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junho 08, 2004
Rock in Cambodja: a crónica do não-Zé Francisco
Pois aqui estou eu para prestar o meu testemunho. E não contido, farei o retrato fiel do “Rock in Cambodja”, para os emigrados daí. O pior não foi o Cambodja, que aí nós, os Olivalenses, até somos muito miscíveis ... glórias das pedradas e alianças entre tribos. E era ver a atalhar caminho pelo meio do bairro J. …lá ia eu todo lampeiro: vamos em frente, não há que ter medo, é nem olhar para o lado, que estas beiras conheço eu. Há muito tempo que não sentia assim tão espampanante a minha (ainda que franzina) masculinidade. Mas dizia eu, o pior não foi o Cambodja, foi o que eu achava antes e achei depois de lá ter ido. E como sou o único que deve ter tal opinião, irei resguardar-me no recato do meu anonimato, pois “Zé Francisco” não será como é óbvio o meu verdadeiro nome, até porque de “Zé” ninguém se chama.
O que eu achava (pequena nota sobre o evento): Uma Patranha ! Irritou-me logo de princípio essa coisa de se colarem a causas humanitárias, e de tornarem aquilo um evento do estado. Causa humanitárias ??? 2% das receitas líquidas(!), podendo chegar a 5% (?). Vão fazer humor negro para outro lado!!! E pronto, achei que a dar qualquer coisinha, antes ao arrumador aqui á frente, que ao menos a esse sei para onde vai o dinheiro. Mas no último instante, nas últimas horas, casal amigo viu-se com 2 bilhetes a mais e com enorme esbanjo de amabilidade. E lá fomos.
O que eu achei (pequena nota sobre o cartaz): mas aquilo era um espectáculo dos anos 80, ou apenas uma exposição de seres embalsamados? Mas falarei apenas do Sting, que foi o que com expectativa vi, pois o resto do cartaz terei sempre hipótese de encontrar num desses arraiais que aí vêm por estes dias de santos. Havia lá um Carlos Sainz (acho que não era Carlos mas era Sainz de certeza), que devo poder ver de novo ali na tendinha mesmo em frente à casa dos bicos que por esta altura lá se encontra montada a vender superbocks quentes e farturas frias. Ora sobre este ícone (e volto ao ex-polícia) leio hoje nos jornais que ele apenas tocou o imprescindível. Opinião de quem certamente não esteve lá, ou então estava naquela coisa branca, a 1 kilómetro de distância, que tinha o nome distinto de Tenda VIP, e onde se vendiam vaidades mas certamente não se ouvia música. Aquilo até corria bem, uma mole de 100.000 pessoas, bom som, apesar do vento que varria o vale pelo lado oriental. Às tantas entrou o Roxanne (pela reacção diria que toda aquela gente há-de ter estado no Restelo, naquele memorável concerto dos Police - enfim, admito que nem todos tenham tido a sorte de assistir ao show erótico no final, dançado por entre os arames, com que nós fomos agraciados, mas mesmo tirando isso, foi daquelas recordações que se guardam). Fiquei na expectativa de ver entrar o refrão, luzes sobre o público, era ver pular, pular….pular, uma massa inacreditável de cabeças, floresta de braços no ar, pensamentos estranhos e dispersos “e agora se largassem aqui uma …”, varrido de imediato pela orgulhosa sensação de que de facto a gente até somos muitos e “venham de lá os espanhóis”. Mas aqui é que as coisas complicaram! Olho para trás, e que vejo? 200.000 patas batendo desenfreadamente no solo. O pó levantando-se numa enorme nuvem, de todos os quadrantes do recinto. O vento soprando, metódico, fraco o suficiente para não dispersar aquela nuvem cremosa, disciplinadamente empurrando-a na nossa direcção. Aos poucos uma espessa nuvem, daquelas que nos deixam o nariz em bola e os olhos a fazerem lama no canto, eleva-se e vai sendo empurrada de mansinho, justamente de encontro ao palco. Vejo-a passar por cima da minha cabeça. Juro que vejo a cara do Sting encher-se de pânico. Segunda vez o refrão, a mesma coisa. Claro que a seguir o gajo cantou um swing, e depois outro. Ainda puxou umas rockadas pelo meio. Mas quando saiu não foi por ter cantado o imprescindível como os jornais contam, saiu corrido pelo pó.
Mas houve um final do melhor que já vi até hoje…. Eheheh. Ora bem, o homem acaba, o cartaz diz-nos que ainda aí vem o Abrunhos. Começo a pensar que aquilo será a noite de glória para o gajo do bigodinho. Já viste, o gajo a fazer voz grossa para 100.000 pessoas ? mas logo vou adiantando para quem comigo está que o melhor era o tipo entrar logo, logo. Meio dito, meio feito. Assim que nos viramos para a porta, intenção declarada de sair, constatamos que todos, mas todos mesmo, se encontravam virados na mesma direcção. Lá em cima olhei para baixo, e por detrás da manada, ainda pude ver a plateia, cheia…. de copos de plástico. Li hoje que foi um belo concerto, com mais de 15.000 pessoas. Enfim, podia ter sido pior!
E pronto, aqui tens a minha crónica, propositadamente ácida para te tirar a pena de por cá não teres estado. Muito melhor que aquilo foi a festa do Sonyman na sexta. Casa bonita, gente amiga cada vez mais cota cada vez mais igual, anfitriões do melhor. Essa é sim, perdeste.
Um abraço
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POSFÁCIO do JPT: essa no Restelo...! Lembras-te quando o S. Copeland se levantou e veio dançar, deixando a caixa de ritmos a tocar, e o pessoal quase que lhe arrancava o escalpe, sacana tanguista, a gente a julgar que aquilo era tudo ele?
Essa do Sonyman (private, private) é que custa.
Questão final: e lá no Cambodja, afinal ainda fumaram charros? Ou o fumo todo era do pó? Bem, e sobre este nem pergunto, ainda me fecham o blog!
Publicado por jpt às junho 8, 2004 04:19 PM
Comentários
Ganda lata que tu tens, expondo-me assim !!! Mesmo que eu não seja eu claro.
A partir de agora só levas com 3 linhas e mai'nada.
Olha, quanto a mais curiosidade que possas ter pergunta aí ao B... que tambem por lá andava, com olhos nostálgicos ... ou seria do pó sei la !
Publicado por: Zé Francisco às junho 8, 2004 06:56 PM
não te zangues ó não-zé, só pus em letra grande...abraço (depois conta o resto via email, sff)
Publicado por: jpt às junho 8, 2004 07:29 PM
ó homem, estenda-se... os blogues são arremedos "inconcientes" que, parece, ainda não fazem prova no reino do gato constipado. De qualquer maneira, no fim da linha, resta-lhe pedir asilo político na Suazilândia.
Publicado por: Isidoro de Machede às junho 8, 2004 07:52 PM
JPT,
lá no cambodja ainda fumámos charros.
coisa gira essa de ver diferentes gerações a curtir de igual maneira.
pó não posso jurar por estes que a terra há-de comer, mas concerteza que também por lá havia, faz parte da socialização de alguns...
P
Publicado por: PLH às junho 9, 2004 01:35 AM