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Ma-Schamba: A Anita e o Sexismo (mais um bis)

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agosto 26, 2004

A Anita e o Sexismo (mais um bis)

[há uns meses escrevi isto. Agora biso, até porque a Carolina quando chega à Escolar Editora vai logo a correr para o cantinho dos livros infantis, onde já sei qual a colecção que prefere. ]

***

Este Natal ofereci à minha mais-que-tudo a sua primeira Anita, "No Jardim Zoológico", ainda que ela mal fale (disse hoje "abião").

Primeiro (egoísta) pus-me a ler, e a reviver as maravilhosas recordações daquelas cores, das ilustrações, e de quem me lia tudo aquilo, me encantava (e me dava sumo de groselha).

Segundo (papá) deliciei-me a mostrar todos os animais do Zoo, "o Gato" (é leão, mas há gato em casa), "a Girafa", "o Urso", "a Zebra", e os outros, e a animar todos eles com os bonecos correspondentes que por cá abundam - e a miúda a apontar um homem gordo diante de uma jaula, e a gritar feliz "papá, papá!!" e o meu ego, enfim, o meu ego coitado...

Terceiro (motorista) pus o carro na revisão, para irmos rápido ao Kruger avivar os bichos todos.

Mas, passo atrás, volto ao Natal. Ao comprar-lhe o livro trouxe outro, o extraordinário "Anita no Circo", para ofertar à filha de três anos de um casal aqui expatriado que viria partilhar a ceia. Chegada a hora dos presentes e os pais da miúda um bocado engasgados, até desagradados "ah, nunca lemos isso", e a mãe quasi entre-dentes a dizer que já os seus pais achavam aquilo muito reaccionário (e isto há mais de trinta anos), e portanto nunca tal tinha entrado em sua casa. E eu meio-aflito, mais valia ter estado quieto, que não me quero meter na educação de cria alheia. Enfim, foram gentis e à saída lá levaram a peçonha sexista e fascista para casa, não sei que destino lhe deram.

"Pronto, paciência, o que vale é a intenção", ecoava-me a mãe da minha, a acalmar-me os resmungos enquanto levantávamos a mesa da janta, eu para ali num "ele há cada um, é só malucos, que paranóias...". Realmente que triste gente é esta que consegue desgostar da Anita por causa de uns pinduricalhos que lhes meteram na cabeça.

Não há dúvida: "estes romanos são loucos". Como se existissem coisas para miúdos, e das quais eles gostassem, que não tivessem, fossem, estereótipos. E como se valesse a pena tais protestos com estes feminismos serôdios, cegos ao ridículo e eles-próprios os maiores reprodutores de clichés, por puro fastio, diga-se.

Lembro-me a chatear os meus (óptimos) pais, a querer pistolas. E eles fiéis ao "não dar armas às crianças". E a desistirem, talvez já fartos da minha insistência, talvez por terem percebido que combatia eu com armas emprestadas e a melancolia que isso me causava.

A alegria que eu tive com a minha pistola de fulminantes! Ah, e a minha bisnaga vira-bicos, ainda hoje me aviva lembrá-la. Tais experiências, se fossem tão pérfidas, ter-me-iam tornado um assassino em série ou, pelo menos, um militarista exarcebado. Mas não, apenas me tornaram cansável face a estas ininteligências disfarçadas de hermeneutas.

[e falta-me o tempo para aqui lembrar todas as maravilhas da Enid Blyton, Salgari, Os Pequenos Vagabundos, Verne, Karl May, mais os etcs, já para não falar nesse terrível "brincar aos médicos". Tudo isso carregado de estereótipos, como é óbvio - mas que gente infeliz]

(E agora lembro-me desses iluminados americanos que há pouco tempo queriam proibir a leitura de Mark Twain, pecado de racismo, claro está).

Publicado por jpt às agosto 26, 2004 12:43 AM

Comentários

Quando a sua "mais-que-tudo" aprender a ler, não deixe de lhe dar a "Anita aprende a ler". Conhece? Foi o meu primeiro livro e a ele devo a introdução a alguns dos valores que ainda hoje mais prezo. Também não percebo o preconceito quanto à Anita. Já em relação ao Mark Twain e ao racismo, tinha precisamente a ideia contrária à que exprime.

Publicado por: ... às agosto 26, 2004 02:09 AM

Que delícia.
e que bem que me fez lembrar esses nomes. faltam uns outros tantos, um dia talvez ajude eu a seguir a dança. fizeste-me lembrar uma coisa agora. não conseguia esconder o meu desagrado por causa da obsessão do meu Peter Pan pelas espadas e pistolas para matar os maus. lá lhe consegui convencer de que só os maus mesmo é que as utilizam. no outro dia estava de férias comigo, fomos à praia. tem medo das ondas. a primeira coisa que fez foi buscar um pau de cana que encontrou na areia e colocar-se na beira mar...disparando tiros com a sua pistola das ondas... e depois delas todas mortas, lá fomos ao banho. Há pouco telefonei-lhe, estava todo orgulhoso, não tinha tido medo das ondas. Não sei se as dizimou todas antes. Tenho estado atento ao noticiário e não ouvi falar de nenhum morticínio de ondas. Que importa. Como tu dizes, não há relação directa entre uma coisa e outra. Também eu fiz de todos os paus uma espingarda, do Bonanza, do Daniel Boone, e não deixei de ser objector de consciência e adepto da não violência. Obrigado por me lembrares que ser pai é sempre uma tarefa de caça-fantasmas. os nossos. Os melhores sonhos para a Anita.

Publicado por: jpn às agosto 26, 2004 05:48 PM

Na verdade, há literatura infantil que contém o virus da desmoralização.
Veja-se o caso da "Branca de Neve": no fundo, é a história de uma gaja que vive com sete gajos na mesma casa. E ainda por cima anões!
Grande Tarada!!!
:-)))

Publicado por: Marco às agosto 26, 2004 09:13 PM

Em tudo na vida, fundamentalismos exacerbados, além de serem sempre violentos, tiram a razão a quem pensa que a tem toda. Muito bonito texto este, também eu, menina, me revia na anita e hoje, mulher, sou a sua antítese - independente,despistada, e odeio tarefas domésticas, LOL!

Publicado por: Mar às agosto 27, 2004 01:49 AM