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dezembro 22, 2004
Conversa com o Luís Ene
Há tempos o Luís Ene e eu estivemos à tecla, a falar de bloguices. Ele gravou e deixou no hall de entrada. Agora que passou o mês em causa e há-de mudar a decoração, trago-lhe a k7 para aqui, fica memória em meu arquivo, coisa que alguns muito compreenderão. E à k7 troquei-a por um abraço.
24 novembro 2004
José Flávio Pimentel Teixeira
Nome? Zezé para os amigos, Flávio para os antigos colegas, Zé Flávio para os colegas quando decidem passar a amigos, Zé Teixeira em Moçambique... A única certeza é que ele tem Ma-schamba em África, mais exactamente em Moçambique.
O teu blogue é a tua machamba (ou ma-schamba)? O que cultivas nele?
Ma-Schamba é plural, significa mesmo as minhas "machambas", hortitas. Aqui tenho culturas várias, pequenas e mal amanhadas, de subsistência, nada dessas machambas tipo plantação, cultivo grande e cuidado. No princípio tinha plano mais ou menos, coisa quase estruturada, pensada. Depois virou cabotagem (cabotino?), coisas mais imediatas, menos pensadas. Claro, foi-se politizando, é o primado do pensamento rápido, pobre. Efeitos dos textos diários e do diálogo com outros blogards (prefiro a versão a la francófono), o que neste último caso é porreiro. Irrita-me quando falam de um "estilo post", quase como que normativo, ainda que apenas a norma da eficácia. Que cada um faça como quiser. Mas não há dúvida que a botadura diária prejudica. Pelo menos a mim, que caí na esparrela.
O teu blogue está em terra de Moçambique. Quais as consequências?
Muito menos do que eu desejava. É o que digo acima, pensei um blog sobre Moçambique. Não turístico e não saudosista, eu cheguei agora, um agora de oito anos. Cenas várias, viagens e quotidiano. Os livros, filmes, as outras artes. E notícias, a ajudar a quebrar o silêncio – catástrofes, corrupção, Mia e Mutola (e desta bem pouco), de que mais se fala aí sobre aqui? Neste campo acho que o Ma-Schamba falhou, distraí-me, desviei-me (saudades daí?). Da política local não posso falar: por razões ideológicas minhas, e já o escrevi, sou um emigrante de luxo, se estou mal que me mude; e por razões óbvias, aqui um “tuga” na faladura crítica é cultivar anti-corpos. Letais. Além de que sou cooperante, contratualmente proibido de qualquer actividade política. E esta, ainda para mais aqui, é uma alínea tão lata...
Por outro lado, e sem cagança, acho que me dá distância ao rame-rame daí. E quando mergulho no opinativo bloguístico sinto muito isso: há muitas certezas e poucas dúvidas, isso nascido dos clubismos ferrenhos, os do olhar para dentro, há muitos “coleccionadores de cromos”. Mas também há bloguistas (sim, agora lusófono) fantásticos: quando for grande quero ser como o Nuno Guerreiro.
Em tempos, se não estou erro, anunciaste que deixarias de editar o blogue. O que te fez mudar de ideias?
Sem hierarquia:
1) A Inês estava na Bélgica. Quando voltou eu disse-lhe que tinha morto o bicho, julgando que ela ficaria contente comigo menos tempo ao computador. Mas afinal disse-me que era uma pena, que era mais um dos meus impulsos, que reconsiderasse; 2) Vício; 3) pode parecer que me estou a armar, mas não estou, recebi mais de 100 comentários e emails do abraço à insistência, o que me surpreendeu tipo “porra, estes gajos gostam do que escrevo”, e em muitos ecoava que eu, afinal, carregava mesmo um bocado de um Moçambique que é o meu, que não sou representante de nada, que já não é o deles, mas que mesmo assim gostam. E comoveu-me, amaricou-me mesmo. O Carlos Gil do Xicuembo escreveu um texto que me deixou como se tivesse uma papaia entalada na garganta.
Mas acho que o blog piorou desde então, perdi qualquer coisa.
Em tempos deste também a cara no teu blogue, uma cara branca e barbada que não mais se deixou ver. Arrependeste-te?
Eu escrevo estas coisas para ser lido. Se muito divulgo o trombil quem é que regressará? Foi uma coincidência, tu a lançares o repto, e eu com uma história do Niassa com um episódio dos putos à minha volta a dizerem-me igual a Jesus. Aproveitei. Os meus amigos gozaram-me à brava, aquilo é um estereótipo. Mas para mim muito bonito.
Como te tornaste blogger? Qual é mesmo o teu nome para além das iniciais?
Eu já tinha um quasi-blog antes de saber. Escrevia textos e enviava a dezenas de amigos e conhecidos. Parte dessa tralha está blogada na categoria “Roupa Velha” e são o que mais gosto no Ma-Schamba. Engraçado que, com excepção de meia dúzia, nenhum desses receptores é visita do blog. Está visto que os chateava à brava, ainda que muitos respondessem, amáveis. Um dia um amigo daí avisou-me dos blogs, logo a seguir deu na RTP-África que o FJV e o JPP tinham blogs. Depois pipizei, até nos comments, que eram uma delícia, ainda que algo javarda. Convidaram-me para entrar num super-blog mas tive medo e baldei-me. Finalmente abri o blog com uma amiga, mas aí foi ela que se baldou. Mas ainda estou à espera, gostava muito de estar num blog colectivo.
Nome? Zezé para os amigos, Flávio para os antigos colegas, Zé Flávio para os colegas quando decidem passar a amigos, Zé Teixeira em Moçambique. Bonanza para os muito velhos e especiais amigos. Agora Pai Zé, também. Mas lê lá bem, o nome completo está no blog, bem à vista, qual “caseiro”.
Aliás, quando o Ma-Schamba tinha ânsias de estético-literário seguiu incógnito, só me identificava a quem perguntava. Mas quando comecei a opinar política espetei o tal “caseiro”: abomino a opinião política anónima. Nisso o que não tem nome não tem cara. Não se lê. Porque é lixo.
Queres deixar alguma mensagem?

Keep Walking [com poucas certezas, sff]
Publicado por Luis Ene at novembro 24, 2004 10:14
Publicado por jpt às dezembro 22, 2004 12:49 AM
Comentários
Li na altura e reli agora com o mesmo prazer.
Pomada?
Não, José Flávio Pimentel Teixeira, ver, ler, conhcer pessoas com coluna vertebral e cara lavada, como se costuma dizer, é para mim motivo de grande regozijo, preciosidade sem preço nos dias que correm.
Bem haja.
Publicado por: carlos a.a. às dezembro 22, 2004 01:27 AM
E os comentários? Não seriam de ser trazidos? Eles complementam a tua entrevista, e são a justa salva de palmas ao teu Ma-Schamba, digo eu.
Publicado por: Eufigénio às dezembro 22, 2004 01:41 PM
zé flávio (ler, antigos colegas que querem passar a amigos) um abraço e um grande 2005
Publicado por: jpn às janeiro 4, 2005 04:26 AM