Há uns anos (largos) passámos uns dias na Ilha e encontrámos um puto porreiro, imerso no voluntariado e que, ao fim de um ano por lá, estava um bocado cacimbado e totalmente falido. Cá em casa lembramo-nos que com ele partilhámos algumas boas refeições, o cozinheiro da casa era óptimo, e ficaram no nosso pedestal doméstico uns filetes de peixe-papagaio absolutamente inolvidáveis.
Agora ele tem a idade que eu tinha na altura e também bloga, lá em Lisboa. Com simpatia escreveu sobre esta machamba, afirmando-me "mocambicanizado". Não pude deixar de sorrir. Ainda que discordando, quanto mais passa o tempo de migrante mais me sinto português. E não por reacção contra nada, bem pelo contrário. Apenas porque me é normal (o senso comum diz "natural", mas isso é coisa fisiológica).
E para demonstrar a diferença que quero realçar narro de seguida um episódio das memórias de Moçambique, que ainda esta semana lembrei durante um lauto jantar em que estavam presentes alguns dos protagonistas. Ei-lo:
Lá pelos anos de 1998/9 veio a Maputo uma famosa jornalista portuguesa. O seu objectivo era escrever sobre o "regresso dos portugueses", então propagandeado em Portugal e vituperado por cá. E, claro, exagerado em ambos os sítios. O objectivo foi cumprido, o artigo foi feito, resultando numa série de pequenos perfis sobre portugueses de apelidos relativamente sonantes então residentes em Maputo. Enfim, opções...
Durante a sua visita fui convidado para um jantar com a jornalista e algumas individualidades moçambicanas, jornalistas, médicos, romancistas, professores, líderes de movimentos sociais. O fito era que ela ouvisse desses "representantes" da sociedade moçambicana o que achava esta de tal regresso.
Correu mal o encontro. Esperava o anfitrião que o diálogo fosse aprazível e as conclusões positivas. Mas a presença de tão famosa jornalista, ainda para mais de tão importante jornal, foi uma espécie de Caixa de Pandora aberta. Sobre os portugueses se um dos convidados dizia "matem-nos" o outro logo gritava "esfolem-nos" e de imediato alguém urrava "queimem-nos". Foi uma catarse e também uma provocação - tantos anos depois todos concordamos com isso. Pois aquele momento foi também entendido como uma oportunidade para reafirmar uma série de coisas a Portugal. Reafirmação porventura desnecessária, achei eu durante o jantar, ainda que algo distraído, debaixo da mesa a cavar o buraco onde me tentava esconder.
Até que a senhora, famosa, culta, respeitadissima, se afligiu com tanta opinião negativa. E perguntou, estupefacta, aflita, enfática: "mas não gostam de nós...?", "depois de tudo o que fizémos por vocês!".
Não me lembro de mais nada, com esta mergulhei para o buraco e tapei-o!
Fim. E que raio tem a historieta a ver com o princípio da arenga? Qual o moral da história? Pois aqui quero dizer(-te) que não se trata de estar moçambicanizado. É apenas o tentar não pensar e dizer estas barbaridades. (Talvez outras, talvez outras). Que são tão generalizadas. E que se neste caso até se escondiam atrás da educação irrepreensível e do brilho, tal não acontece no outro amíude.
PS. Claro que o tal "regresso dos portugueses" não espelhava em nada tanta opinião negativa. O (pós)império reconstruía-se, paulatinamente.
[Setembro 2001
A propósito da Conferência Internacional sobre o Racismo, Durban]
MIL DESCULPAS
Madrugámos hoje para não perder tempo. Ontem comprei roupas brancas, a minha mulher já as tinha, acho-as mais apropriadas para isto. O meu sobrinho é que não veio, a mãe dele não deixou, e como não tem papas na língua disse-me logo que não quando fui lá pedir-lhe para que o rapaz nos acompanhasse, que era só o que faltava, que eu nem tinha o direito de lhe pedir isso.
Assim viemos os dois, chegámos à Baixa de manhãzinha, e começámos logo que não há tempo a perder, fomos primeiro às ongs nacionais que por aqui há, e depois subimos à Sé para falar com o senhor prior, havemos de descer a avenida para chegar à mesquita velha antes do meio-dia, e ainda temos as empresas, que são quase porta sim, porta sim. No caminho falamos com os transeuntes, e a todos dizemos ao que vimos, que lamentamos muito, que estamos arrependidos, que nem tínhamos pensado bem no assunto, enfim, que pedimos muita desculpa por os termos escravizado, e pedimos ainda mais desculpa pelo colonialismo, que até foi pior nem que seja por mais recente.
Sou mais eu que falo, a minha mulher tem estado calada, ela nem queria vir, penso que já se quer ir embora, também eu insisti muito e ela só veio para me acompanhar, acha que eu não ando bem, sente-me um bocado deprimido, ainda não percebeu se são os quarenta anos a chegar, ou o meu emprego que não corre bem, se estou cansado de estar por aqui, se calhar até acha que arranjei uma outra, mais novinha, mas está enganada, apenas ando é a matutar nestas coisas do mundo, que é bem complicado, e antes estava distraído.
É uma pena, as pessoas não estão muito avisadas, nos escritórios não nos recebem, tenho que marcar reuniões para depois, insisto e digo ao que venho e torna-se mais difícil, mas não desisto, peço desculpas às secretárias, aos contínuos, aos guardas, e depois eles até são simpáticos e trazem-nos à rua, amáveis, e chamam as pessoas que passam para nos ouvirem, mas cá fora também nem todos nos aceitam, os homens fogem dos abraços, as mulheres protestam comigo, dizem-me atrevido, os miúdos vão gozando connosco, mas é normal, são ainda inconscientes, até já está uma boa mão cheia atrás de nós, mas não percebo o que dizem, falam em ronga e changana, e eu peço muita desculpa mas ainda não aprendi as línguas daqui, é uma falta de respeito, prometo que começo amanhã, ainda hoje à tarde se não estiver muito cansado.
Encontro o Salimo, um libanês meu conhecido, mas diz-me que não acha piada nenhuma, que estou a gozar com ele, e lá continua, mal humorado, um homem de negócios, e o Akbar, um paquistanês amigo, também recusa as minhas desculpas, e diz-me para ter juízo, o Ferreira veio ter comigo, saíu do Banco quando lhe disseram que eu estava cá em baixo, e também o Bacelar que ainda aí está, ia a passar de carro, ambos a perguntarem se havia algum problema, mas não os percebo, não querem vir connosco pedir desculpas, eles que até são uns tipos óptimos, não estão sensibilizados para o assunto, deve ser isso.
A polícia pediu-me a identificação, foi uma chatice, esqueci-me dos papéis em casa, mas lá perdoaram quando lhes pedi desculpa, duplas desculpas, apesar de a princípio julgarem que estava a brincar. Foi um erro não trazer documentos mas vim sem a carteira, só depois é que poderei vir entregar dinheiro para me ressarcir da nossa brutalidade, e parte hei-de dar às ongs que são a sociedade civil, outra parte às igrejas nacionais, e aqui não ligo às diferentes crenças, todos partilham um Deus comum, não é?, só não vou dar à Igreja Universal do Reino de Deus, parece que são muito aldrabões, e a outra parte hei-de dar aos pedintes, mais aos velhos e aos aleijados, coitados. Às pessoas com quem vou falando é que não poderei vir a dar, bem que lhes peço as moradas para ir depois lhes entregar pessoalmente o dinheiro, mas não mas dizem, desconfiam de mim. Eu explico que não o posso dar de imediato, não estou muito abonado agora, mas estou à espera de uma consultoria para a U.E. e prometo que depois irei distribuir os marcos que receber, ou os dolares, não interessa. Mas nem assim...
Parece-me que ao princípio acharam estranho, mas agora já não, continuo a pedir as desculpas, há ainda tanta gente a que não pude falar, aliás cada vez há mais gente que me quer perdoar, vejam lá a quantidade de pessoas aqui em redor, e sei que estão a gostar da nossa atitude, vejo-o nos sorrisos, ouço-o nos risos, é uma pena a minha mulher ter-se ido embora, bem insisti para que ficasse mas preferiu voltar para casa com a Isabel que apareceu por aqui com a Cristina, compreendo pois estava muito comovida, até chorava, ela é muito sensível.
Eu agora vou até ali à Praça da Independência, aliás lá na Fortaleza tenho que pedir redobradas desculpas, e também hei-de ir até à estação, e peço desculpas pelos mortos da I Guerra, fico contente por outros se me estarem a juntar, chegaram os Fernandos, bons amigos, mas afinal só querem assistir, mas sempre é solidariedade, penso que as pessoas em redor também o vão sentir.
A rapaziada amiga que está por aqui acha que já pedi desculpas de mais, que já chega, convidam-me para almoçar, ou talvez uma cervejinha, mas hoje não é dia disso, ainda há tanta gente para abraçar, fico contente com esta delegação, vieram do Núcleo de Arte, ah, os amigos pintores, ainda bem que vieram, peço-vos desculpa, estão vocês a ver?, tão bem aceites foram, Mestre dê aí mais um abraço, lamento muito...Ir até ao núcleo ver as novas obras?...é pá, obrigado pelo convite, é uma honra, e é sempre um prazer, irei amanhã com todo o prazer, mas desculpem hoje prefiro ficar por aqui, na baixa, olha as meninas da feira, vou pedir desculpa, estas continuam a ser escravizadas, colonizadas, não Jaime, não estou perturbado, não me aconteceu nada, então que cara é essa meus amigos, só estou a fazer o que o meu governo fez, mandou fazer, o nosso governo somos nós, não somos?, é apenas preciso ter coração grande... Ó Ana, que é isso, não aconteceu nada aqui ao Texeira, dá cá um abraço de desculpas, mais um beijo, lamento muito, diz-me um poema.
Vejam, como a cidade é pequena, afinal todos nos encontramos, até cá está o motorista da minha mulher, o Lopes, ó Lopes vem cá, tu és um velho colono, vem também pedir desculpa, que dizes? Vieste buscar-me...? ...chamam-me? quem?, problemas que só eu posso resolver ...? nada, quem sou eu ... não resolvo nada... a sério, ó pá! ó Bacelar não me empurres, ó Fernando não me agarrem, Jaime, está quieto, ó Lopes não me leves... não há problema nenhum, só quero pedir desculpa, é pá! larguem-me, vejam o pessoal a aplaudir, eles estão comigo, não me tirem daqui, não têm direito, eu estou bem, porra vocês estão a magoar-me, só quero dizer que lamento, pedir desculpa, desculpa. Vejam, eu tenho razão, todos a acenarem, a rirem, estão-me a compreender. Ò pá, que raio de amigos fui arranjar, deixem-me...
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Ok, ok, estou mais calmo, vamos lá ao Rodízio, comer bem também alivia, mas é para atacar valentemente no carrinho das aguardentes, não é?? Pagas tu Fernando?, porreiro, que não trouxe a carteira, estou à espera de umas consultorias, já vos contei?? sim!? desculpem lá, repito-me, é da impaciência.
Aperitivo? um gin duplo, mas abra já um Esporão reserva para respirar, tinto claro... O qué? ... o mercado mundial? ó pá, sobre isso não é para pedir desculpas, eu cá sigo o meu Governo, o meu Estado, muito respeitinho, era o que faltava. Desculpas por isso, é pá, essas ficam para daqui a umas décadas.
Qué?...afinal não estou assim tão maluco? Mas é claro que não...também vocês, têm cada ideia!
Sim, sim, Massinga, queremos rodízio para todos, e bom apetite.
Nada a ver com nada, mas como se sente o emigrante quando à noitinha vem ler os jornais da santa terrinha? Que dia...
1. A ministra do ensino superior (ou alguém lá no estaminé) pede a lista nominal dos grevistas - isto ultrapassa todo o imaginável, tudo...;
2. A ministra da justiça (ou alguém lá no estaminé) viola a lei e incorre (em abstracto) em pena de prisão - isto já é imaginável, até muito;
3. O ex-presidente da câmara da Guarda parece que sempre vai preso - isto é que é totalmente inimaginável;
[Meia-noite, calor de suar, Hejira no Shadows and Light, repetido até fartar]
Um puto morre. Morte abrupta, até absurda, morte puta!
As imagens passam em directo. Depois em diferido. Repetidas e repetidas! E assim passam de notícia a ilustração ... um puto morre e é ilustração.
E os patrícios, putas, olham a ilustração.
E a quem as põe no ar, puta, não irá acontecer nada. Nem um escarro...
(ser estrangeiro aí, ser estrangeiro aí...)
Este Natal ofereci à minha mais-que-tudo a sua primeira Anita, "No Jardim Zoológico", ainda que ela mal fale (disse hoje "abião").
Primeiro (egoísta) pus-me a ler, e a reviver as maravilhosas recordações daquelas cores, das ilustrações, e de quem me lia tudo aquilo, me encantava (e me dava sumo de groselha).
Segundo (papá) deliciei-me a mostrar todos os animais do Zoo, "o Gato" (é leão, mas há gato em casa), "a Girafa", "o Urso", "a Zebra", e os outros, e a animar todos eles com os bonecos correspondentes que por cá abundam - e a miúda a apontar um homem gordo diante de uma jaula, e a gritar feliz "papá, papá!!" e o meu ego, enfim, o meu ego coitado...
Terceiro (motorista) pus o carro na revisão, para irmos rápido ao Kruger avivar os bichos todos.
Mas, passo atrás, volto ao Natal. Ao comprar-lhe o livro trouxe outro, o extraordinário "Anita no Circo", para ofertar à filha de três anos de um casal aqui expatriado que viria partilhar a ceia. Chegada a hora dos presentes e os pais da miúda um bocado engasgados, até desagradados "ah, nunca lemos isso", e a mãe quasi entre-dentes a dizer que já os seus pais achavam aquilo muito reaccionário (e isto há mais de trinta anos), e portanto nunca tal tinha entrado em sua casa. E eu meio-aflito, mais valia ter estado quieto, que não me quero meter na educação de cria alheia. Enfim, foram gentis e à saída lá levaram a peçonha sexista e fascista para casa, não sei que destino lhe deram.
"Pronto, paciência, o que vale é a intenção", ecoava-me a mãe da minha, a acalmar-me os resmungos enquanto levantávamos a mesa da janta, eu para ali num "ele há cada um, é só malucos, que paranóias...". Realmente que triste gente é esta que consegue desgostar da Anita por causa de uns pinduricalhos que lhes meteram na cabeça.
Hoje estou a ver blogs, alguns que nem conhecia, e dou de caras com quem "deteste":http://bde.weblog.com.pt/arquivo/058217.html a Anita, hirsuta a protestar com os tais estereótipos, e ainda com um "desbragado":http://alexandre-monteiro.blogspot.com/2004_01_01_alexandre-monteiro_archive.html#107486657922706510 defender a dita, com uma acidez que corrói a própria Anita.
Não há dúvida: "estes romanos são loucos". Como se existissem coisas para miúdos, e das quais eles gostassem, que não tivessem, fossem, estereótipos. E como se valesse a pena tais protestos com estes feminismos serôdios, cegos ao ridículo e eles-próprios os maiores reprodutores de clichés, por puro fastio, diga-se.
Lembro-me a chatear os meus (óptimos) pais, a querer pistolas. E eles fiéis ao "não dar armas às crianças". E a desistirem, talvez já fartos da minha insistência, talvez por terem percebido que combatia eu com armas emprestadas e a melancolia que isso me causava.
A alegria que eu tive com a minha pistola de fulminantes! Ah, e a minha bisnaga vira-bicos, ainda hoje me aviva lembrá-la. Tais experiências seguindo as luminárias ditas de "esquerda":http://bde.weblog.com.pt/arquivo/058217.html ter-me-iam tornado um assassino em série ou, pelo menos, um militarista exarcebado. Mas não, apenas me tornaram cansável face a estas ininteligências disfarçadas de hermeneutas.
[e falta-me o tempo para aqui lembrar todas as maravilhas da Enid Blyton, Salgari, Os Pequenos Vagabundos, Verne, Karl May, mais os etcs, já para não falar nesse terrível "brincar aos médicos" - mas que gente infeliz]
AS CORES NA VÉSPERA DO ECLIPSE
É o que acontece ao viver em país iluminado não só por estas tropicais cores mas ainda por poderosos espíritos, segundo os bardos locais, ou por relapsos deuses, a acreditar no real. Pois só em tais paragens um eclipse solar determinaria dia feriado para colectiva homenagem aos astros intercalados.
Nessa véspera abandono-me na esplanada dos escritores onde me surpreendem louvores a lowrys e celines, que por aqui nunca tinha escutado. Loas logo partilhadas e que estendemos nas cervejas, que tais assuntos puxam a sede, a minha e a dos presentes literatos, desses que a voz burguesa vem resmungando de incoerentes. Pois também aqui, como por todo o lado, incoerência é vista como se falsidade fosse.
Entre bebidas havemos de evoluir, que as palavras são como as castanhas do cajú e a lógica um enigma, da celinada para as vantagens da circuncisão, apenas aparente paradoxo, que aqui se trata da banta e não tanto da judaica! É-me deliciosa a veemência com que alguns de imediato afrontam e vituperam esse prepúcio que deixaram na tenra infância. Mas logo, sábio, o mais velho desvaloriza a questão, uma bela lição sobre diferenças culturais que sigo e aplaudo, aliviado na minha dupla condição de antropólogo não circuncisado.
Assunto rematado e continuando tão díspar conversar posso enfim decifrar os meus desaires profissionais. Confessa um poeta vagabundo ter encomendado trabalho feiticeiro contra mim, apenas por despeito, di-lo agora, alguma irritabilidade minha o terá ferido. E assim impiedoso ceifou as minhas ambições, tão fracas que cederam às imprecações. De média mac mahon em média mac mahon sabê-lo-ei arrependido de tal acção, o que creio sincero pois a conta não está a meu cargo. Hoje, aliás ultimamente, vai dizendo que sou um preto branco, "este texeira", diz já ébrio, "enganou-nos, branco preto". O mesmo mais velho, o da mesa e das letras locais, repete a sua legítima autoridade resmungando o desinteresse destes argumentos coloridos. Vozes afirmam-no, repito-me, incoerente. Pois não é por essas que o deixarei de saudar, enrolando-nos cervejas quando fazemos calhar.
Já noite parto, algo atrasado e um pouco turvo, para um repasto português, eis uma bela patrícia que por cá se faz balzaquiana, ocasião festiva para juntar o pequeno Portugal local. Um mundo burguês que aqui vive fechado, cercado e cerceado, gente num país que nem se lhes abre nem tão pouco fazem abrir. Casais deslocados e uns poucos solitários sempre suspeitos, convívios cruzados tecendo amizades frágeis ao canibalismo crítico, esse tão próprio à clausura. Pois se é certo que de traços diferentes se faz o mundo, bem difícil se torna reencontrá-los entre nós, aqui feitos tão iguais por toda esta distância de casa. E tanto assim o é que logo em mútuos maldizeres nos cruzamos, acreditando que venha a ser todo esse fel o cimento das nossas bem necessárias e retemperadoras hierarquias, tão confundidas foram estas à passagem do Equador.
Lá chego "a mais a minha senhora", e logo justifico a mesa bem de canto que me é destinada dando boçais pares de beijos, castos e cândidos é certo, nas faces das senhoras presentes, aquelas que se querem, e dizem, habituadas a um único e esquivo roçar. Pois por cá, como na mãe pátria, não é fino quem o diz mas sim quem é parco em beijoquices, e não estou para aqui a falar em quenturas noctívagas. E lá ficamos com os nossos à mesa, também nós ancorados nesta nossa pequena diferença. Gauchisme...incoerente?
Rezam as crónicas que a branca burguesia colonial bebia, fazemos nós os possíveis por honrar os antepassados, e nisso sim refazendo um lusófono Império. Em esplanada bem menos celiniana que a anterior, mas nem por isso menos lowriana, arrasta-se dignamente o aniversário até à madrugada. Deixam-me aí exercer a verve, corrosão liberta pelos líquidos que a cruzam, até se me toldar a língua, equivalente pouco canoro da dor de voz, eclipse sonoro pouco notado pelos presentes, uma indiferença que não deixa de me ferir.
Avançamos então até à Bagamoyo, a Rua Araújo como teimam cúmplices os boémios de todas as gerações, eu acompanhando um casal desavindo, acicatados nas garrafas havidas. Acotovelamo-nos na antecâmara de dançaria, mas logo cedemos ao ímpeto de um cabeça rapada na sua urgência do ruído frenético. Meio cavalheiro, meio maçado, mas nada prudente, oponho-lhe o braço embrulhando o protesto. Certo de que na noite todos os gatos são pardos esqueço-me minoria étnica, logo mo lembra um redondo "vai para o caralho, ó filho da puta", lembrança que acompanha a de estar eu bem velho para violências nocturnas, se é que há idade para isso, sempre me pareceram apenas paixões frustradas.
Mas enquanto penso isso são os milhares de anos de mediterrâneo que brotam, essa cultura marialva do não virar a cara, e é ela que responde "vai tu!, tem calma e espera como os outros". Não será o tom, é mais a minha cor que o ofende, este não é poeta vagabundo di-lo o comprido "ó branco filho da puta, eu mato-te já, já viram este branco de merda, filho da puta, eu mato este branco!". Caramba, não tenho mesmo idade e paciência para isto, "ó pá, se tens uma arma dispara, senão vai à merda e cala-te" a ver se o homem se cala, mas ele quer mesmo é matar-me à pancada. É tudo uma breve bruma na noite, logo interrompida por um dos apinhados, as mãos nos meus ombros, com um "senhor adido", confunde-me ele de algures, "vamos lá para dentro que isto já está muito quente", enquanto me leva ao balcão.
Súbito está o nosso grupo festivo reordenado, nos apertos procuramos mais um copo, são anos a mais de noites para nos irritarmos com estes episódios. Mas eis que regressa o rapado, continua a querer matar-me, sempre lhe vou dizendo que lá fora será melhor, mas ele vai e vem com o refluxo da maré dançante. Entreolhamo-nos, os que ainda se olham, sinto-me velho e só, é quando me falta a paciência que o noto mais, e retiramo-nos calmamente, o orgulho de uma saída airosa couraçado com o chavão "estes gajos não valem nada".
É já dia no Índico, eclipsada a véspera do eclipse, sozinho ao volante vou matutando. O dólar cada vez mais radioso, uma gente cada vez mais sem nada, paradoxo linguístico expressando o assombro da vida deste povo. Serei eu um dia o procurado pelos esfomeados, fartos de o serem? Ou será esse jovem cabeça rapada, celular e bmw, óculo escuro na noite, escondido do mundo daqui que trata como patrão no seu apartheid caseiro, e odiando o mundo de lá, que raro lhe chega ao Maputo, ambos tão maiores do que ele?
E lembro num cocktail, aquele procurador, óbvio rural no modo como comprova o in vino veritas, feliz pois que em casa dele "os criados tratam-me por patrão, o meu pai era criado dos colonos e era assim que os tratava, eu exijo o mesmo".
Apago o cigarro, vou dormir para a Engels, apropriado nome para a zona da burguesia maputense. Mas à porta de casa ainda invectivo o guarda, que com alguém tenho que descarregar tudo isto, pois estou farto desta porcaria espalhada no jardim, é trabalho dele impedir que esses vagabundos da encosta venham revolver e escolher o nosso lixo.
Subo, enfim! Decerto fica ele a pensar que estes brancos, tão liberais, nem o lixo deles partilham.
Incoerentes?
Maputo, Setembro 2001

Ontem pela enésima vez a TCM (re)transmitiu-o.
Aqui entre nós, apesar de tudo continuo a achá-lo irresistível.
(para o hipotético leitor moçambicano ausente do país)
Ontem alguns amigos trouxeram-nos um presente da Macia:
um cesto com mel, bananas, maracujás, limões, mangas, cajus, castanha de caju (claro) e cocos (e até abacaxis, já me esquecia).
Vai resmungando a colega, verve imparável, inapelável, a transformar a curta boleia em bíblico lamento sobre o seu país, maldizendo-lhe passado recente e destino, parece-lhe que eterno. O mundo tal e qual vai sendo arrasta-lhe o ânimo, e assim procura anoitecer-me este sol de meio-dia que ali me inunda, reflectido na baía.
Falhou-lhe o futuro, afinal, a ela e a tantos outros. Conheço-lhes a maldição, também mo aconteceu mas, modesto, disso as causas são só minhas pois curtos eram os sonhos, que arquitecto de futuros ou engenheiro de presentes nunca me imaginei.
E enquanto vai ela remoendo, justificando-se até, olho o mar recortado em acácias, por ora vermelhas, belas ainda que também depósitos do lixo sempre esquecido. E salvo-me da solidariedade exigida num mero, e até cansado, “sou estrangeiro, só cá estou porque quero”, e como me riposta apelando ainda assim a um olhar crítico sublinho-me num “ouça, sou estrangeiro, eu olho a árvore, você olha para o lixo” que se quer, e torna, definitivo.
E cada um foi ao seu almoço.
Escrevi hoje sobre a raridade de blogs africanos.
Em Portugal há imensos. Alguns brilhantes, alguns deliciosos. Aí em baixo nos "Elos" coloquei alguns muito recomendáveis. Há blogs sobre tudo, os assuntos mais excêntricos - há tempos apanhei um, divino, dedicado a naufrágios. Há de tudo, e ainda bem.
E há imensos dedicados ao comentário político. Alguns muito bons, outros um bocado para o desabrido.
Estes desabridos, tão ácidos, à direita e à esquerda, tão prontos para a crítica do(s) poder(es) fazem-me tantas vezes lembrar a Lady Bracknell: “Never speak disrespectfully of society, Algernon. Only people who can’t get into it do that”. (O. WILDE, “The Importance of Being Earnest”).
Não haverá uns lugarzitos a ver se os acalmam?
E já que hoje para aqui estive a botar sobre blogs não me quero ir sem dizer o que acho disto tudo, e desde que ouvi falar deles pela primeira vez [o que agradeço ao Zé Guilherme, a desafiar-me].
Isto é tipo rádio-amador, quando era miúdo conheci alguns, fechados no sotão cheios de maquinaria a tentar falar/escutar uns tipos que nunca conheceriam. Sempre os achei um bocado malucos.
Para agora acabar nisto, uma banda do cidadão com (muito) pouco eco. Idade?
É noite e há mais de um dia que chove ininterruptamente em Maputo.
Os meus vizinhos têm as casas alagadas.
Aos milhares.
Com a Conferência de Genève do mês passado regressou o tema da fractura digital, que mais aparta desenvolvidos e não. E que é mais um espartilho para o futuro dos marginais na informática.
Noto-a a propósito dos blogs. Uma rápida busca confirma a raridade de blogs africanos. Por exemplo uma visita ao
, mostra que em 12 698 blogs inscritos (hoje) há 31 africanos (e 17 são sul-africanos). E grande parte são como este maschamba, ocidentais por cá residentes, e de passagem. Ou então são noticiosos. Ideias que se confirmam no
Em português detectei dois ou três brasileiros dos quais sinceramente não gostei. E apenas dois portugueses, colocados lá em baixo nos Elos: <
, um patrício na Guiné-Bissau, ainda um pouco espantado; e o
E, por fim, há o meu preferido, por ora muito calado mas sempre a (re)visitar, o
Pois, também nos blogs há uma fractura digital. Talvez seja pouco importante. Um blog é algo absolutamente inútil (característica que o aproxima da perfeição). E talvez seja esta a conjugação que implica a rarefacção de blogs em África: a tal fractura digital aliada a um grande utilitarismo da (parca) utilização informática.
A este propósito conto uma memória:
Há vários meses o comissário europeu para o desenvolvimento, um sueco (Nilsson?) visitou Maputo e conferenciou, anunciando em traços gerais as grandes linhas de apoio ao desenvolvimento eleitas pela Comissão Europeia.
Pareceu ríspido. [Confesso a minha dúvida, talvez que a habitual rispidez destes suecos muitas vezes não seja mais do que o eco metálico do seu sotaque inglês. Pois quando se começa a beber muitos até são uns tipos decentes].
Terminada a alocução entrou-se no debate. Interveio então o responsável local pela política de comunicações, Salomão Manhiça, notando a ausência de referências a um apoio à política de informatização, para ele crucial para o desenvolvimento. Aí Nilsson respondeu, rápido, e com a tal rispidez: "bem, fala-me em informática, mas eu estou preocupado é com a electrificação rural", ou seja para quê a informática se o povo não tem electricidade? (eu fiquei-me a olhar para o tecto a lembrar o velho "os sovietes e a electricidade" mas enfim, talvez seja o meu mau-feitio)
Fico-me pelo episódio. Que levanta questões sobre o "como fazer o desenvolvimento", talvez mais fundas do que as trazidas pelo tal comissário. Fazê-lo pela base, ou aceitar que há estratos sociais que dele poderão ser locomotiva? Acudir a tudo, ou aceitar que a manta não cobre o corpo todo, há sempre uns pezitos que ficam de fora?
Mas ao recusar, liminarmente, a importância de um apoio estrutural à informatização da sociedade o Comissário Europeu para o Desenvolvimento, foi claro (conscientemente?) em dizer que nem pensar em vanguardas sociológicas. Ou seja, a propósito disto traduziu o seu modelo de desenvolvimento. Será esse o entendimento europeu? Será explícito? [E nesse caso, não haverá por aí muitas contradições?]
Ou apenas a perspectiva individual de um indivíduo?
E que significa isso para o futuro? Para uma aproximação entre estes mundos, o ultrapassar o fosso gigantesco?
Enorme apontamento apenas para me questionar. Estará o comissário para o desenvolvimento (e todos os seus) conscientes das implicações sociológicas (e políticas) de uma breve e ríspida resposta a uma tão profunda pergunta?
Pompa e cerimónia, como aqui nunca tinha visto para lançamento de livro. A sede do "private" do banco patrocinador, lugar de gente bem, e naquele dia dela tão cheio. [E eu, gin na mão, a lembrar os diferentes - e mais vazios - dias do Babalaze das Hienas e do Contacto, mas enfim, morto é morto, mais fácil de homenagear].
O velho haveria de ter exercido a acidez, se por ali estivesse. Ele que ironizava de "urna" o mercedes que o transportava e até de "coveiro" o respectivo motorista, parece que adivinhava o adivinhável. Mas, vaidoso e cobrador de um reconhecimento que nunca lhe era excessivo, haveria de ter gostado. E também do livro, até capadura, ainda que depois fosse para casa protestar aquelas gralhas de prefácio.
Estou a falar do social. Que lá de dentro se calhar...poemas fechados na gaveta quarenta anos, e ele que até publicou poemas de prisão: Cela 1. Optou? Se calhar não, pois estes textos não o acompanharam durante muito tempo. Mas isso são as eternas questões do baú. Publica-se os restos ou não? Há muita tralha que sai por causa disso, mas há sempre o Kafka e o Brod para legitimar rapar os fundos do tacho.
Muito do que aqui surge tem interesse histórico. O que poderá não ser o melhor para poesias. Mas não lhe vem particular mal por isso. Ainda que o tempo seja impiedoso para algumas coisas, talvez mais próprias lá para os 70s: "Pergunta a Ernest Hemingway" serve de exemplo.
Mas estou aqui para a minha garimpa. Então lá vai:
Para aqueles que se tanto se incomodam com os requebros da língua, arranca-se aqui um "Já me desapetece a poesia"....
E, já agora, para tantos racialistas de Maputo (até para os meus amigos que me fazem sentir uma espécie de negativo do Sidney Poitier): "Que nesta mulher que passa/também há um ventre de mãe/ e não é branco nem é negro/ o ovário na gestação" - mas esses hão-de protestar o velho, agora que morto, e por razões várias.
E, ainda, para todos, a verdadeira grandeza de homem, corajoso para escrever
"Era não!
mas o tabaco
é um vício.
E o vício
fumado nas omoplatas
põe-nos sobre a língua a nicotina
e descerra os lábios
para o sim"
Porra, bem mais homem do que todos esses que se dizem Homens.
Há alguns anos visitei um congresso de História de África. Encontrei à fala um historiador moçambicano. Dissertava ele, preocupado, sobre a necessidade de afirmar e desvendar os heróis moçambicanos, escassos ainda, desconhecidos muitos.
Imaginem os sorrisos dos colegas internacionais, peritos em "descontruir" mitos heróicos, todos cá fora, gozões e paternalistas. "Meu Deus, eles andam à procura de heróis", que coisa, "deve ser para pôr no nome das ruas", ainda ironizou alguém.
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Acabo de mudar de casa (daí ter andado ausente deste maxamba, entretido a arrumar o estaminé). Vivi aqui anos numa rua de nome verdadeiramente comunista. Agora estou numa rua cujo nome é de um obscuro rei português. Via email enviei aos amigos a nova morada. Logo recebi de colega/amigo um grande abraço, que fosse eu bem-regressado a Portugal, como se fosse um "até que enfim, que já por lá andavas há muitos anos"
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Há alguns anos visitei um congresso de História de África. Encontrei à fala um historiador moçambicano. Dissertava ele, preocupado, sobre a necessidade de afirmar e desvendar os heróis moçambicanos, escassos ainda, desconhecidos muitos.
Imaginem os sorrisos dos colegas internacionais, peritos em "descontruir" mitos heróicos, todos cá fora, gozões e paternalistas. "Meu Deus, eles andam à procura de heróis", que coisa, "deve ser para pôr no nome das ruas", ainda ironizou alguém.
O arquitecto da casa da Catembe será José Forjaz, aqui figura relevante. A seu propósito lembro um artigo na Visão (e aqui reproduzido no Savana) do prestigiado sociólogo Boaventura Sousa Santos, que se debruçava há alguns meses sobre personalidades de relevo em Moçambique. Entre outros louvava Forjaz, pois tinha sido escolhido para construir a casa de Kofi Annan. E dele dizia mais ou menos isto: que era capaz de reproduzir como ninguém os valores africanos.
Eu pus-me a resmungar, e ainda estou. Será que alguém me poderá elucidar, o que é isso de "valores africanos"?
Em Lisboa o "Publico" ecoa a construção de uma residência oficial destinada ao futuro ex-presidente Joaquim Chissano. Diante da habitual parcimónia de notícias sobre Moçambique este interesse não deixa de indiciar uma crítica implícita, tipo "um país tão pobre e a gastarem dinheiro desta maneira".
Incompreensão radical. Goste-se ou não Chissano é um estadista de renome, e importante em África. E o Estado deve garantir-lhe a continuidade da dignidade "presidencial" para o futuro. Até para o utilizar como património político internacional. E, formalmente, deve assegurar essas condições.
Desenvolvo este raciocínio e dizem-me que este meu relativismo é perigoso. Aí irrito-me, e mesmo. Não é relativismo, é comparativismo, coisas totalmente diversas.
Pois esses moralistas doadores não têm, tantos deles, a inacreditável instituição monárquica, toda aquela gente vivendo e habitando os erários públicos? "Ah, mas os povos vivem muito melhor". Talvez, mas não o viviam quando os respectivos casarões foram construídos.
E, o que é realmente importante, está-se no domínio das instituições políticas e das personagens que as vivem. E por mais que não se queira gostar de Chissano é bem mais importante nesta História do que qualquer rei burguês desses nortes gélidos. Então que seja assim simbolicamente tratado.
A minha rua até hoje. Narrada há cinquenta anos
o desmaiado sol
deixa que renasça
o fim da tarde
buganvilias reluzem nas
profecias e mitos
sol
de ausencias
submarinas estrelas
de violencias e desejo
as silhuetas de barcos
desenham tragicas
viagens,
dragoes e anjos
a cores percorrem
o poente,
retratos antigos
renascem
vozes e poeiras
lanhos
no viço da raiva.
Da morte, a visao
Se veste de vida
Confundem-se de vida,
Confudem-se mares
E ilhas, amor e
Odio
O fogo
Sobre as ondas
Resiste
O saber da lingua
Invade
O corpo inteiro
Cerro os olhos,
Mordo os labios
E o mar estremece.
(V. Lemos, Negra Azul, 1998)
Aqui longe vejo o meu país indignado, remoendo cartas anónimas e discutindo-lhe o estatuto, como se não fossem lixo. Até arma política as imaginam, arremessada contra a actual oposição. Com a sageza que lhe é natural Francisco José Viegas encerra no Aviz qualquer discussão sobre a matéria.
Mas antes vi uma perspicaz abordagem histórica de Helena Matos, nada do agrado de Vital Moreira no Causa Nossa, colocando o cerne na recepção das cartas e seu tratamento: “A questão do destinatário é crucial quando se trata de cartas anónimas. É o destinatário e não o remetente quem define a fronteira entre a dignidade e o aviltamento quando se trata de cartas anónimas...É [nele] que muda a natureza das cartas anónimas quando se trata de ditaduras ou democracias. É no destinatário que se inicia o processo de separação entre o que é apenas um reflexo do ódio e da maldade e o que é a expressão de um problema...”
Já que se apelou à história então surjo com a etnografia. Um episódio recente, tempos em que a oposição era poder, a querer-se prova de que estas tralhas e seus agentes não têm partidos.
Mas têm outras coisas.
Há alguns anos trabalhei em Moçambique com um grupo de professores portugueses. Por razões várias, talvez mais logísticas que outras, neles grassava a inimizade. Fui de antemão avisado da regular emissão de cartas anónimas vituperando personalidades e comportamentos, e cujos detalhes denotavam uma autoria interna ao contingente.
Logo recebi a primeira carta, e depois outras. Algumas fingindo um português básico de quasi-iletrado local, outras nem tanto. Comunicava-as aos visados, num quase jocoso “olhe, lá veio mais uma carta” que se cria e queria apaziguador de uma gente sempre receosa de que uma má imagem assim construída significasse a não renovação de contratos, esta sempre decidida com a tradicional subjectividade lisboeta, tão tortuosa é ela. Se os visados as queriam ler faziam-no. E depois cloaca abaixo.
Uma nova direcção da tutela surgiu. Emanação pura de segmentos intra-partidários, praxis socialista oblige. E foi então que recebi uma comunicação oficial: a cópia de duas páginas sobre vida pessoal de uma das professoras, entre as quais lembro ser denunciada a sua frequência da esplanada do Hotel Polana.
Carta anónima assim tornada elemento de arquivo, no seu dossier pessoal. E espalhada pelos diferentes serviços do ministério da tutela (e quem se nega a ler uma tralha destas?), assim aspergindo a senhora da universal dúvida, pois é radical o mandamento de que “não há fumo sem fogo” e as mais inócuas afirmações feitas acusações são sempre catalizadoras das imaginações.
Espantosa era ainda a instrução que acompanhava a cópia: “Queira comentar afirmações”. Lembro ainda a minha sucessão de pragas acompanhando a questão muda “mas porque raio não telefonaram”, de modo a que se evitasse toda aquela sujidade assim tornada pública.
Hoje sei o quão enganado estava. Eram tempos em que, talvez preguiçoso, seguia o Kypling de "Prefiro pensar sempre o melhor das pessoas... é uma atitude que poupa muitos aborrecimentos", e tomei o acontecido como um erro, a inexperiência de académicos recém-chegados à gestão da coisa pública, ao comando de pessoas.
Sei hoje que não é assim, é algo muito mais profundo, que essa manipulação das anónimas atoardas é uma estratégia de gestão. Que uma carta anónima é apenas o cume da utilização da delação e da maledicência como mecanismos de controle e de avaliação profissional em instituições desprovidas de veras estratégias formais (burocráticas) para os realizar. Porque lhes faltam as competências e os objectivos. E assim, nessa total irracionalidade por vezes surda por vezes gritada, legitimando as práticas nepotistas no seio da administração.
Por isso quando Helena Matos diz “É no destinatário que muda a natureza das cartas anónimas quando se trata de ditaduras ou democracias.” é fundamental lembrar que não são estes dois polos, que vivemos numa democracia polvilhada de ditaduras parcelares, gânglios que acoitam e reproduzem as lógicas patrimonialistas e até étnicas (aí chamam-lhe regionalismo) que vão suportando o exercício do(s) poder(es).
A carta anónima é um corolário. Arma não de partidos mas sim de um processo de ademocratização. Amoral. E como tal muito mais perigosas, profundas, estruturais, do que este triste episódio aparenta.
Pois agora explodem no reino da justiça. Referindo até, mas não sujando, o Presidente, símbolo e cidadão estimável (e do qual sou eleitor). E alguns dos seus pares, talvez sujando alguns, injustamente.
Mas não posso deixar de lembrar todos esses que assim vivem e se reproduzem. Hoje por certo muito indignados com a aleivosia que tocou os respectivos patronos. Mas firmes, convictos, das suas práticas, prontos para o regresso que ambicionam.
Uma pequena nota final: a tal professora não viu o seu contrato renovado. Outros, em similares circunstâncias, ficaram.
Renato Caldeira, Coluna. O Monstro Sagrado, Maputo, Edisport, 2003
O jornalista Renato Caldeira escreveu e publicou a biografia de Mário Coluna, o Monstro Sagrado. Uma desilusão. Num livro com tamanha documentação fotográfica exigir-se-ia muito mais cuidado (e até bom gosto) na impressão e na paginação do livro, bastante descuidadas. E já nem falo no recurso a cores, decerto que o preto e branco é uma opção devida aos custos. Mas com tanto benfiquista (e não só) por esse mundo não deveria o livro ter sido pensado para exportação? Neste estado duvido que ultrapasse o universo dos indefectíveis.
Não há dúvida, Coluna merece melhor.
O texto é superficial, um registo de entrevista suave entrecortada por breves declarações de algumas personagens que contracenaram com Coluna. Alguns episódios desgarrados (ainda haverá paciência para o jogo da Coreia?) e uma série de elogios, decerto que merecidos mas que surgem circunstanciais. Ficamos com uma ideia sobre o que fez Coluna, mas muito pouco sobre quem é Coluna, o que representou, de onde saíu e onde viveu, e acima de tudo, quase nada sobre o que pensa.
Não se pediria uma obra académica. Mas fica um enorme vazio. Da juventude, do filho de cantineiro português e camponesa changana, afastado da mãe com quatro anos, criado para o desporto naquela malha de clubes de LM que tanto representaram a estratificação da sociedade colonial, nada de substancial. Do jovem em Portugal tão pouco. Do mulato capitão do Benfica (aquele que era uma Nação, a dos “bons pais de família”) e da selecção dos anos 60 passa-se a correr. É um quase nada, à excepção do episódio do inspector da PIDE a torná-lo “branco”, ali a demonstrar o como a cor é apenas é estatuto, mas sem que o texto seja consciente.
E do homem que logo regressou a Moçambique, que o percorreu trabalhando, e onde é um Senhor. Que acha ele do seu país, da sua história?
Pela biografia Coluna é mais do que o Monstro Sagrado. Surge também como personagem-charneira do fim do império [e, caso alguém leia isto, charneira não significa duplicidade, que isto de más-vontades abundam]. Talvez mais do que qualquer outro vulto, pela importância simbólica que teve no Portugal de Salazar, pelo seu imediato papel em Moçambique. Daí a importância do seu olhar, o qual aqui não sobressai.
Enfim muito ficou para dizer, e acima de tudo, muito para perguntar.
Não há dúvida. Os admiradores merecem melhor.
Uma noite de leitura rápida de autor que nunca tinha lido. Luandino Vieira em “Vidas Novas”, - comprar em 2003 no Maputo um livro impresso em Havana, 1984, 10 000 exemplares (!), ah o socialismo real - e “A Verdadeira Vida de Domingos Xavier”. É certo que o autor escrevia na prisão, revoltado e sofrido, mas diante daqueles anónimos heróis e quasi-heróis, simples e populares, prenhes de futuro e justiça, fica-me a sensação que o tempo lhes passou por cima. Aos livros, entenda-se. Mas anda(va) bem de escrita, muito bem mesmo.
Uma frase deliciosa, que tantas vezes senti, mas que nunca consegui encontrar:
“Bebiana saiu. Vestia vestido leve e, descalça, dava ao corpo o mexer do mar” (42).
Em Portugal José Moreira tem sido um constante divulgador do que se produz em Moçambique, para isso bem usando o Expresso. Só agora me chega um exemplar velho de um mês (e como envelhecem os jornais, encerrados em tão urgentes e fundamentais factos) onde refere, e elogia, “As Duas Sombras do Rio” de JPBC, que bem o merece. Mas não lhe deixo de detectar, ainda que ali subreptícia, a queda para a dicotomia, que não só nele grassa, a vertigem em opôr os dois escritores moçambicanos, brancos, beirenses, quarentões, uns “ai, eu gosto mais do...do que do..”. Pensamento bipolar, que empobrece.
E já agora, tanto nele como noutros, porquê tanta angústia com quem escreve “desconseguir”, numa língua que se desdobra em “desfazer”, “desmontar”, “desenraizar”, “desenrolar”? Que “desprazer” é esse? Será desconsideração? Ou desprezo? Ou apenas desafecto? Ou, afinal, desatenção? Goste-se ou não dos livros que não seja pelo “desconseguir” entender o que não é assim tanto “forçado exotismo linguístico” (Moreira dixit, friso).
Chega por agora, vou ler, Aquilino Ribeiro hoje, que estou em maré de exotismos.