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Ma-Schamba: Boliqueime e o resto

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novembro 16, 2004

Boliqueime e o resto

O previsto e previsível regresso de Cavaco Silva de imediato fez regressar a desvalorização de Boliqueime, a ironia sobre as origens sociais e familiares do político. Com esse insuportável reaccionarismo elitista já aqui me irritei. Mas ainda o processo vai no adro e já "Boliqueime" polvilha os blogs, e também os da minha preferência.

A coerência é um direito, nunca um dever. Acho mesmo que o verdadeiro dever é a incoerência, que o tudo que nos rodeia impede-nos o certinho coerente. Mas ainda assim este elitismo, disfarçado de ironia, muito me espanta proveniente que é de gente, bloguista e não-bloguista, que se afirma de "esquerda", mais ou menos igualitária mas sempre avessa a discriminações sociais.

Sei que não se restringe a isto. Como arma de arremesso político "Boliqueime" é um avatar de "Santa Comba". Fruto dos constrangimentos de um pensamento analógico encerrado entre o sebastianismo tardo-medieval e o salazarismo dickensiano. Então não só preconceituoso, mas também pobre.

Há ainda um outro factor. Cavaco Silva é inculto, e isso há-de chegar: o filho do gasolineiro de Boliqueime desprovido da cultura certa, também por isso mesmo salazarento. Esta é a "correcta" noção de cultura: se se confundir a escala de Richter com a de Mercali quanto muito recebe-se um sorriso complacente e suave explicação, se se disser que Pedro Gilles foi amigo de Thomas Mann é-se um imbecil, apupado na rua. É muito interessante ver como a crítica ao reducionismo economicista casa tão bem, e com tanto afinco, com tamanho outro reducionismo.

Dir-se-á que são factores diversos na formação individual, com diferentes efeitos na personalidade de um cidadão, de um político. [Já agora, permito-me dizer que de um primeiro-ministro do meu pais espero que esteja atento aos devaneios utópico-totalitários. Mas também às necessidades da construção anti-sísmica]. Com toda a certeza, mas a cegueira face a estes preconceitos muito diz da profundidade analítica das vozes críticas.

Sobre este último aspecto consulto as minhas memórias. Há alguns anos Cavaco Silva visitou Moçambique, então convidado para um seminário sobre a introdução do Euro. Nessa altura proferiu uma conferência na Universidade, sobre a integração europeia. Nunca aqui assisti a um conferência tão concorrida, gente sentada no estrado, nos degraus do anfiteatro, no chão, em pé nos corredores. Mas para além de concorrida a conferência foi absolutamente luminosa. Lembro bem a quantidade de moçambicanos nada cavaquistas que me vieram saudar, até explicitamente surpresos pela dimensão patenteada, apenas por ser patrício.

Se tivesse falado de Fichte, Bruckner, o cosmos, Dante, Suméria, sei lá, seria um homem de cultura. Para usar a triste metáfora que por aí anda, seria um homem que tinha ascendido de Boliqueime. Como falou de Monnet e de relações internacionais é apenas um homem de Boliqueime.

Publicado por jpt às novembro 16, 2004 01:32 PM

Comentários

Zé: Clap-clap-clap-clap-clap

Publicado por: ZF às novembro 16, 2004 01:44 PM

Pois sim, meu caro.
Confundir as escalas é um acto de ignorância, o resto é de cultura. Aos populares admite-se a ignorância, porque lhe pode ser imposta, mas... Não vou por aqui senão a caixa de comentários não chega.
Lá para o Tugir (sempre em sussurro) fica a mensagem para o Outro lado do Mundo.
Elitista, bhá!
Abraço

Publicado por: LNT às novembro 16, 2004 06:15 PM

Meu caro LNT, um dos pontos que me apetece aflorar, nesta linguagem quasi-telegráfica de blog é exactamente a justeza dessa distinção que V. recoloca entre o que é ou não cultura. O exemplo das escalas (que V. agarra) para significar a desvalorização neste contexto de largo espectro do saber, o dito "científico", mas que vejo também como cultural, está aqui como vénia ao físicosLX, blog que aprecio - mas podia optar por um mais rebuscado, com ar mais epistemológico, talvez menos rebatível à primeira vista. A um outro nível, quanto ao elitismo (e este auto-comentário já não está nada telegráfico) não é uma pedrada - mas se alguém vier dizer, desvalorizando-me, que eu sou um bloguista dos Olivais, o que é isso? Não é reduzir-me porque não do então centro de lx? Se alguém vier gozar comigo porque o meu pai é engenheiro, isso o que é?
Francamente bater no cavaquismo, no cavaquistão, na falta de sentido democrático desse tempo, nos eucaliptos "petróleo verde", na auto-estradização do país et al tudo bem. Agora acho lamentável continuar a gozar com a aldeia e a gasolineira. E este achar lamentável é uma posição ideológica. Mas deve ser por isso que me dizem de direita

Publicado por: jpt às novembro 16, 2004 07:02 PM