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Ma-Schamba: O Balcão

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outubro 29, 2004

O Balcão

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O edifício dos Correios de Moçambique, na 25 de Setembro, é um dos mais antigos de Maputo. Brilha numa Baixa algo descaracterizada nas últimas décadas e que actualmente sofre alguma desqualificação, talvez inexorável, pois o centro da cidade dela se vai afastando. Até ao longo da própria avenida, algumas centenas de metros apenas, com a zona da FACIM animada durante os últimos anos por via de novas construções de uma arquitectura anódina.

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Também por isso a manutenção do edifício dos Correios, bem como o muito similar que alberga a Biblioteca Nacional, assume particular importância, a preservação de uma memória arquitectónica, de uma identidade histórica da cidade.

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Mas para além disso a sede dos Correios tem uma componente belissima. A sua enorme sala de atendimento é ladeada por dois antigos balcões em madeira, peças únicas e que lhe dão um insubstituível carisma.

Pois soube-se agora que uma parte de um dos balcões vai ser removido para possibilitar o acesso a uma sala pública de internet, a instalar.

O pressuposto é óbvio. Há a consciência da importância histórica, e até da beleza dos balcões. E da importância da sua manutenção. Mas esta não implica a sua completude. Ou seja, a ideia de que o património (identitário) se mantém ainda que fragmentário. Um compromisso letal, que assume a parcela como a coisa-em-si. Compromisso que não sente a estética, que não entende a função. Compromisso que desvaloriza os itens a preservar e que, em última instância, os condena ao desaparecimento, num futuro dia em que serão desvalorizados porque inúteis e, exactamente, fragmentários.

Pois um diferente, e mais esclarecido, entendimento do que é uma peça patrimonial poderá salvar a integridade destes balcões. Que um dia poderão orlar uma sala de visitas ou até núcleo museológico dos correios moçambicanos. Que por enquanto aconchegam e servem os utentes.

Os correios têm instalações amplas. Decerto que com alguma imaginação poderão encontrar uma opção, fácil e barata, para outra via de acesso à muito bem-vinda sala pública de internet.

Consta que nos finais dos anos 1980s houve um projecto de remoção destes balcões. Então os alunos de Arquitectura intervieram, assumindo a sua manutenção como causa. Será que os arquitectos de hoje e alunos de ontem ainda terão tempo e paciência (e energia) para colaborar numa outra solução?

Publicado por jpt às outubro 29, 2004 01:30 AM

Comentários

Antes de mais, obrigada pelas fotos! _ sou do tempo em que para se telefonar para fora da "província ultramarina", no Natal, por exemplo, se tinha que ir aos correios. Tantos anos depois, pergunto: e não há forma de formar um clube dos amigos da arquitectura colonial? _ uma forma, ainda, de preservar a história...

Publicado por: IO às outubro 29, 2004 12:08 PM

eu, honestamente, gostava mais de um clube de amigos da arquitectura. sem acinte, claro. é que há cada mamarracho

Publicado por: jpt às outubro 29, 2004 12:12 PM

Pergunto-me se a Io não será do meu tempo.
Eu também ainda sou do tempo em que precisava de sair de casa para mandar uma carta a alguém...
Também não é preciso recuar muito no tempo. Provavelmente a geração dos meus filhos também diz o mesmo.
Estas imagens trazem-me recordações do tempo em que namorava de aí para cá e ia aos correios pôr as cartas e os telegramas.
A nostalgia não ofusca contudo os meus dias de hoje, o meu presente. Estou de bem com o meu tempo e com a minha vida. Há um lugar para a saudade, para o passado e há um lugar para a fruição do presente.
beijinhos JPT

Publicado por: madalena às outubro 29, 2004 04:04 PM

madalena, só fui mais abrangente

Publicado por: jpt às outubro 29, 2004 04:23 PM

Ui, a q romagem de saudade da minha infância me levaram estas fotos de lugares da minha cidade das acácias vermelhas :) deixa-me ir buscar um lenço! (snifff...)

Nada sendo dada a saudosismos estou, no entanto, absolutamente de acordo qto à defesa de patrimónios susceptíveis de constituir, de forma até pedagógica, as raízes históricas de uma nação. O colonialismo foi, para o mal e pª o bem, uma parte dessa história e há mtos casos em q o q se construiu por aí é mm mto melhor do q o q temos por cá. Se calhar vale a pena lutar pª q a acefalia e o quase tribalismo-novo-riquista de alguns jovens países não sejam mais destrutivos do q o pode ter sido o passado.

Publicado por: m. às outubro 29, 2004 07:00 PM

Glup!!, para que não haja qualquer possível confusão, considero o dia da Independência de Moçambique um dos mais felizes da minha vida!!! _ e, já agora, cá vai, para a M, sou de 1957. Abraço a todos, IO.

Publicado por: IO às outubro 29, 2004 07:06 PM

Sou de depois de 57 :) Só acrescento, IO, q esse dia devia ter sido mais cedo.

Publicado por: m. às outubro 30, 2004 06:10 PM

Totalmente de acordo, m. Afinal, ainda és mufana! _ somos todos, felizmente!!! Abraço, IO

Publicado por: IO às outubro 30, 2004 07:01 PM

São mufanas as duas, sim senhoras!
Eu sou de antes de 57, mas desse tempo as memórias são um pouco como as fotos do JPT: insinuantes de uma beleza irrecuperável.
Não desconfio da tradução da realidade das fotos, mas duvido muito das minhas memórias...
As fotos são materiais. As memórias, não.
O que aconteceu ao edifício do John Orr?
Também era um marco, na Avenida que então se chamava da Républica!
Antes da Facim, antes de haver sequer exposições em Moçambique, havia um Luna Parque, com uma montanha russa enorme e um carrossel daqueles lindos, como os do cinema.
Um beijinho JPT. Um beijinho às mufanas também.

Publicado por: madalena às outubro 31, 2004 12:05 PM

obrigado - sinceramente acho porreiro tornar isto um ponto de encontro. quanto ao john orr na av. 25 de setembro ainda lá está, hoje a sede do BCI (a caixa geral de depósitos em Moçambique). Sofreu uma remodelação de arquitecto - fará as delícias nas revistas da especialidade, nos congressos, nas exposições. A mim, miserável leigo, começou por ser um ferro em brasa nos olhos (tipo miguel strogoff do verne). Com o tempo, cauterizada a sensibilidade, nem reparo no monstro - aliás, esta crosta na sensibilidade humana é o que evita o empalamento generalizado dos arquitectos - mas isso é conversa para outros dias

Publicado por: jpt às novembro 1, 2004 01:22 AM