, um soares adepto da coreia do norte. E são deputados, pagam-lhes ordenado?) e às novas bandeiras dos velhos estalinistas (esse louçã, peremptório à altura “o koweit é uma província do Iraque”, um artista português!). Marchar com eles? Caramba! A Razão me livre!


Com tudo isto fiquei-me, aqui a achar que com tanto traste à solta é mas é de deixar o tio fazer o que lhe apetece, que o Diabo já veio e já escolheu.


Entretanto lá foram e hoje, daqui, adivinho os meus patrícios entretidos, a distrairem o congelado das refeições e os amores que já nem têm, defronte à TV, os mortos em directo, replay com zoom nos corpos esburacados, record os cadáveres para mais tarde recordar, tudo como se fosse a etapa da Volta, meta volante em Bassorá, reabastecimento em Al Fallujah, prémio da montanha em Umm Qasr, descida trepidante para Manda, fuga do camisola amarela já em Ba’qubah, sprint para Bagdad, vitória final, claro está, de Lance Armstrong. É a beleza do ciclismo!


(e, tv desligada à hora do jantar, fico-me a resmungar que de todos os trastes acima lembrados o mais filho da puta é, evidentemente, o “senhor telespectador”).


Súbito, cá no Maputo, li (terá chegado aí?, nos jornais liberais não vi) que


Ry Cooder foi proibido de viajar para Havana e de trabalhar com músicos cubanos...também foi multado pelo Governo dos EUA em mais de 100 000 euros por não respeitar uma emenda legislativa do país, a America’s Trading With the Enemy, que estabelece restrições a relações comerciais com Cuba...” [“Notícias”, Maputo, 25.03.03]


Bolas, no meio disto tudo cada um tem o seu quê. Eis o meu! Talvez seja nestes pequenos pormaiores que melhor se veja a taradice alheia, ou será miopia minha?


E de repente fico-me para aqui a lembrar de um tipo que mais ou menos inventou o próprio John Wayne, o qual quando um dia o foram chatear com coisas destas (até a ele!) lhes disse que se chamava John Ford e fazia filmes de cóbois, e com isto os foi mandando aquela parte. E devia ter razão.


Ok, aliás, Certo, isto tudo saiu meio confuso. Mas até é natural, esta é das difíceis, que era para dizer que depois desta estou pronto para desfilar com o Louçã.


Porra, ao que desce um homem!


Publicado por JPT em 07:24 PM | Comentários (0) | TrackBack

A descolonização?

Questiúnculas em Lisboa sobre a descolonização [meros reflexos de outras coisas, parece-me].

Mas mantenho-me fiel ao lema, que há poucos apontamentos me obriguei a relembrar: não me irritar. Ainda assim surpreende-me que se possa discutir a (des)colonização sem se discutir a colonização - parece-me um erro de lógica.

Mas com tanto lugar-comum apregoado é nítido que falam de si próprios e não tanto das realidades que invocam. Para falar delas bem que podiam ler [nota pessoal: ao escrever isto ando décadas para trás, estou igualzinho ao meu pai]. E, já agora, mergulhar no Companhia de Moçambique, coisa tão séria, e nada utilizável para pressas tonitruantes. Depois sim, podiam vir botar os discursos que quisessem, talvez mais informados

Mas apesar do lema, não resisto a botar opinião sobre a descolonização:

e porque não tê-la feito uns dez ou quinze anos antes?

e, afinal, quem é que fez a descolonização? Não, não, não estou a perguntar se foi o sr. dr. a ou o sr. dr. b. É mais tipo se foi por aí ou por aqui que se fez.

[desabafo: que raio de país é o meu, entalado entre ultramontanos bolorentos e patrimonialistas fundamentalistas]


Publicado por JPT em 07:21 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 05, 2004

Sida

Apontamento rápido (e muito pouco cuidado) a propósito do que disseram no Vaticano sobre companhias farmacêuticas e a Sida em África. [Se quiser veja comentários anteriores no Aviz e no Valete Fratres]. A partir de Moçambique algumas questões:

1. Tal como noutros países africanos - exceptuando o referido bem-sucedido caso ugandês, de apelo à abstinência, “fidelidade” (odeio o termo, mas descreve), e “camisa-de-vénus” (acho óptimo o termo) apenas em última instância – as campanhas de prevenção falham e o Sida continua galopante.
Desconheço a realidade ugandesa. E será de estudá-la para saber como é que a mensagem passou, que contexto de divulgação e de recepção teve. E tentar reproduzir. Mas urge actuar, e não há nada pior do que estudos apressados para induzir à acção. Daí que...
As campanhas de prevenção falham, independentemente dos meios e métodos utilizados. Porque serão mal desenhadas é uma das razões, mas não pode ser a única.


2. Diz-se que a Igreja Católica é responsável. Se-lo-á em parte. Sou ateu mas nada anti-clerical, esclareço. Mas acho abominável o cabeça-na-areia em que ela se encerrou.


Mas há algo nesta discussão de muito eurocêntrico, melhor dizendo, catolicocêntrico. Aqui a maioria da população não é cristã. Professa as religiões dos espíritos ancestrais (às quais antes se chamava animismo, noto aqui para facilitar). 20% é islâmica. E os cerca de 30% de cristãos estão espalhados entre várias igrejas, estando as protestantes africanas em rápida expansão, atendendo entre outras coisas à sua superior capacidade sincrética com as religiões locais. Tal como o islamismo. E ainda (e aqui diferentemente do culto muçulmano) à sua reclamada capacidade em intervir directa e imediatamente nos destinos pessoais – daí a prevalência dos cultos no Espírito Santo, conceptualizado nas cosmologias locais como superior aos espíritos locais e portanto potência protectora dos ataques de espíritos ancestrais próprios e alheios, bem como dos constantes ataques dos indivíduos vivos e vizinhos (chamem-lhe feitiçaria para facilitar).

E, acima de tudo, porque oferecem protecção contra o omnipresente Sida, uma nova praga que exige uma protecção nova.

[Não é para aqui, mas acho que nestes decénios a grande revolução em África é a religiosa].

Daí que centrar a reflexão sobre o Sida na problemática do Vaticano é estar a discutir o Vaticano, não o Sida. Atacando-o ou defendendo-o, a partir de posições próprias. Porque a Igreja Católica é um dos elementos em campo, e quantas vezes não o mais audível. E porque mesmo quando presente a população católica catoliciza-se à sua maneira – o que todas as populações católicas o fizeram – relativizando a palavra da Igreja. E, importante, porque o clero no terreno também molda a sua mensagem muito mais do que a hierarquia o faz.


3. A prevenção falha. Encontrar razões para isso desespera quem as procura. À falta de melhor dizemo-las “culturais”. São-no também: eu encontrei do Niassa a Ressano Garcia (do norte a sul) a crença de que o Sida é apanhada exactamente pelo uso dos preservativos, em especial pelo contacto com o seu óleo. Estupidez? Mas o raciocínio provém da racionalidade empírica: pois se antes de chegarem os preservativos não havia Sida. Mais, o Sida é uma invenção dos brancos para acabar com os pretos, para os impedir de ter filhos, e assim tomar as terras. Absurdo? Talvez (atenção, em tempos também se falou da origem provir de uma fuga dos arsenais biológicos), mas se o branco sempre foi o agressor/conquistador? Ouvi a este propósito uma frase eloquente: “se os nosso avós fodiam assim e os nossos pais também fodiam assim, como vamos nós fazer?”


4. Razões sociais. A população, em particular rural - mas a urbana é ainda rural- precisa e quer muitos filhos (tal e qual a europeia até há algumas décadas, não esquecer). Porque a mortalidade é elevada e é preciso assegurar descendência. Porque filhos são mão-de-obra (retirem daqui o marxista “exploração” por favor). Porque filhos são alianças com os seus futuros sogros e parentes. Porque filhos são segurança na velhice, para seus pais e parentela (segurança social, não?). E, acima de tudo, porque é bom ter filhos. Sexo com preservativo é impedir a procriação, como é isso possível?


5. Mas então que sejam fiéis, dirão. Mas há a poligamia, que é tão ancorada como a nossa monogamia. Mas há o divórcio fácil, muito em particular no norte matrilinear ou no sul quando os casamentos não são lobolados (o lobolo é o pagamento à família da noiva – não é uma compra, é uma legitimação da relação, é tanto uma compra como o nosso dote era a compra do noivo). E o levirato e o sororato, em que viúvos ou viúvas casam com irmãs ou irmãos dos conjuges falecidos, assim continuando alianças, estatutos sociais e protecções mútuas. E há uma esperança de vida baixissima, que multiplica os viúvos em idade sexual muito activa. E há grandes deslocações populacionais bem como as migrações laborais (para as cidades, para a África do Sul – [e este é outro assunto, as actuais barreiras sul-africanas ao mineiro moçambicano, depois de tanta solidariedade]) que multiplicam a necessidade sexual e as hipóteses de posterior contaminação familiar. E há uma moral sexual (felizmente, apesar do Sida) bem mais aberta do que a tradicional euro-burguesa. E há a expansão da comercialização do sexo, até diferente da prostituição. Apanhei machambeiros de aldeias recônditas queixando-se de que agora as vizinhas, também machambeiras, lhes pedem 5 mil meticais por sexo (40 escudos, mas é dinheiro que se veja). Enfim, há uma série de factores para um sexo múltiplo, as quais não passam pela “infidelidade” nem pela “inconsciência”.


6. Há também o peso das Igrejas. Disse atrás que as igrejas cristãs defendem contra o destino, nele actuam. E também defendem do Sida. Vituperam o pecado. Os pastores invectivam o pecado, a infidelidade (que leva ao Sida), e os ambientes que a possibilitam, potenciam. Ambientes cujo pacote é o fumo, a bebida, o preservativo. A mensagem é não fumar, não beber, não usar preservativo, não ser infiel. Tudo é pecado, tudo isto é de renegar. – e aqui é espantoso, óbvio efeito dos preconceitos de quem faz as campanhas que estas igrejas não sejam integradas no esforço de prevenção, de molde a mudar um pouco a mensagem.

Será perceptível para um europeu (imerso em publicidade variada) o efeito contrário que campanhas de cartazes (out-doors, no português de Portugal) pelo preservativo têm? Pois se em tanto lugar (e tanto) os únicos cartazes publicitários que existem são os cigarros, a cerveja e os preservativos. E colocados nos mesmos sítios. Magnífico contra-senso, associar todos os símbolos do pecado (até a Coca-Cola ou a Sparletta poderão aparecer, os refrescos que também acompanham as noites pecaminosas).


7. E há o silêncio sobre a Sida, a vergonha. Há tempos um irmão de Samora Machel veio anunciar que estava a morrer de Sida (diz-se que influenciado por Graça Machel, aqui uma referência). Foi elogiado mas também muito criticado. Silêncio que começa a ser combatido, o último jornal Savana ocupa a capa com a fotografia de um entrevistado com o título “Sou seropositivo há dez anos”. Finalmente luta-se em público contra o grande inimigo: a invisibilidade do Sida. Pois durante anos não se via, dado que as pessoas morrem de outra coisa. Mas hoje, com mortos em quase todas as famílias, essa luta ainda que bem-vinda é até anacrónica, a invisibilidade pública do Sida não significa já uma invisibilidade privada. Mas ainda se reproduz, pelo medo, pela vergonha.


8. Volto ao princípio. A prevenção falhou. Com Vaticano ou sem Vaticano. Neste momento a única coisa a fazer, e de novo com Vaticano "pela fidelidade" ou sem o Vaticano, é espalhar os químicos. Criando ou reforçando as redes de saúde pública que permitam o seu acompanhamento, sem as quais tudo isso será inútil. E é decerto por Moçambique ter essa rede, rara em África ainda que tão frágil aos nossos olhos, que aqui se vão espalhar retrovirais.


9. E como a prevenção falhou e os químicos são a única forma de combate mais ou menos rápido há que os "mundializar", retirá-los dos monopólios de patente. E deixar de ler este assunto segundo os paradigmas da luta contra a Igreja (católica) ou a seu favor, ou contra os grandes grupos da indústria farmacêutica. Não porque sejam questões morais ou políticas, porque até as são. Mas acima de tudo porque essa é uma forma de pensar que neste caso é totalmente desligada da realidade. Devido à distância, talvez. Devido aos preconceitos, com toda a certeza.

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fevereiro 04, 2004

Lema (bis)

Um blog é um diário. Melhor dizendo, porque menos impositivo, pode ser um diário. Então sai página disso. Apenas isso e não uma reflexão sobre a blogo-rede.

Desde que me meti a escrever isto tenho lido vários blogs. Procurei os africanos e os portugueses. Deles já referi a escassez e a abundância respectiva. Para os patrícios usei o "Aviz":http://www.aviz.blogspot.com/ como guia, acho simpático a longa lista de blogs que coligiu. Gosto muito do Aviz, visita diária. É abrangente, (muito) opinativo, mas nunca absoluto ou grosseiro: não há um pedestal debaixo do teclado do seu autor. Acho-o sábio (se não parecesse pedante diria sage).


Nesse labirinto tenho encontrado coisas muito diversas e interessantes (o efeito é que leio menos livros. Mas talvez seja sazonal.): Histórias da net (perdi o endereço), "Naufrágios":http://naufragium.blogspot.com, o belissimo "A Montanha Mágica":http://amontanhamagica.blogspot.com/ são bons exemplos. E um blog pungente, agressivo, único, o "Vítima da Crise":http://vitimadacrise.blogspot.com - com mil homens como este e cruzávamos o Rubicão (decerto que para sermos trucidados).


E apanhei imensos sítios centrados na política, atractivos para um emigrante interessado, resmungão e (vá lá) saudoso. Nos elos pus os que prefiro, onde saliento uma boa surpresa. Tinha uma vaga, velha e irritante ideia do autor do "A Praia":http://a-praia.blogspot.com/, a qual se esbroou por completo, e não só por se epigrafar com o Lou Reed.


Mas ao fim de um mês e tal de maior assiduidade retiro três ideias deste emaranhado politólogo.


A primeira é o da mania das classificações: por vezes até nas "ligações" surgem os blogs qualificados como "extrema-esquerda", "esquerda" e por aí adiante. E as polémicas "fulano que é direita", donde o corolário "disse asneira". Ou então, ainda que raro, "surpresa, sicrano de esquerda até falou bem" (ou vice-versa para ambos os casos).


Não venho negar distinções esquerda-direita ( para mais os obituários do Bobbio ainda aí estão). Mas muito disto parece-me uma colecção de cromos e a rapaziada a colá-los na caderneta (nº 23 esquerda PS, nº 54 BE, nº 124 centro-direita, etc). Ou o "agora estamos a ganhar" que li estes dias. É perfeitamente legítimo entrar nessa, tudo isto não passa de puro prazer (narcisos?). Mas enquista um bocado as ideias, acho eu. E muitas vezes (ok, costela arrogante) mostra um bocadinho de falta de mundo, ainda que até de gente viajada: muitas certezas, muito poucas dúvidas. Ou seja, gente muito assertiva.


A segunda é a de uma enorme acidez, não universal, mas recorrente. Cá de longe não vejo bem as causas disso. Duvido que seja o inverno. Não me venham com o "ser português" (andam por aí alguns desses). E, por favor, a crise não! Crise de barriga cheia, se olharem à volta. Dirão que "com a desgraça dos outros posso eu bem". Talvez, mas o problema é dizerem "os outros"...


Esta arenga está influenciada por três textos que li hoje. Dois a propósito de Kaulza de Arriaga, um desagradável "demagogo radiante":http://cruzescanhoto.blogspot.com/2004_02_01_cruzescanhoto_archive.html#107581134813399568 com a morte do velho general, um outro (e num blog bem esgalhado) a aproveitá-la para um "confusionismo":http://catalaxia.blogspot.com/2004_02_01_catalaxia_archive.html#107589513718011366 (como aqui se diz) bem vácuo. Ambos estridentes e anacrónicos.


E um outro "texto":http://babugem.blogspot.com/2004_02_01_babugem_archive.html#107581966377107895 que gostaria de ter escrito, mesmo que parte das referências sejam diferentes - é incrível, a maioria dos jornalistas que cita nem conheço, não há dúvida que emigrei há muito. [mas o Clint é o meu Sporting no cinema]
Para quem não for lá cito-lhe o âmago: "A vida é demasiado longa, e difícil é manter a coerência entre imagens pública e privada e no interior de cada uma destas também."


Com isto tudo chego ao terceiro ponto: toda essa acidez cola-se. Releio esta ma-schamba dos últimos tempos e vejo-a assertiva, resmungona, "atrevida" quando fala aí do Norte. Talvez não seja nada mais do que as saudades, mas tanto fel ainda me estraga a horta.


E é por isso que venho repetir o que escrevi no princípio do blog: o seu lema é "O que é que me interessa quanto é que pesa a prima...!!?".
A ver se não me esqueço dele outra vez.

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fevereiro 03, 2004

Roupa Velha 4

Um Símio em Calções

Após o jantar uma ida nocturna à farmácia, ali à da Clínica Cruz Azul em plena Baixa de Maputo, qualquer coisa que a Inês se esqueceu de levantar, felizmente nada de grave, uns achaques triviais. Mas já estava fechada, desde as 8 horas, a ver se não me esqueço para não repetir. Percorro então, acima e abaixo, a Karl Marx em busca de uma farmácia de serviço mas hoje não é o dia destas. Avanço para a vizinha Samora Machel, à farmácia Tunduro, aquela ali entre a Cervejaria Galé e o célebre Scala, mas também a esta encontro fechada. Já perdi tanto tempo nestas andanças que paro e vou à montra ver a escala de serviço, apesar de ser noite e Baixa, que também não se devem exagerar os perigos, já por cá estou há tempo suficiente para me deixar ir nisso.


Mas nem percebo bem qual é a farmácia que está de serviço, reparo que não estou certo da data d’hoje, que tonto, ou envelheço?. Regresso ao carro e, bolas, ali plantado à porta um tipo, maior do que eu, entre o pedinte e o ameaçador, já percebi que não me quer dar o espaço todo para entrar pois postou-se de modo a que eu, no esgueirar-me lá para dentro, lhe terei que dar as costas. Então se é assim, e ainda ele não disse nada, já lhe estou a empurrar um “sai lá daqui pá” no estômago, mas ele afinal não é de meias medidas e saca a naifa. Passo-me, mas passo-me mesmo!, empurro-o outra vez, filha da puta, a porta do carro, entretanto já aberta, quase nos separa o suficiente para que com o meu passo atrás ganhe eu tempo e espaço. Com a irritação tiro o cinto, que lhe hei-de foder as trombas, grande cabrão, a sacar-me de uma faca, quem julga ele que é, mas... estúpido, gordo, a noite estava tão boa (agora mudou, claro) que estou para aqui de calções, e como estes vão já apertados estou sem cinto, dizem-me ambas as mãos, ali apalpando em vão e logo irritadas com o dono.

Recuo mais um pouco, até ao para-choques, e arranco numa saraivada de insultos, que nenhum dos seus antepassados, mesmo os que ele nem imaginava ter, se safa. E grito, grito-lhe os impropérios, ele estancado, indeciso, para ali a olhar para mim, a naifa também parada na mão, os molwenes no meio da avenida calados, e parece que dele pouco cúmplices. No passeio, rente às escuras montras vem subindo um pequeno homem, num modesto mas digno fato e gravata de funcionário, o qual sem se afastar muito da parede lá participa com um “deixa lá o homem, que chatice, deixa lá o homem”. Eu, enquanto isso continuo a vociferar tudo o que ali me vem à cabeça, mas é este socorro subtil também feito espelho que mo faz compreender, sou ali um símio em calções aos urros e pulos, aflito, esbracejando, passo à frente passo atrás, diante da fera, até a assustar. Esta, constrangida, avalia que já perdeu o momento do salto e cede às arrecuas, devagar, enquanto se rejuvenesce como que por magia a querer-se menino de rua, num “só estou a pedir mil!” esganiçado e agora surpreendente, enquanto a arma lhe desliza para o bolso, isso sim acriançando-o em definitivo.


É tal a raiva que saio dali directo, rugindo ainda, mais até do que o escape de competição do Kia “Champ” da Inês, à esquadra vizinha, lá no Museu da Moeda, onde de rajada arrasto do descanso um carro patrulha que faço atravessar a rua em busca do faquista. Aí regressado, agora escoltado, ainda vejo o “angolano” como lhe vão chamar os molwenes, a escapar-se pelas ruínas, já monumento, do Prédio Pott. Pronto, nada mais posso fazer, estou para ali a destilar o fel mas também a marcar pontos, lembrar-se-ão do branco de barbas, carro CD, que se chateia a sério. Ganhar espaço, acho eu, se calhar certo, se calhar errado. O polícia concorda, que o senhor pode ir para a casa, vai-me reformando, ele conhece o assaltante, hão-de persegui-lo mas o pior, e lamenta-se, é que estes ladrões são todos menores, mal presos logo algum juíz os liberta. Mas que volte eu no dia seguinte, a ver em que é que deu tudo isto.


Passam dois ou três dias, e de manhã manhã, antes das aulas um duplo café ali no Nautilus, a ver se os bacharéis adormecem menos ao meu rame-rame. E saio rápido, a pressa daquela hora, mas já é sina minha, ou será da cor, lá me vem um gajo chatear, “dá-me dinheiro, hoje vais dar-me dinheiro”, a história de sempre, que me está a guardar o carro, moedas que mais não são do que a portagem de utilizar um bocado da rua que ele decidiu ser seu. Eu não dou, continuo contra a privatização da terra. Mas este já vem aviado, a empurrar-me até ao “tá quieto, pá, não me chateies”, que não o convence, eu ali à mercê dos perdigotos do sacana, a bêbedo não cheira, e aquela hora também seria difícil, o cambalear excitado parece-me o de outras andanças, mas nem vou perder tempo a medir-lhe as pupilas, que seja “herói por um dia” até ao dia em que rebente, desde que não me chateie. Mas hoje decidiu fazê-lo, agarra-me, largo-o, agarra-me a porta, ameaçador no “dá-me dinheiro!, vais ver!, dá-me dinheiro!”, e em fechando-lhe eu o carro, põe-se aos murros à chapa e ao vidro. E fá-lo também escorado no seu grupo, todo ele sorrindo ali na esquina, como sempre.


Que raio de começo de dia. E ainda para mais à porta de casa, aqui é o meu terreno de pasto do todos os dias, ladeando a família. E é mesmo por esta que isto não vai ficar assim, saio dali mais uma vez para a esquadra, aquela vizinha ao fundo da Nyerere. Pois já que me acordam as noites com os gritos dos presos, da porrada que lhes dão, que me aturem agora. E aí, enquanto chamam alguém para me acompanhar, lá me vão desabafando de novo que não vale a pena, prendem-nos e são menores, no outro dia são soltos pelo juíz. Tenho que confessar, quando me dá estas raivas, caem-me as sociologias todas, estou-me um bocado nas tintas para as desgraças alheias, e o abandono das crianças, e a falência da família, e a crise económica, e a globalização, etc. e tal, tudo isso que põe os putos na rua a roubar e a matar. E por isso estão os polícias ali a carpir, e eu a interromper, cruzamos lamentos, tudo bem mas já fui assaltado cinco vezes, e dá-me para reagir, sei lá é o meu mau feitio, que assim a frio bem sei que é para dar tudo e seguir como se nada fosse, e por este andar um dia destes ainda um há cabrão que me fila, e lá se vai um antropólogo, até liberal, até crítico, até já foi de esquerda, mas nesse dia hão-de-se estar cagando nisso. Bem, este choradinho todo não lhes fiz eu, mas insisto no que é que posso fazer?, assim a sublinhar a impotência do pobre cidadão, a ver se lhes acicato o ânimo, estúpido, nem a pergunta tem resposta, nem me parece que os ânimos deles precisem de grande acicate, a julgar pelas histórias que se contam e pelos berros nas traseiras lá de casa.


Aí, um dos agentes para, calmo, até amistoso, e corta-me um “há muita gente por aí que já comprou uma destas” e vai apontando a pistola, ali descansando na mesa da entrada. Eu sinto os olhos a arquear, os meus claro, e sai-me com um meio sorriso “eh, isso não, não vou dar um tiro em alguém por causa de uma carteira”, mas com isto num instante passei de indignado a displicente, percebo-o, e ele também. Talvez por isso sinto que tenho de me justificar, que quem usa arma deve estar pronto para matar, nunca só para assustar, como se ele que vive com uma no cinto não o soubesse, e que para tal não estou disposto. Ele encolhe os ombros e remata “olhe, há muita gente que pensa diferente”.


Bem, eles lá saem atrás e eu, boleia dada, sigo à minha vida. Ao volante. A repetir-me, como se fosse para outros, que um polícia, com a naturalidade do assim como quem não quer a coisa, me aconselha a arranjar uma arma para que me defenda eu próprio e aos meus. Já vou mais calmo, claro, o breve Índico à direita também ajuda, e tudo isso puxa-me o literato, que nesta manhã sai-me na forma do “que faço eu aqui?” de poeta, que isto assim também é demais, resmungo ainda.


E lembro-me do meu irmão, dobrado o Cabo de Cinquenta, comandante aqui convertido à cabotagem de terra, conforme o dia saía-lhe irónico ou triste o sorriso à conversa do regresso a Portugal, e assim a deixar-se por cá rebentar de porão em porão. E, já com ele, transformo a poetice matutina num “que farei eu aí?”. Pois podem estas picadas estar em mau estado, bem embrenhadas, que sempre iludem em deixar-se andar, nem que seja com a tal catana na mão, desbastando-as. (...)

Dezembro 2002

Publicado por JPT em 07:14 PM | Comentários (0) | TrackBack

Ler o jornal na net (adenda)

[evidente ligação ao apontamento anterior]

Há uma semana, irritado, escrevi aqui:


"A ministra do ensino superior (ou alguém lá no estaminé) pede a lista nominal dos grevistas - isto ultrapassa todo o imaginável, tudo...;"


A ministra demitiu quem se julga acima de tudo. É de Ministra. Passou-me a irritação.

Publicado por JPT em 07:12 PM | Comentários (0) | TrackBack

West Coast

Sempre me irritaram as lamentações de que "o Estado não é uma pessoa de bem", habituais no embrulho das palmadinhas nos ombros aos (recorrentes) lesados. Pura extensão da jurídica "pessoa colectiva", uma antropomorfização do Estado de qualidades analíticas nulas. O Estado é um emaranhado institucional povoado de indivíduos imersos em cadeias hierárquicas mais ou menos explícitas - ainda que tantas vezes pareça necessário ser detective para as destrinçar. Ou seja, o Estado não é uma pessoa mas sim um (enorme) conjunto de pessoas. Daí que quando asneiram ou aldrabam seja mais do que possível e desejável apontá-las e puni-las. Qual "pessoa colectiva" qual quê!


Vem isto a propósito da pérola chegada a esta "East Coast" via "Público":http://jornal.publico.pt/2004/02/03/Economia/E01.html. Para quem não leu: o ICEP lançou uma campanha publicitária, Portugal como west coast, pilhando uma ideia da agência BBDO que lhe tinha sido proposta e então recusada. Ideia que foi apresentada publicamente, até no Público de Agosto passado, pelo seu autor Pedro Bidarra. Tipo que conheço há muito, bicho grande lá nas publicidades, e que não precisa mesmo nada destas questiúnculas para que olhem para ele. Este é daqueles casos em que nem hesito para para pôr as mãos no fogo por quem se queixa.

Diz a notícia da hipótese do caso ir a tribunal. O qual decidirá justamente, creio, mas nunca antes de todos os intervenientes se terem reformado por terem atingido os respectivos limites de idade.


Para mim dever-se-iam evitar tais delongas, que minam a confiança no Estado.
Numa situação destas, tão explícita, como evitar inquérito ou julgamento, indemnizações? Eu proponho uma alternativa, que passa pelo velho ordálio (o "juízo de Deus" da nossa tradição):


1. ou toda a gente do ICEP envolvida nisto (de alto a baixo) vai borda fora, como piratas que são [e falo no ICEP da tão recente, ampla e noticiada renovação, aquando da ascensão da "diplomacia comercial" e da sua subjugação parcelar ao MNE];


2. ou tudo isto é uma ignomínia, uma falsidade de publicitários despeitados, e administração e técnicos do ICEP são honestos, competentes e imaginativos. E como prova disso (e eis o tal "Juízo de Deus") terão que ser eles os autores e responsáveis pelas próximas campanhas eleitorais dos partidos do governo que os suporta.


[Algum leitor perguntará: que faz este tipo em pleno feriado dos Heróis Moçambicanos, à hora do calor, e que calor, a botar este tipo de irritações? Calma, saí da piscina, hora da sesta da miúda. Os fígados não estão assim tão mal]

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fevereiro 02, 2004

Roupa Velha 3

Um Velho


Lá perto de Boane, naquele cruzamento sede de dumba-nengue, estanco diante de um camião em lenta inversão de marcha, na berma da estrada um velho instruindo a manobra, complicada pela abundância pobre das bancas serpenteantes. Aproveito e peço-lhe a confirmação "por favor, o caminho para a Ponta do Ouro é por aqui?", que não quero perder-me por areais desconhecidos de quem usa o avião para apressar o fim de semana.


Que "Sim", responde-me o velho, alongando o braço bem para longe "é ir sempre a direito até lá à frente e então virar à esquerda, não há que enganar, aí há-de ver que depois é só continuar sempre em frente", e havemos lá chegar. Sei também que, bem mais a sul, algures terei que acompanhar o rumo dos postes de electricidade mas isso já não lho pergunto, ainda estamos longe e decerto que por lá outrém mo indicará, de modo que eu não venha a confundir.


Agradecimento cumprido aproveito a pausa em ponto-morto para acender mais um cigarro, mas eis que o velho retorna, um passo atrás, nenhuma entoação especial, apenas para melhor esclarecimento, "filho, é seguir em frente, mas não é para virar na primeira à esquerda, é só na segunda, na estrada de alcatrão", e torna a partir, abandonando um breve aceno.


Esfumaço e sinto-me a sorrir, a reparar naquele orgulho que de tão normal que é nem se sente obrigado à ostentação, ali sorrateiro neste “filho”, tão tipo mas neutral. Sem esse “patrão” urbano ou a sua sequela “chefe”, nem tão pouco esse “branco” mais rural e que nunca percebemos se substantivo se adjectivo desqualificativo. Ou esse “pai” ou até “papá”, este mesmo como se de simulacro de carinho se tratasse, que os velhos do mato têm para oferecer, tão desajustados do invertidos que surgem. Mas agora, aqui, apenas, muito apenas, a minha idade do “filho”, que me põe no meu lugar (por enquanto, por enquanto, que o tempo está a voar), digna de natural que é.


Posso agora partir, todo atrevido, no meu fór bai fór e o velho, terminada a manobra do camião, decerto que lá irá caminhando para Boane que isso não está ali a contar entre nós. Como nunca deveria contar.


Para o meu lado comento um "reparaste?", e que sim, "tão raro, não é?", diz a Inês. Tão raro que tanto tempo passado, e já bem conhecido o caminho da praia, ainda me lembro do pequeno episódio.

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fevereiro 01, 2004

Futebol

Ao longo dos anos ao percorrer a 25 de Setembro ia olhando a fileira de prédios sobre as barreiras, quantos em tão mau estado mas mesmo assim recortando a cidade alta com alguma beleza. E sempre cobiçando o delicioso cilindro que era o arruinado Hotel Girassol, lamentando-lhe o desaproveitamento.

Há algum tempo foi este remodelado. Dizem-no com boa cozinha, ainda não experimentei. Parece que os qua