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junho 24, 2004
Contadores de visitas e tiques bloguísticos(entrada devida a insónia)
Gosto muito do Causa Nossa. Inteligente, elegante, oposicionista (por enquanto, nesta última característica). Só qualidades, mesmo que se discorde aqui e ali. Tive até o prazer de integrarem nele dois ou três comentários que lhes enviei via mail, para mim uma elevação.
Ontem Luís Filipe Borges colocou o Ó tempo volta para trás lamentando o desaparecimento da empatia e solidariedade intra-bloguística, assassinadas, ironiza ele, pela introdução dos contadores de visitas (logo uma hora após os blogs). A maldita concorrência, sempre inimiga da harmonia, lá está o paradigma.
Talvez, estou longe e cheguei depois. Não conheci essa Idade (Hora) de Ouro.
Mas ainda noto alguns tiques bloguísticos dessa "comunidade perdida" que LFB lembra. Não só a entreajuda - os malditos sistemas (só cá estou porque o LE interrompeu o seu garimpar poético para me ajudar a desmatar a terra), as referências, os comentários, as ligações, sei lá. Ainda que tudo isso a indique, uma articulação de gente desconhecida em actividade gratuita (grátis e inutilitária).
Falo de traços verbais que denotam igualitarismo entre bloguistas. Visível nas formas de nomeação, de denominação, de tratamento. Notável, no português de Portugal, inchado de títulos e hierarquias explícitas e implícitas.
A maioria dos interlocutores trata-se por "tu", mesmo desconhecendo-se (o que ainda é mais explícito nos "comentários"). Para além da idade (quantas vezes só presumida) ou do sexo. Ou então, mais raro, por um "você" indizível mas com o nome próprio a aproximá-lo (em que outro sítio é que alguém me chamaria "José"?).
As pessoas são conhecidas pelo nome próprio (ou alcunha assumida, o que é denota ainda maior proximidade: em que outras condições é que eu trataria o, obviamente insigne, Dr. ... por "grande besugo"?). E são assim nomeadas (p.ex acabei de falar no LE, numa entrada mesmo anterior no Lutz: nada de apelidos). Quando há maior distância, vá lá, transige-se e junta-se-lhe o apelido, num ó Carlos Gil.
O tratamento é pessoalizado ao extremo. Os habituais "o meu amigo", "o meu querido", etc. surgem com frequência associados a algo como "apesar de não nos conhecermos pessoalmente".
Mas também se pessoaliza a outro nível. Pela utilização do artigo definido. Todos escrevemos "agradeço ao Francisco José Viegas...". Mas se em jornal, rádio, tv, etc os mesmos diremos "agradeço a Francisco José Viegas...". Faltando o artigo, impessoalizámos.
O "tu" (ou o “V”. muito próximo, igualitário), o "nome próprio", o "o/a". Também com isto se constrói uma comunidade, um "estamos a falar" entre iguais, sem hierarquias. Comunidade construída, como todas. Construída porque feita e porque exagerada, ficcionada. Com rivalidades e concorrências (as tais do site meter, como sorri saudoso LFB, e outras) como qualquer outra. Que isso da Hora de Ouro parece concurso da RTP-África.
E é a construir tal ficção de comunidade que eu falo com o Luís, com a Margarida [aqui com o V. da diferença de sexos, coisas da nossa idade], com o Alex, com o Isidoro (no V. porque nunca comemos juntos e ele é mais velho, decide). E com todos os outros. Todos "queridos amigos", "blogoamigos" que desconheço (só conheço nove bloguistas, de outras andanças).
Mas neste moldar de proximidades há excepções. Nunca li ninguém referir-se ao José. Nem ao José. Nem ao Vital
Porque não? Por estatuto. Pois se todos chegam com algum estatuto distintivo [excepto os anónimos, claro] só a alguns é aceite viver in-blog de acordo com esse lugar prévio. E, por isso, são tratados de modo diferente. Em outros, pelo contrário, esse lastro estatutário é "esquecido" pelos interlocutores: atrever-me-ia eu, noutro contexto, a invocar publicamente o Velho, ainda que ele o saiba sinal de admiração bloguística?
Deste modo a minoria a quem é atribuído o seu estatuto anterior (pré-blog) é tratada de modo diferente. Um respeito verbalmente explicitado. Claro que eles são da tal "comunidade" de blogs (e Pacheco Pereira fê-la explodir). Mas não são da tal "comunidade" de blogs, daquela que LFB lamenta o fim. O que não lhes é devido, à sua prática. Mas sim devido a todos nós, outros, porque os tratamos de modo diferente. Todos nós assumimos, de imediato, uma "estratégia de distinção" diante desses alguns. Educação, bons modos, respeito, claro. Mas assumpção de hierarquias, claro. Estratégia de distinção que nos habita.
Porquê este arrazoado? LFB lamenta a concorrência (o mercado) como factor de dissolução de uma era de comunhão. Eu discordo. Entendo "comunidade" uma outra coisa, bem menos ídilica (ai as utopias terroristas). E veja a sua hipotética dissolução com outras causas (ai os paradigmas).
Olho para o Causa Nossa e leio, logo a seguir a LFB um texto de Vicente Jorge Silva (lá está: nome completo e sem artigo): "Apesar da modéstia dos nossos propósitos, a festa do Causa Nossa, ontem à noite, assumiu a dimensão de verdadeiro acontecimento histórico: pela primeira vez, os bloguistas portugueses aceitaram descer do olimpo blogosférico e conviver uns com os outros".
Ora até eu aqui em Maputo sei que já houve uma série de encontros, almoços, reuniões de bloguistas. Vicente Jorge Silva não sabe isso, é normal, terá imenso que fazer na vida, e está a escrever com prazer sobre o encontro que co-organizou. Não vem mal ao mundo com este escrito, nem grande nem pequeno. Nem há ponta de acinte ou ironia no que aqui escrevo. Pego-lhe porque indicativo. Explicativo.
Pois acredito que se fosse o Vicente a escrever não lhe brotaria a ideia de que a sua festa tivesse sido início de algo, causa primeira de coisa primeira. Que se os bloguistas o chamassem, se lhe referissem, em cúmulo de respeito como entre nós, como o Vicente essa compreensão do fazer parte e de não ser motor seria mais fácil, mais imediata. Em suma, se assumissemos também para estes pesos-pesados out-blog o tratamento integrativo, menos a-comunitário seria o seu raciocínio. E a sua ironia (vide LFB).
Onde quero chegar? A que não é a concorrência que disturba a tal comunidade ironizada/imaginada pelo Luís Filipe. São os estatutos (legítimos, porque provenientes da meritocracia. Ainda que esta seja mera ideologia, como sabemos). As ordens. Digamo-las pré-modernas. Não como o mercado (dos site meter). Onde, mesmo que não liberais, nos tratamos pelo primeiro nome. E por tu, ou por um V. igualitário. E onde não somos demiurgos. Porque não temos estatuto para isso. Mas temos consciência disso. De ser apenas homens/mulheres, a estrategizar em comunidade, cheia de concorrências esta. E onde nada começamos, porque não Enormes.
Publicado por jpt às junho 24, 2004 03:47 AM
Comentários
Caro amigo,
A insónia dá-lhe um acréscimo à inspiração!
Muito grata pelas palavras sempre profundas e sinceras; construídas de um sentir sincero, e 'feitas' de experiência :)
Publicado por: MP às junho 24, 2004 02:13 PM
Dr. José Flávio Pimentel Teixeira, permita que lhe diga que achei o seu post excelente. Bendita insónia. Respeitosos cumprimentos.
Publicado por: João às junho 24, 2004 04:38 PM
Belo post, Zé. Não vou dizer que devia ter mais vezes insónias, seria pouco caridoso da minha parte; mas se daí resultassem textos destes, ao menos a noite em claro valeria bem a pena! ;)
Publicado por: 1poucomais às junho 24, 2004 09:56 PM